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Zoom da semana nos mercados financeiros: análise por geografias


Com os mercados Chineses fechados até segunda feira - na comemoração da vitória chinesa sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial - os investidores vivem um momento de algum alívio depois da turbulência verificada nas últimas semanas. A par disso, assiste-se ao avançar do BCE com uma maior flexibilização do seu programa de compra de ativos, aumentando a percentagem máxima (de 25% para 33%) que pode comprar em cada emissão de obrigações, fazendo regressar a volatilidade aos mercados com o euro a ser empurrado para baixo face ao dólar.

A determinação de Draghi em implementar o QE até que sejam visíveis os resultados coloca pressão no Euro e se amanhã os NFP nos Estados Unidos saírem em linha com o esperado, o Eur/USD irá conhecer um período de grande volatilidade.

Por regiões, destaco:

Nos Estados Unidos, com a reunião da Fed, do próximo dia 17 de setembro, como pano de fundo a economia americana dá sinais mistos ao mercado. O relatório macroeconómico da Reserva Federal (Beige Book) revela que a economia continua a expandir-se, com o mercado de trabalho a aparentar estar suficientemente preparado para algumas melhorias salariais, apesar de muitas empresas começarem a sentir o impacto da desaceleração da economia chinesa.

Os 12 bancos regionais, que fazem parte da Reserva Federal, reportaram um aumento das pressões salariais devidas à solidez do mercado laboral. Esses aumentos salariais podem favorecer a subida da inflação, mas o crescimento mais lento da economia global tem repercussões no preço do petróleo, tornando a meta de inflação de 2% mais difícil de alcançar.

Ainda tempo para uma nota curiosa: em julho a palavra "China" não foi citada nenhuma vez no relatório, em agosto a mesma palavra foi mencionada 11 vezes.

E, precisamente, viajando até essa região é pertinente comentar que a pausa observada na volatilidade global tem origem no facto dos mercados chineses se encontrarem fechados até á próxima segunda-feira. Alguns analistas afirmam que será a altura ideal para o Governo Chinês avançar com algumas reformas adicionais.

Rumando novamente ao outro lado do Atlântico, mas mais a sul: Pela primeira vez na história, o orçamento de estado para 2016 no Brasil enviado pelo governo ao Congresso apresenta um deficit. A proposta avança com a previsão de um deficit primário de 30,5 mil milhões de Reais. Claramente, vítima da conjuntura internacional e da retirada de estímulos fiscais internos, o sector produtivo agoniza apesar do governo avançar com alguns prognósticos menos pessimistas. A convicção do mercado é de que os dados apresentados pelo executivo de Dilma não se vão verificar na realidade. Projeções económicas são muito difíceis de fazer e, se alguns analistas apontam para um deficit de 3% o orçamento somente prevê uma queda de 1,8% em 2015. A situação neste momento é mais grave que a crise de 2008/2009 e apesar de se notar algum esforço por parte do governo em conter o crescimento da despesa, a sua ação está muito longe de obter resultados relevantes.

A greve anunciada pelos trabalhadores da Petrobras, que tem início hoje, 4 de setembro, por tempo indeterminado, pode ter um impacto muito significativo.

A produção industrial de julho caiu 1,5% face a maio de 2015 e 8,9% em relação ao período homólogo do ano passado. Somente em 2015, a produção industrial já recuou 6,6%. De entre as grandes categorias económicas, destaco a queda registada pelos bens de capital, que face ao mês de julho de 2014, recuaram 27,8%. A indústria de máquinas e equipamentos vive uma situação crítica, com as exportações a descerem 26% e as importações 23,6%. A utilização da capacidade instalada está agora nos 66,6% (face a 75.4% em julho de 2014 ). 

Também a criação de empregos abrandou, com a taxa de desemprego a subir de 6,8% para 8,3%, com particular destaque para os trabalhadores mais jovens (entre os 18 e os 24 anos a taxa de desemprego situa-se nos 18,6%).

Saliento também a reunião do Comité de Política Económica do Banco Central do Brasil que decidiu manter a taxa Selic, que atualmente está nos 14,25%. A decisão era a esperada pelo mercado e o Banco Central voltou a afirmar que a manutenção da taxa de juro neste nível por um período prolongado é necessária para atingir a meta de inflação de 4,5% em 2016. A expectativa da maior parte dos analistas para a inflação no final de 2015 é de que esta fique nos 9,28%.

Voltando à Europa e no que refere ao nosso país, a República Portuguesa colocou esta semana dívida sob a forma de Obrigações do Tesouro a sete anos a uma taxa de 2,24% com uma procura que atingiu quase o dobro do montante colocado. É relevante que, numa altura em que o cenário internacional se apresenta com algumas dúvidas, como o caso da Grécia, da China e com a possibilidade de subida de taxas nos Estados Unidos claramente a pender sobre os mercados, Portugal consiga colocar dívida a 7 anos a uma taxa interessante, motivando assim a procura por parte de investidores estrangeiros (somente 9,4% dos títulos ficaram em posse de investidores nacionais).

(Imagem: Paul B0udreau, Flickr, Creative Commons)