Verdadeiramente market neutral


Quando a Kames Capital começou a desenhar a sua gama de fundos de retorno absoluto, em 2010, sabia que não queria “mais do mesmo” relativamente ao que já existia no mercado. Luc Simoncini, senior equity product specialist da casa, em entrevista à Funds People, recorda precisamente que construíram uma gama de estratégias que investisse tanto no espectro de fixed income como de ações, e daí adveio o que apelidam de uma “vasta” gama de fundos de retorno absoluto. “Quando começámos a desenhar esta gama de produtos, o mercado já estava bastante crowded. Percebemos, por essa altura, que já existiam coisas muito diferentes dentro deste espectro; era uma espécie de um jardim zoológico; era como se todos esses “animais” puxassem dos galões e dissessem “eu sou retorno absoluto!”, mas, em boa verdade, tratavam-se de elefantes, tigres, zebras, ou seja, animais todos muito diferentes entre si”. Nessa prospecção de mercado, perceberam, também, que este tipo de estratégias são “bastante complicadas de entender”, e não era nada disso que queriam proporcionar ao mercado.

O fundo Kames Global Equity Market Neutral Fund, que Luc apresenta à Funds People, é apelidado de bastante “simples”. “O fundo apenas investe em ações, com posições longas e curtas, através de títulos específicos, ou seja, não usamos futuros nem opções. Para além disso é um fundo market neutral, ao contrário da maioria. Isto significa que construímos o fundo de forma a que o alpha que geramos não tenha nada a ver com o mercado. Somos portanto ‘beta neutral’, e apenas permitimos que este varie entre -0.1 ou +0.1. Queremos providenciar aos nossos clientes um perfil de retorno que não esteja correlacionado com os mercados de ações, o que acaba por ser uma caraterística muito importante para alguns dos nossos clientes”, começa por dizer, elencando mais caraterísticas do produto. “Outro limite que o fundo apresenta é a nossa net exposure, que está entre -10% e 10%; a volatilidade, por sua vez, é baixa, e esta é outra das caraterísticas do fundo que gostamos de manter. O produto propõe-se por isso a manter 1/3 da volatilidade do mercado de ações”, elucida.  

Processo de construção do produto

Combinação entre análise quantitativa e qualitativa. É assim que o especialista começa por sumarizar o processo de investimento do produto. Contudo, o processo é bem mais extenso e a primeira fase passa por reduzir o universo de investimento e dizem fazê-lo de várias formas.

“Começamos por olhar apenas para países que fazem parte do MSCI AC World, ou seja, 47 países tanto de regiões emergentes como de países desenvolvidos. Seguidamente olhamos para empresas que tenham pelo menos 100 milhões de dólares de capitalização de mercado, e que tenham também alguma liquidez, ou seja, empresas com um volume diário mínimo de 3 milhões de dólares”, explica. Por terem uma perspetiva um “pouco anti mega caps”, tentam olhar para além destas empresas. “Acreditamos que estas são menos interessantes de um ponto de vista de research, porque tendem a ser as que têm maior cobertura do mercado. Tendemos a olhar para áreas de mercado que são menos cobertas, o que se traduz em small e mid caps, tipicamente”. Este primeiro passo culmina, portanto, em 4.000 ações, universo, que, claro, tem de ser reduzido,  no caso para cerca de 1.500. Luc explica que aqui entra em jogo um screening que “faz um ranking das 4.000 ações e as divide entre as melhores e as piores com base em três critérios (força financeira, cash flows e critérios técnicos), posicionando-as em cinco quintis. A essas 4.000 empresas é portanto atribuído um score que tem por base esses critérios”, remata.

A segunda fase do processo passa pela combinação entre a parte quantitativa e a fundamental. Olham por exemplo para o modelo de negócio da empresa, a sustentabilidade do seu do seu modelo de negócio, etc. “Como temos um número limitado de posições no portefólio (59-80) queremos ter a certeza de que conhecemos as empresas. Cada vez que colocamos uma posição no portefólio perguntamo-nos a nós próprios: como é que vai ser o impacto de adicionar esta posição à carteira? Queremos que o portefólio tenha o mínimo de risco de mercado, bem como o mínimo ‘factor risk’ (riscos ligados ao estilo de investimento, país, ou risco de moeda) porque na verdade consideramo-nos bottom up stock pickers”,  adianta.

‘Buy and sell discipline’

O screening atrás referido dá o mote, claro, para a disciplina de compra e venda dos ativos no fundo, mas leva-nos mais longe. “Imaginemos que olhamos para uma empresa que achamos que é interessante, que preenche os requisitos do screening, e que se posiciona bem para a parte longa. Fazemos a análise fundamental, e aí também se sai bem... investimos. A cada mês produzimos um novo update ao screening, e a posição em causa muda por exemplo do nível 1  para o nível 2. Precisamos portanto de monitorizar a posição. Quando alcança o nível 3, não temos mais nenhuma hipótese a não ser rever integralmente a posição. Se temos uma forte convicção, mantemos a posição por algum tempo em carteira, mas apenas com a condição de que melhore o seu posicionamento”.

Na parte “curta” do portefólio há também uma série de pontos a ter em atenção, especialmente quando existe um “short interest” em determinada posição. “Há formas de verificar quanto é que do free float da empresa é a cada momento ‘shortado’ pelo mercado. Se vemos que esta nuance cresce, é porque há cada vez mais investidores no mercado. Há que ter cuidado caso exista uma boa notícia inesperada, pois acontecerá um ‘short squeeze’ e o título deverá subir rapidamente e prejudicar a performance”, avisa.

‘Best ideas’

No fundo encontramos portanto os best performers (na parte longa e curta), os worst performers (na parte longa e curta) e ainda a performance por temática. Os pair trades, por seu turno, nem sempre são uma solução presente no portefólio, e por isso constituem uma pequena porção da carteira. “Os media tornam-se digitais” é atualmente uma das temáticas estruturais que a equipa reflete no portefólio – a ideia subjacente a este tema é a de que existe um rebalanceamento estrutural de longo prazo no orçamento de publicidade dos media tradicionais em direção ao online. “O que fazemos, neste caso, é ficar curtos nas empresas de media tradicionais e podemos ficar longos em empresas como por exemplo a Nielsen research, uma empresa que proporciona research e análises de audiência nos EUA a par com outros serviços em todo o mundo.

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