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Uma mean reversion milenar


A economia chinesa na posição de segunda maior economia do mundo não é uma novidade da última década. É, isso sim, resultado de uma ‘mean reversion’ milenar que está ainda numa fase inicial. “Um historiador e estatístico britânico chamado Angus Madison recolheu estatísticas da distribuição mundial do PIB desde o primeiro ano depois de Cristo até aos dias de hoje. O peso da China e da Índia neste PIB global era mais de metade ao longo de grande parte dos dois milénios. Mas se olharmos para os últimos 200 anos, com a industrialização massiva que ocorreu na Europa, estas duas economias perderam uma significativa representação. Quando falamos de reversão para a média falamos normalmente de semanas, ou meses, mas esta é uma reversão milenar. A China quer voltar para a posição que já deteve em tempos”, conta à Funds People, Nicholas Yeo, especialista no mercado de ações chinês e gestor do fundo Aberdeen Standard - China A Share Equity. O gestor chama a esta tese de investimento a “mãe de todas as reversões para a média”.

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O caminho

E que está o país a fazer para recuperar a sua posição? “Está a focar no desenvolvimento do consumo doméstico, urbanização e tecnologia. A China quer tornar-se num país desenvolvido e para isso tem que desenvolver o consumo doméstico. Uma forma de o fazer é através da urbanização. Movendo mais gente das zonas rurais para as cidades. Isto resulta num afastamento da produção agrícola e um desenvolvimento da produção industrial, e isso traz valor acrescentado e um desenvolvimento da classe média”, explica o profissional da Aberdeen Standard Investments, dando como exemplo histórico o desenvolvimento da economia da Coreia do Sul, que seguiu um caminho semelhante.

Como resultado destas políticas, o que se verifica na China é um crescimento acentuado do peso da classe média e alta. Em 2012 representava cerca de 17% das famílias nas zonas urbanas. Em 2022 deverão ser mais de 60%, segundo dados da McKinsey. “Mais emprego nas cidades significa maiores salários e mais empregos orientados para a prestação de serviços. E este é um excelente driver do crescimento do PIB”, comenta.

Segundo o especialista, apesar do peso das exportações e dos gastos públicos em infraestruturas ainda representarem um peso significativo, este tem vindo a decrescer, e o consumo doméstico tem ganho preponderância. “E outra vantagem da economia chinesa é a dimensão e características da população millennial. As pessoas que nasceram nos anos 80 e 90 formam agora a classe consumidora por excelência. Ganham mais do que os pais, e poupam menos do que eles. A grande maioria cresceu como filho único e está muito acostumado a consumir. E mais relevante: são 380 milhões de pessoas. Este fator terá um efeito muito mais secular do que a própria industrialização”, expõe Nicholas Yeo.

Guerra comercial?

Como resultado de todos os factos apontados pelo gestor, o impacto da guerra comercial com os EUA deverá ser, na sua opinião, marginal. “A China tem ainda muitas alavancas para suportar a economia, sendo uma delas a habilidade para suportar o consumo doméstico. Um governo de administração central tem as suas limitações, mas uma das grandes vantagens é a flexibilidade e rapidez com que se implementam medidas. Foi assim que o governo decidiu apostar tanto no estímulo monetário como fiscal. Baixou o IVA, o imposto sobre as empresas e os rendimentos, deixando mais dinheiro nas empresas e nas famílias. Os efeitos deverão levar o seu tempo a surgir, mas se a guerra comercial se intensificar o governo terá mais ferramentas para estimular a economia”, comenta.

Para Nicholas Yeo, mais marginal é a guerra comercial  quando o enfoque do fundo que gere é em empresas chinesas com operações domésticas. “A guerra comercial é algo que foge ao nosso controlo. O que podemos controlar, isso sim, é o posicionamento do fundo e este sempre esteve mais focado no consumo doméstico. Apenas uma pequena parte do nosso fundo está exposto a empresas focadas na exportação e desse total, apenas uma parte vai para os Estados Unidos”, explica acrescentando que, para conseguir tal exposição, o caminho a seguir é o investimento em ações A chinesas. “Se olharmos para as empresas chinesas cotadas nos EUA não vão além das 270. Em Hong Kong, são apenas 260. O universo de ações A chinesas continua o maior, destacadamente, por número de empresas. São quase 3.500 empresas”, expõe.

“Quando se fala de exposição à China, surgem sempres os mesmos nomes. A Tencent, Alibaba, Baidu… Todos nomes que surgem nos índices e fundos chineses, mas também nos de mercados emergentes ou até de tecnologia global. Já quando olhamos para as ações chinesas A, estas representam entre 60 e 70% do PIB chinês”, explica. Assim, e para navegar adequadamente este universo de investimento, Nicholas Yeo e a sua equipa da Aberdeen Standard Investments acreditam que um research fundamental expõe as ineficiências de mercado num universo desafiante como é o de ações domésticas chinesas. Seguem então uma abordagem disciplinada e ativa que lhes permite afastar dos principais índices e apresentar um portefólio com características distintivas. Finalmente, como parte do processo, a análise ESG das empresas em que investem e o engagement com a administração das mesmas possibilita, segundo o gestor, uma otimização da qualidade dos retornos.

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