Tree Family Office: “As perspetivas e os riscos para 2019 derivam bastante da forma como os anos de abundância foram geridos.”


(Perspetivas para 2019, traçadas por Pedro Catarino da Tree Family Office)

Após diversos anos favoráveis, a maioria dos mercados financeiros bem como as principais classes de ativos fecharam 2018 no vermelho. O próximo ano está envolto em incertezas e exige seletividade nas escolhas a serem feitas pelos investidores.

EUA dinâmicos, mas desequilibrados

As perspetivas e os riscos para 2019 derivam bastante da forma como os anos de abundância foram geridos. Este é o caso nos Estados Unidos, onde as políticas pró-cíclicas adotadas por Trump podem representar um problema. Lançando a reforma fiscal num momento em que a economia já operava em plena capacidade, optou por aumentar ainda mais o défice orçamental. Mais cedo ou mais tarde, o país terá que regressar a políticas mais saudáveis mas, por enquanto, limita a margem de manobra do Estado em caso de súbita necessidade de revitalizar a economia.

A economia americana está dinâmica, mas também desequilibrada. Incapaz de acompanhar o aumento da procura interna, alarga o défice comercial. Os Estados Unidos estão novamente numa situação de duplo défice (orçamental e comercial), semelhante ao anterior à última crise. Além disso, com a taxa de desemprego mais baixa em quase meio século, a inflação é uma ameaça e a Fed reagiu.

Finalmente, o shutdown do governo federal e a dança de cadeiras na Casa Branca não garantem uma consistência das decisões tomadas em Washington.

Zona euro numa perigosa inércia

Desde o início da intervenção há quase quatro anos, o Banco Central Europeu salienta a necessidade de reformas para tornar as finanças públicas mais sólidas em vários Estados-Membros e de avançar com uma união monetária que ainda está incompleta e frágil. Os diferentes países optaram pelo imobilismo.

Numa altura em que a zona euro se prepara para uma mudança de paradigma com o fim da intervenção do BCE nos mercados de obrigações europeus, o progresso é limitado. Consequência direta: o euro mantém-se frágil. Ao mesmo tempo, países como França e Itália não conseguiram equilibrar as suas contas públicas, pelo que qualquer revés económico, mesmo reduzido, poderá resultar num regresso da crise da dívida soberana.

Mesmo sem uma crise, caberá agora ao setor privado garantir esse financiamento. No entanto, dada a inundação de dívida nos mercados globais, a concorrência é elevada. Logo, mesmo que Draghi e o seu sucessor não acelerem o aumento das taxas, a tendência de alta das obrigações europeias parece inevitável e poderá até implicar uma inversão da política do BCE.

China sob pressão

A segunda maior economia do mundo continua a ser uma das grandes incógnitas para 2019. O país vai ser impactado pelas tensões com os Estados Unidos. A maior proteção da propriedade intelectual e a abertura do mercado chinês podem levar a dificuldades acrescidas para as empresas chinesas que, beneficiavam de um acesso privilegiado ao seu mercado interno, para, em seguida, conquistar o mundo.

Emergentes, entre o trigo e o joio

O ano promete ser complicado para os países emergentes. Eleições na Indonésia e na Índia, chegada ao poder de novos líderes no Brasil e no México, conflito latente entre Rússia e Ucrânia, África do Sul e Turquia à beira da recessão... O aumento das taxas de juro continuará a por à prova a capacidade de gestão desses países. A credibilidade das autoridades locais será de extrema importância para os investidores,

Critério igualmente importante é o nível de valorização. Tendo em conta os riscos acrescidos é ainda mais importante evitar investir quando estão sobrevalorizados. Por fim, outro atrativo é quando estes mercados estão pouco correlacionados com a generalidade dos ativos financeiros e, portanto, oferecem uma interessante diversificação.

Dívida é o principal perigo

Se o consenso indica que 2019 será o ano da desaceleração, o atual ciclo de crescimento ainda marca presença. Na maioria dos países, o desemprego é baixo e, com raras exceções, a inflação continua contida. Os níveis de atividade estão a nivelar, mas também é verdade que viemos de um período excecional e muitas economias operam em excesso de capacidade.

Do ponto de vista macroeconómico, o principal risco sobre a economia mundial é o excesso de endividamento. Idealmente, o período de forte crescimento deveria ter servido para sanear as finanças públicas, mas também para reduzir o endividamento das famílias e das empresas. Infelizmente não foi o caso. Nos países desenvolvidos, a dívida pública continua a crescer, enquanto nos países emergentes foram os consumidores e as empresas que mais se endividaram.

Bancos centrais em vigilância

Dado o endividamento, a economia global está sujeita a que um aumento das taxas torne a dívida insustentável, precipitando uma nova crise financeira. Mas tal cenário não é inevitável e há indicadores que permitem esperar um reequilíbrio suave. Antes de mais, o facto de os bancos centrais não terem adotado uma posição triunfalista.

Nos Estados Unidos, a Reserva Federal aumentou os juros quatro vezes, em 2018 e, agora, refere que as taxas estão a aproximar-se do nível em que podem ser consideradas neutrais, prevendo apenas mais dois aumentos em 2019. Além disso, a Fed acompanha a evolução dos indicadores e está pronta para mudar o rumo, se necessário.

É também recomendável prudência ao Banco Central Europeu, cuja política monetária permanece expansionista. Se as compras de ativos financeiros terminaram, o balanço do BCE mantém-se num nível extremamente elevado e não será reduzido tão cedo. Quanto a aumentos de taxas, provavelmente só ocorrerão no próximo outono.

Em suma, os bancos centrais estão atentos e, com a inflação contida, o aumento das taxas de juro para níveis muito altos, que precipitaria uma grande crise, parece improvável.

Tensões em decréscimo?

A par da política monetária cautelosa poderemos assistir a uma diminuição dos conflitos comerciais. O princípio de acordo alcançado entre os Estados Unidos, México e Canadá (USMCA, a nova Nafta) e as novas negociações entre os EUA e a China, previstas para 2019, permitem um otimismo moderado nessa frente. Além disso, o acordo assinado entre a União Europeia e o Japão sublinha que, apesar de Washington, o comércio continua vivo. Na área do euro, foi alcançado um acordo entre Roma e Bruxelas.

Investimentos em 2019

Perante o aumento da instabilidade das bolsas e das perspetivas económicas menos favoráveis temos vindo globalmente a recomendar uma redução seletiva da exposição ao risco e a diversificar as classes de ativos. Uma das vias tem sido através da diminuição da exposição a alguns mercados de ações ou através da escolha de setores mais defensivos. Ainda assim, continuamos a aconselhar vários mercados acionistas, uma opção incontornável quando o horizonte de investimento é alargado e o perfil de investimento se revela apropriado. Outras possibilidades passam pelo aumento da liquidez e pelo reforço do peso das obrigações, nomeadamente, e em face das estimativas de retorno e risco, de dívida soberana, corporate e/ou high yield em determinadas regiões geográficas.

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