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O Reino Unido invoca o artigo 50. E agora? As gestoras comentam


Não há como voltar atrás. Já é oficial. O Brexit está em marcha. Theresa May invocou o artigo 50 do Tratado de Lisboa e a partir de agora o Reino Unido e a UE têm dois anos para acordar os termos do seu divórcio. E, como em todos os acordos de separação, não será um mar de rosas. A primeira-ministra britânica está otimista e insiste em que a Grã Bretanha está a “começar um novo capítulo audaz como uma nação próspera, aberta e global”, mas os que até agora têm sido os seus associados comunitários tratarão de lhe recordar que fora do matrimónio o país estará pior. “Há uma enorme quantidade de dinheiro em jogo e enquanto o Reino Unido exige a opção à carta, decidindo os parâmetros dos acordos, a UE defende um menu fechado, sem opções”, afirma Howard Cunningham, gestor de fixed income da Newton, filial da BNY Mellon IM.

Tal como indica o especialista, por agora estão todas as opções na mesa. “Não sabemos quais os pactos a que chegarão em assuntos como o passaporte europeu, os acordos comerciais, ou aspetos específicos em determinadas indústrias (como por exemplo os acordos nas pescas). A posição inicial da UE é de que os seus membros sejam solidários e mandem uma mensagem de firmeza ao Reino Unido, no sentido de que não se pode querer guardar o pastel e comê-lo ao mesmo tempo”, indica Cunningham. Essa será o que tentarão que Theresa May entenda da parte de Bruxelas. A questão para ambas as partes é que o cronómetro já está a funcionar e que, não se chegando a um acordo num período de 24 meses, a saída será brusca, e isso não deverá querer ninguém. “O tempo será um grande factor de pressão ao longo das negociações”, indica Paul O’Connor, responsável da área de multiativos na Henderson Global Investors.

Mas o relógio não é o único elemento a colocar pressão neste tema. Também introduzirá tensão a forma como vão levar a cabo os acordos. Enquanto que o Governo britânico quer negociar os diferentes aspetos do Brexit em paralelo, o presidente da Comissão Europeia e alguns estados membros estão a exigir que primeiro se enfoque o Brexit, atrasando as conversações sobre futuros acordos comerciais, até que se chegue a um pacto sobre os custos que representará a saída do Reino Unido, a questão dos imigrantes que vivem no país, ou as questões relativas à fronteira irlandesa. Embora ambas as partes possam, em teoria, acordar prorrogar o prazo para as negociações,  para O’Connor esta opção parece difícil dada a postura atual do Governo britânico e o facto das eleições para o Parlamento Europeu estarem previstas para maio de 2019. “O processo começa com poucos a partilharem do otimismo do governo britânico de que se alcançará um acordo comercial dentro do prazo estabelecido”, reconhece o especialista.

No que diz respeito à economia dos que até agora eram homólogos, existe tranquilidade total em ambas as partes. Pelo menos por agora. Depois do referendo sobre o Brexit, o crescimento no Reino Unido mantém-se em alta. No quarto trimestre o PIB aumentou cerca de 2,9% em termos homólogos, depois de marcar uma progressão de 2,3% nos dois trimestres anteriores. Os índices PMI viriam a confirmar o sólido crescimento neste início de 2017, embora os valores sejam um pouco menores do que o seu máximo post-brexit, registado em dezembro. No que diz respeito à inflação, acelerou-se nestes últimos meses até alcançar os 2,3% em termos homólogos em fevereiro (2% sem energia e alimentação), devido, sobretudo, à subida dos preços do crude e à depreciação da libra esterlina. A queda da divisa provocou uma forte subida do preço dos bens e serviços importados, que deverá repercutir-se progressivamente nos preços do consumo, assinala Julien-Pierre Nouen, diretor de estudos económicos da Lazard.

No que diz respeito à "Europa que está no euro", o crescimento consolida-se, com uma progressão homóloga de 1,6% no quarto trimestre, depois dos 1,7% do terceiro trimestre. O crescimento para o ano de 2016 foi de 1,7%, depois dos 2% registados em 2015. “Do PIB desagregado deduz-se que o consumo tem sido o maior factor de crescimento. O investimento e a variação dos inventários têm fomentado também a atividade, de tal forma que o comércio externo pesou em sentido negativo. É que embora as exportações tenham aumentado (cerca de 6,1% em termos homólogos), não foram suficientes para compensar o forte aumento das importações (8%)”, afirma o especialista. Os dados estatísticos disponíveis para o primeiro trimestre levam a crer que as coisas na Europa vão bem no que diz respeito ao crescimento económico.

“As vendas a retalho na zona euro retrocederam ligeiramente em janeiro relativamente ao mesmo mês do ano anterior (-0,1%), mas as receitas relativas ao turismo foram pujantes em fevereiro, e a produção industrial aumentou em janeiro (+0,9%) depois da forte queda registada em dezembro, graças à subida alemã. Para além disso, e tendo em conta a incerteza política, o clima de confiança dos negócios continua a melhorar. O índice PMI composto do conjunto da zona euro aumentou de 54,4 para 56,0 em fevereiro, um dado que deixa antever um crescimento superior a 2,0%. A inflação global continua a seguir uma caminho de recuperação, com 2,0% interanual em fevereiro, face aos 1,8% registados em janeiro, embora a inflação subjacente continue a ser bastante moderada (0,9%)”, conclui o especialista.

 

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