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“Uma Insustentável Leveza…”


 “ O seu problema não era o drama do peso, mas o da Leveza.” – Milan Kundera

Entre as várias dualidades ontológicas do ser, como o belo ou o feio, a luz ou a escuridão, o peso e a leveza é a dualidade mais complexa de se analisar. A razão desta questão, deriva na dificuldade de destrinçar se o mais importante na vida, é o peso das coisas ou a sua leveza. No livro a “ Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera procura explorar esta dualidade ao extremo de uma doutrina existencialista, em que a leveza é uma fuga, um descomprometimento, uma vertigem... Mas que no final, tudo o que escolhemos pela leveza, mais cedo ou mais tarde, acaba por se revelar de um peso insustentável.

Na sociedade moderna, a dualidade associada à leveza e ao peso da dívida, é uma realidade que desafia de sobremaneira os comportamentos sociais e a tradicional doutrina liberal económica. No endividamento existe um ponto de não retorno, onde o prazer vai minguando, restringindo cada vez mais a nossa capacidade de fazer escolhas, abrindo apenas o espaço aos tons pesados da melancolia. À medida que a leveza de desfrutar da antecipação do consumo futuro para o momento presente se vai esfumando, a grilheta da dívida vai-se tornando insuportavelmente mais pesada.

Quanto mais conscientes estivermos sobre a importância do fardo da dívida nas nossas vidas, melhor compreendemos a condição humana e as angústias do mundo contemporâneo que nos rodeia. É com este registo do endividamento coletivo das sociedades modernas que devemos entender o papel dos Bancos Centrais:

- Estes procuram assegurar o ponto de equilíbrio, “o ponto da vertigem”, o ponto a partir do qual tudo se perde, mesmo antes de tropeçarmos na “insustentável leveza do ser”...

Com a dívida global a ascender a 233 mil biliões de dólares no 3º trimestre de 2017, o equivalente a 318% do PIB mundial, o papel dos Bancos Centrais torna-se cada vez mais complexo. O ponto de rutura é cada vez mais saliente e consequentemente, o intervalo de margem de manobra cada vez mais estreito. Um pequeno desvio, um erro de perceção de política monetária, pode ser a diferença entre um cenário de crescimento com inflação moderada ou um cenário de recessão com deflação. Só quem entende as dinâmicas da dívida e o seu peso nas decisões dos agentes económicos é que percebe que atualmente o risco de deflação e o risco de inflação são significativamente assimétricos.

Debaixo da teoria quantitativa da moeda, é visível a correlação entre uma maior dívida, a velocidade de circulação da moeda e as taxas de juro. No fundo, uma maior dívida vai reduzindo a propensão marginal de consumo, uma vez que, os agentes económicos têm menos dinheiro para afetar ao consumo no futuro, ao mesmo tempo que se vai criando um excesso de capacidade na economia.

A única maneira de contrariar em parte estas forças desinflacionistas é ir aliviando o custo da dívida através de taxas de juro cada vez mais baixas, procurando ativar o consumo e reduzir o excesso de capacidade.

EUA: Evolução da Velocidade de Circulação da Moeda, das Taxas de Juro a 10 anos e da Dívida Pública/PIB

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Por outro lado, o endividamento também é um importante reflexo da desigualdade, onde os rácios de alavancagem são mais elevados nas classes mais baixas. Parece por isso intuitivo que a desigualdade esteja também relacionada com a menor velocidade de circulação da moeda, uma vez que a concentração da riqueza restringe a multiplicidade das trocas comerciais entre os diferentes agentes económicos.

Neste sentido e independentemente de alguma desejável normalização dos estímulos monetários, está fora de causa qualquer alteração da política monetária a nível global que comprometa o esforço de combate às forças deflacionistas presentes nas sociedades modernas, onde a globalização, a digitalização e a demografia são outros dos fatores a ter em conta, para além do endividamento e a desigualdade.

Se é verdade que os Bancos Centrais parecem ter ganho as recentes batalhas contra a deflação, estes ainda estão longe de terem ganho a guerra. O peso da dívida vai ter de continuar a ser contrabalançado pela leveza etérea dos Bancos Centrais, evitando-se a todo o custo ultrapassar o “ponto de vertigem”, o ponto de não retorno.

“Só é grave aquilo que é necessário. Só tem valor aquilo que pesa.”- Milan Kundera

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