Nick Sheridan (Henderson): “Os investidores estão a atuar de forma irracional. Estão a ser forçados a vender a preços que não deveriam”


Nick Sheridan gestor do Henderson Horizon Euroland, um fundo classificado como Consistente pela Funds People. Opina que atualmente as obrigações europeias não estão caras. “As empresas europeias são mais competitivas do que no passado.  A queda do mercado aconteceu em resultado de situações isoladas; ninguém espera uma recessão global. A correção é controlável, e no curto prazo está a gerar possibilidades de arbitragem porque nem todos os mercados estão a cair da mesma forma”, detalha sobre o impacto do Brexit nas bolsas europeias nas últimas semanas. Sheridan opina que “as bolsas encontrarão o seu próprio nível, e entretanto existe a possibilidade de se comprarem títulos internacionais e de qualidade com um bias value”. “A única diferença entre este momento e o de há quatro semanas atrás é que agora se pode comprar mais barato”, sentencia o gestor da Henderson.

Excluindo o impacto do Brexit, o especialista defende que as ações europeias estão em boa forma: “As empresas estão a bater as expectativas de lucros. Há mais oportunidades para investir. Para além disso, estamos a assistir a muita atividade de fusões e aquisições (M&A) na Zona Euro e na Europa Continental, e as empresas europeias que oferecem rentabilidade por dividendo estão bastante baratas”. A isto acrescenta que “o aumento da procura de crédito é bom, porque significa que as pessoas estão numa situação melhor. Não se pede emprestado quando se acredita que algo vai correr mal. Portanto pode-se tomar como um bom indicador da procura doméstica”.

Ao confrontar os dados com a realidade, Sheridan constata que “os investidores estão a atuar de forma irracional, estando a ser forçados a vender a preços que não deveriam vender”. O cerne da questão é que o gestor costuma aproveitar os momentos de queda para comprar mais: “Compro geralmente quando os valores caem e os títulos da imprensa são maus”, afirma. Acrescenta que “não é agradável comprar quando um título está a cair cerca de -16%, mas quando essa oportunidade existe há que aproveitá-la”.

“O Brexit fez muitos investidores acreditarem que agora não é um bom momento para investir na zona euro. No entanto, as ações estão baratas e os dividendos são atrativos”, insiste Sheridan. Para ele, “o Brexit não é a conclusão de nada. O referendo necessita de ser aprovado no Parlamento, e a maioria dos seus membros está a favor da permanência”. Sheridan calcula que o PIB do Reino Unido poderá cair entre 50 e 200 pontos base, o que por sua vez poderá ter um efeito entre 0,3% e 1% para o PIB da UE. “Acreditamos que quanto mais tempo o Reino Unido tardar na negociação da saída, mais consequências financeiras existirão”, indica.                                                                               

Para o gestor são mais importantes os efeitos do referendo no longo prazo. “Acreditamos que vai acontecer uma transferência de trabalhadores do Reino Unido para a Europa”. A razão é que acredita que os mais afectados poderão ser a geração de britânicos que estão a fazer formação universitária ou que ainda não começaram uma carreira, visto que 25% financiamento das universidades britânicas provém dos fundos da UE. Juntamente com a transferência de empresas para outras partes da Europa, Sheridan prevê que poderá acontecer uma fuga de cérebros, e conclui: “no longo prazo, o Brexit não é mau para a UE  porque desperdiçará empregados com talento. É um problema geracional”.

Posicionamento

A carteira do Henderson Horizon Euroland costuma estar concentrada entre 40 e 50 títulos. No último mês, a carteira passou de 50 títulos para 46, e o gestor planeia reduzir para 40 no final de julho. As ponderações oscilam sempre entre 1% e 5%.

Mesmo o seu estilo sendo value, o gestor não tem somente em conta o PER. De facto, explica que os valores que tem em carteira costumam parecer um pouco mais caros do que o mercado, mas na realidade apresentam melhores fundamentais. Atualmente, o PER médio do fundo é de 14 vezes, em comparação com 14,7 do índice. A dividend yield está em linha (3,4%, que compara com 3,6% do índice). Mas o ROE é de 20,3%, perante os 12,8% do índice, e as margens são de 10,4%, o que compara com 8,2% do índice de referência. “Procuramos aquelas empresas que foram vítimas de um erro de mercado”, resume.

Outro dos pormenores que distingue Sheridan do protótipo do gestor value é o facto de preferir evitar empresas muito subvalorizadas: “Para investir em deep value, necessito de estar completamente seguro de que não estou a assumir riscos financeiros. Cerca de 10% da carteira está investida em valores deep value, mas sem esse risco. Prefiro o value ‘normal’, que me permite comprar empresas de qualidade e com elevadas barreiras à entrada”.

Sheridan concentra-se em empresas com capacidade para melhorar os seus lucros ao longo do tempo e crescer de forma orgânica, mediante o reinvestimento dos seus fluxos de caixa. O seu horizonte de investimento é de longo prazo, e assim mostra a carteira: entre 20% dos títulos estão em carteira há mais de três anos, e outros 20% estão entre um e três anos. Os restantes 60% estão em carteira há menos de um ano.

Como resultado de stock picking, Sheridan atualmente sobrepondera valores industriais (entre os quais se incluem ACS, Logista, AENA e Red Elétrica), de consumo cíclico e tecnologias de informação, enquanto subpondera telecomunicações, consumo básico, saúde e materiais. Entre as últimas mudanças que foram efetuadas figura a sobreponderação ao sector financeiro (uma mudança de estratégia).

Sheridan termina a entrevista com um conselho: “Caso seja um investidor europeu, existe agora uma boa oportunidade para comprar títulos com boas perspetivas no longo prazo. Entendo as preocupações, mas para investir, se fores um pouco corajoso, deves aceitar que as ações podem cair um pouco no curto prazo”.

Profissionais
Empresas

Notícias relacionadas

“NegExit...”

Os mercados financeiros apresentam evidentes sinais de que as taxas de juro negativas estão a provocar distorções. Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal, fala de uma urgente mudança de paradigma.

O Mais Lido