Todos os cenários estão em aberto em França… incluindo o de ter dois candidatos antieuropeus na segunda volta


As eleições francesas continuam a ser o principal foco de incerteza na Europa. O cenário revela-se confuso e há poucas certezas sobre qual poderá ser o resultado das urnas no próximo domingo. Dois candidatos – a da extrema direita, Marine Le Pen, e o liberal Emmanuel Macron – partem como favoritos, mas outros dois – o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon e o conservador François Fillon – seguem-nos de perto. O problema é que os primeiros estão a perder terreno nas sondagens, enquanto os segundos estão a ganhar. E isso gera um panorama muito incerto, no qual poderá dar-se o caso que os dois candidatos antieuropeus – Marine Le Pen e Mélenchon – sejam os que recebem um maior número de votos na primeira volta e que, por isso, disputam a presidência na segunda volta de 7 de maio.

“As diversas publicações dos gabinetes de estudos de mercados indicam uma probabilidade de vitória de um partido eurocético de 20%. Nós consideramos que esta probabilidade se vai aproximando cada vez mais dos 25%”, dizem da La Française AM. Neste caso, na entidade estimam que a probabilidade de que este candidato ponha em marcha a saída da França da Zona Euro é baixa, mas não é nula. “O impacto que teria a eleição deste candidato favorável à saída da França da Zona Euro é difícil de avaliar, mas parece muito provável que gere importantes movimentos de stress nos mercados europeus. Assumimos um cenário provável no qual a diferença entre as taxas francesas e alemãs aumentaria de 65 pontos base para 200 pontos base, os mercados de ações sofreriam uma forte queda (-20% no CAC 40), e o euro cairia de forma muito violenta”, preveem.

Quanto à decisiva votação de 7 de maio, o cenário que mais preocupa os investidores é o de uma vitória da Frente Nacional. Segundo a Oddo Meriten AM, Marine Le Pen tem fundamentalmente dois caminhos para alcançar a vitória. O primeiro é enfrentar um candidato que pode ser rejeitado pelo eleitor médio devido às suas propostas políticas, como Hamon, um cenário que na entidade veem como o menos provável de todos os cenários na segunda volta. O segundo é que a participação esmoreça. “Se Le Pen ganha a primeira volta, os seus concorrentes vão ter que subir a parada. Para tal terão de atrair os eleitores que não os elegeram na primeira volta. À primeira vista, a aritmética eleitoral de um sistema a duas voltas é desfavorável para Le Pen, já que não só necessita de ser o candidato com mais pontos, mas também tem que obter uma maioria absoluta”, asseguram da empresa.

O eleitorado é constituído por cerca de 46 milhões de votantes. A taxa de participação eleitoral é de 80%, o que situa o limiar da maioria absoluta em torno dos 18,5 milhões de votos. Quanto menor seja a participação, maiores serão as possibilidades de Le Pen ganhar. Algumas sondagens conjeturam uma participação de 60-65%, situando-se no limiar da maioria absoluta em 14-15 milhões. O problema de tudo isto é que se disseminou a ideia de que as sondagens são inúteis, se não mesmo enganadoras, devido ao facto de não terem conseguido prever os resultados do referendo sobre o Brexit em junho passado ou as eleições presidenciais de novembro de 2016 nos Estados Unidos. Esta suposição leva a que as pessoas desvalorizem todos os dados que permitam fazer qualquer previsão.

Contudo, na Oddo Meriten AM acreditam que é totalmente incorreto dizer que as sondagens de opinião se enganaram ao não prever as possíveis vitórias do Brexit e de Trump. “Poucos meses antes do referendo sobre o Brexit, as sondagens de opinião no Reino Unido apontavam para uma votação muito disputada, e no final do período previam uma vitória a favor do Brexit. Nos EUA, as sondagens de opinião punham Clinton à frente – e ela ganhou o voto popular – mas a sua vantagem sobre Trump era quase sempre mínima. Em alguns momentos de maio, julho, setembro e novembro, os dois candidatos estavam quase lado a lado. Portanto, as sondagens de opinião não são ferramentas de prognóstico perfeitas, especialmente antes das eleições, mas proporcionam uma previsão muito útil do resultado.”

Depois da votação a favor do Brexit ou da eleição de Donald Trump, as eleições presidenciais francesas são a duas voltas. Em consequência, os investidores não esperam uma vitória da candidata de extrema direita. Portanto, ainda que Marine Le Pen chegue ao poder, o Frexit – terminologia com que se batizou uma hipotética saída da Franca da UE – não se vai materializar. “A França necessita hoje de parceiros estrangeiros que comprem as suas exportações e financiem o seu déficit externo. Seria especialmente irónico que a tentação populista de impusesse na Europa num momento em que o ciclo económico, por fim, entra num caminho favorável e em que a Alemanha e a França, surpreendentemente, estão prestes a poder coordenar os seus esforços para uma convergência indispensável. Agora, mais do que nunca, os aforradores deveriam ser cautelosos com o risco político a fim de poder aproveitar as numerosas oportunidades a longo prazo”, sublinha Didier Saint-Georges, membro do Comité de Investimento da Carmignac.

As gestoras francesas estão a posicionar as suas carteiras perante o risco que representam as eleições. François Raynaud, gestor de fundos multiativos e dívida soberana na Edmond de Rothschild AM, é um dos que decidiu passar à ação e fazer as suas apostas. “Neste contexto de incerteza política continuamos a favorecer estruturalmente as ações, ainda que tenhamos reduzido taticamente as nossas posições. Tememos que os mercados – demasiado entusiastas – estejam a tomar pouco em consideração os riscos políticos. Além disso, qualquer aumento da inquietude política dentro do G7 (Grupo dos Sete) pode ter um impacto sobre o conjunto dos mercados. No decurso dos próximos meses, a antecipação e a compra de coberturas vai ser cada vez mais importante para os investidores”, reconhece.

Emmanuel Kragen, gestor de Cross Asset da La Financière de l’Echiquier, também considera que o resultado das eleições francesas continua altamente incerto. “O prémio de risco político deve continuar a contaminar os mercados nas próximas semanas. Porém, acreditamos que o risco é exagerado. Não esperamos que Le Pen ganhe e, devido ao sistema eleitoral, não poderá reunir uma maioria parlamentar para implementar o seu programa, incluindo o referendo sobre a permanência da França na UE. Por isso, haverá um rally de alívio nos mercados de ações depois das eleições”, anuncia. Em relação aos mercados de divisas, a não ser que ganhe Marine Le Pen, o especialista espera que se recupere a paridade no euro dólar a 1,10, já que o prémio de risco político atual relacionado com a UE diminuirá significativamente.

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