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Porque é que o mercado absorveu melhor a última subida de taxas da Fed do que a anterior?


Dizem que o passar do tempo ajuda a distanciar as pessoas dos eventos traumáticos do passado, e o certo é que, 13 meses mais tarde, muitos quiseram esquecer o começo difícil de 2016. Contudo, uma das formas de conhecer o futuro é estudar os precedentes históricos, e isso é o que faz Vincent Reinhart, economista-chefe da Standish (que faz parte da BNY Mellon IM): “Por esta altura, em 2016, a autoridade monetária norte-americana estava abalada pela reação que provocou no mercado financeiro, a subida de 25 pontos base nas taxas, na sua reunião de dezembro de 2015. Este não era o plano”, afirma o especialista.

Refere-se ao facto de que a entidade tinha assinalado, nos meses anteriores, a probabilidade de uma subida de taxas, pelo que “não existia um elemento surpresa” na atuação da Fed. Porém, como se verificou depois, existiu uma forte apreciação do dólar, as ações entraram em colapso e os spreads de crédito aumentaram. “Só uma queda significativa dos treasuries evitou que as condições financeiras asfixiassem a expansão económica. O efeito líquido acabou por ser um assalto frontal a muitos portefólios de obrigações”, recorda Reinhart.

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O especialista explica os três fatores que, na sua opinião, justificam o comportamento mais relaxado do mercado, apesar da Fed ter voltado a aumentar as taxas na sua última reunião de 2016. Começa por afirmar que, apesar da insistência do Federal Open Market Committee (FOMC) em tomar as decisões em função dos dados, “o grupo centrou-se mais no calendário do que na informação que estava a observar”. “A Fed tinha declarado que subiria as taxas antes do final do ano. De facto, os dados económicos norte-americanos tinham desapontado no momento anterior à sua reunião”, acrescentou o economista-chefe. Assim, no seu ponto de vista, o primeiro fator diferenciador é que, em 2016, “tanto o momentum da produção mundial como o entusiasmo do mercado pela mudança do governo tinham levado os dados a ficarem acima dos prognósticos dos economistas”. De facto, Reinhart acrescenta, “parece que a perceção da subida dos riscos foi distorcida” por este entusiasmo.

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Em segundo lugar, o especialista recorda que há um ano atrás a China era o epicentro da preocupação dos investidores, que estavam preocupados pela forma como se estava a executar a alteração do modelo económico. “No começo de 2017, o presidente chinês Xi Jinping tem sido elogiado, pela comunidade internacional, pelo apoio da sua nação na globalização e pela sua contribuição no progresso económico”, comenta o especialista.

Isto explica, em última instância, que a subida das taxas efetuada pela Fed em dezembro de 2015 tenha tido um significado mais amplo para os mercados: “Os investidores interpretaram a subida como um sinal de preocupação, porque a autoridade monetária pretendia prosseguir com a sua previsão de quatro subidas de taxas no ano seguinte. Este ritmo não tinha sido refletido, nem de longe, no preço dos ativos e parecia desproporcionado em relação às circunstâncias”. 12 meses depois, parece que os membros oficiais da Fed moderaram as suas expetativas para uma previsão mais realista, “até ao ponto de existir pouca amplitude entre as suas expetativas para o futuro do euro/dólar”.

O ponto a que o economista-chefe quer chegar é às circunstâncias atuais do mercado: “Se o momento económico é estável, a procura agregada está a subir, quase todos os recursos que estavam inativos estão a ser utilizados e o mercado sente-se confortável com duas ou três subidas de taxas este ano, então porque é que o FOMC não subiu as taxas na sua reunião a 31 de janeiro?”. A resposta é clara, na sua opinião: “Na era moderna de comunicação da Fed, os seus oficiais têm estado dispostos a surpreender. Dito isto, atualmente estamos a viver a segunda situação”, resumiu Reinhart.

Se a isto acrescentarmos a incerteza em torno do rumo das políticas de Donald Trump, enquanto presidente dos Estados Unidos, o especialista acredita que a margem para uma subida de taxas é reduzida. Refere-se à linguagem empregada pela presidente da Fed num dos seus discursos recentes, quando o seu resumo sobre a visibilidade das taxas em dezembro foi aquilo que os participantes do FOMC esperavam “subir as taxas de juro algumas vezes durante o ano até que, no final de 2019, estejam perto da nossa estimativa de uma taxa de juro neutra a longo prazo de 3%”. Na interpretação do economista da Standish é de que hoje até ao final de 2019 existem programadas 24 reuniões do FOMC, e se pretendem chegar aos 3%, “a Fed terá que votar na subida de 25 pontos base em nove de cada dez”. Se for só para aproximar-se desse nível, então “irá implicar, mais ou menos, duas ou três subidas por ano”. A conclusão a que chega Reinhart é de que se a Fed optar por continuar a sua estratégia cautelosa, “irá optar, em primeiro lugar, por um ritmo de subidas mais lento”.

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