Ana Gomes, CFA (Tree Family Office): "O COVID-19 aumentou as correlações entre ativos e mercados, pelo que o foco no longo prazo tem ainda mais pertinência na construção das carteiras e na criação de valor"


No início de 2020, tudo indicava que o ano seria de continuidade, depois de um 2019 excecional para os mercados financeiros. Mas os ventos do oriente, trocaram as voltas ao mundo, com a globalização do Covid-19, e das suas consequências sanitárias, sociais e económicas.

Naturalmente, o receio de uma nova vaga de contágio pairará no segundo semestre do ano, enquanto se espera por uma vacina e/ou tratamento eficaz para o vírus. No entanto, é pouco provável que a eventual ocorrência dessa segunda vaga origine um novo confinamento generalizado das economias, dado que entretanto, os sistemas de saúde tiveram oportunidade para se preparar para ela (aquisição de equipamentos e  medicamentos, elaboração de planos de contingência, formação à população sobre a prevenção da doença, etc.).Foto_linkedin

O outro acontecimento que vai marcar a segunda metade do ano tem data marcada: 3 de novembro. É a eleição do presidente dos EUA. A grande questão é se Trump irá garantir a sua reeleição, tendo em conta o sentimento crescente de inépcia da sua administração na gestão do surto. De olhos na reeleição, será de esperar que Trump procure escapatórias e bodes expiatórios na arena internacional. Exemplo disso mesmo, é a sua insistência em apelidar o Covid-19 de vírus “chinês”. Continuará a apostar na sua campanha “América primeiro”. Isso será visível, por um lado, num endurecimento da retórica EUA/China e por outro, na defesa das empresas tecnológicas americanas, de que é exemplo o abandono as negociações com a União Europeia, relativamente à aplicação de um imposto digital por parte de Bruxelas. Aliás, os EUA ameaçam introduzir tarifas sobre os países que taxem serviços digitais.

Os indicadores económicos de primeira linha têm revelado uma tendência de melhoria, aos quais não será alheio também a resposta da Reserva Federal norte-americana (FED) à pandemia, com a implementação de um plano de compras sem limites, com a aquisição de ativos, inclusive de obrigações corporativas e a redução da taxa de juro diretora. Assim, o mercado obrigacionista, ao contrário do que antes se esperava, não tem mostrado sinais de stress. Os spreads entre a dívida soberana e a corporativa não se têm alargado significativamente.

Apesar dos riscos para os mercados permanecerem elevados, a economia norte-americana possui um conjunto de vantagens estruturais, que a tornam incontornável na carteira dos investidores. Por um lado, possui um mercado doméstico considerável, menos dependente do comércio internacional, do que, por exemplo, a União Europeia, e tem uma economia mais flexível e vocacionada para a inovação. Por outro, o dólar americano continua a ser a moeda de referência e sê-lo-á no futuro. Por fim, a atuação da FED, acaba por também ter um contributo positivo para o mercado, pela diminuição dos níveis de volatilidade.

Deste lado do atlântico, a União Europeia, que já vivia uma situação de abrandamento económico antes da pandemia, tem vindo a evidenciar algumas das suas (muitas) fragilidades, como um mercado de trabalho menos flexível e a dificuldade de tomada de decisões politicas e económicas de forma unida e atempada. Aliás, a divergência de posições entre os vários países membros é o reflexo das realidades muito díspares entre os vários países que integram a União Europeia, quer ao nível do impacto da pandemia per si, quer à capacidade de resposta individual de cada país à crise sanitária e económica. Assiste-se igualmente a um aumento das tensões sociais e dos movimentos populistas no território europeu.

Tendo registado valorizações menos elevadas no passado, as bolsas da zona euro permanecem relativamente mais atrativas face a outras regiões. As obrigações em euros também podem representar uma diversificação interessante. Porém, as fraquezas estruturais da zona euro não podem ser negligenciadas, sobretudo no atual contexto.

Por terras de sua majestade, o impacto do Brexit parece ter passado para segundo plano, com os efeitos da pandemia. As negociações com a União Europeia estiveram temporariamente suspensas, tendo sido retomadas no final de junho. O período de transição poderá ser prolongado, provavelmente mais um ano. Quanto à reação às consequências do confinamento da economia do Reino Unido pelo Covid-19, o Banco de Inglaterra avançou com cortes nas taxas de juro, anunciou a compra de ativos e injetou liquidez nas empresas. Já o Governo anunciou também um vasto conjunto de medidas de apoio à economia. Numa perspetiva de longo prazo, a aposta neste mercado ainda nos parece fazer sentido.

Já a economia suíça é marcada por alguns dos setores vencedores desta crise: o setor farmacêutico e de bens de consumo. Além de que são setores que conferem maior estabilidade às carteiras, sobretudo em períodos de crise, como a que vivemos.

Na região da Ásia e Pacífico, a China, abandonou a meta de crescimento para este ano, o que é algo inédito. As autoridades têm tido um maior foco nos critérios sociais, apesar de ser esperado um aumento do desemprego, e consequentemente decréscimo do consumo. O país procura retomar a produção e a atividade económica o quanto antes. Apesar de o nível produtivo ainda não ter atingido a situação pré-crise, está no bom caminho. Para isso, as autoridades abriram as torneiras do crédito à economia (empresas e famílias). No entanto, o consumo e o investimento ainda não recuperaram.

Outro fator a considerar quando olhamos para a economia chinesa no atual contexto, é que a esta crise pandémica evidenciou uma dependência excessiva do mundo ocidental dos produtos chineses. Essa dependência poderá vir a ser contrariada pelas economias desenvolvidas no futuro. A título de exemplo, o Japão deu incentivos financeiros para que as empresas nipónicas abandonem a produção na China.

Por sua vez, na conjuntura atual, os ativos japoneses beneficiam do efeito de valor de refúgio, sobretudo via iene. Embora este efeito já não seja novo, a atuação das autoridades monetárias nipónicas veio sublinhá-lo, ao alargar a compra de ativos financeiros a ativos com maior risco, como ETF’s e obrigações corporativas. Contudo, convém recordar que o Banco do Japão detém já quase 40% de toda a dívida pública, pelo que existe a possibilidade de este vir a tomar medidas ainda menos ortodoxas para aliviar o nível de endividamento do país. Ademais, a dívida japonesa é, normalmente, inversamente correlacionada com os principais mercados acionistas mundiais, pelo que continuará a integrar as nossas carteiras. Já o mercado acionista japonês reflete a pacificação das relações do país com os EUA e o aumento do antagonismo com o seu país vizinho, a China. Estruturalmente, o seu perfil demográfico continua a pressionar o seu mercado de trabalho e o seu consumo interno.

De resto, o panorama nos restantes países emergentes é sombrio. Os seus sistemas de saúde e de segurança social são débeis. As pessoas acabam por ter que continuar a trabalhar apesar da pandemia, para se sustentarem. Embora estas economias não tenham parado por esse motivo, irão ter uma recessão histórica este ano, sobretudo aqueles países mais dependentes das exportações (incluindo o turismo).

Estas economias sofrem também, por um lado, com a desaceleração do comércio e a subsequente queda da procura e dos preços das matérias-primas, e por outro, com a redução drásticas das remessas dos emigrantes. A esta menor entrada de divisas, soma-se o tradicional movimento de fuga de capitais das economias emergentes e os recursos financeiros limitados dos respetivos bancos centrais para acudirem.

Este é o caldeirão que irá comprometer o seu crescimento potencial futuro, tanto no curto prazo como no longo (abandono escolar; aumentos das desigualdades económicas e sociais; maiores tensões sociais), pelo que iremos ser ainda mais criteriosos com investimentos em mercados emergentes.

Neste contexto pandémico que marca o ano de 2020, o Tree Family Office reforça a importância da diversificação. No entanto, temos consciência que este fator comum, o Covid-19, que afeta todas as economias globalmente, aumentou as correlações entre ativos e mercados, pelo que o foco no longo prazo tem ainda mais pertinência na construção das carteiras e na criação de valor para os investidores.

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