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Terá o corte de produção da OPEP um impacto real sobre o atual equilíbrio entre a oferta e a procura?


As gestoras internacionais continuam a digerir o anúncio, por parte da OPEP, de um corte na produção superior ao esperado pelo consenso, com a difícil missão de contextualizar este movimento com os fundamentais e fatores técnicos para a classe de ativos a curto-médio prazo. Um breve resumo sobre o acordo: corte de 1,2 milhões de barris por dia a partir de 1 de janeiro de 2017, mantendo-se o limite de produção de 32,5 milhões de barris por dia. Espera-se que os países que não são membros da OPEP também cortem na produção, em 600 mil barris por dia, do quais metade correspondem à produção da Rússia.

“Enquanto a situação acalma e a nova notícia é digerida, esperamos que os mercados de crude não devolvam parte dos ganhos. E, mais importante, isto irá levar a uma mudança estrutural no mercado de futuros do petróleo ao mudar de uma situação de “contango”, em que o preço futuro é mais elevado do que o spot, para uma situação de “backwardation”, onde o preço atual é maior do que o preço futuro, à medida que se reduzem os stocks”, preveem os especialistas da Vontobel AM.

Estes destacam que a utilização da “backwardation” fortalece o cartel, porque “cria desincentivos ao investimento para a produção e cobertura futuras, o que irá ter impacto nos produtores norte-americanos de xisto”. Em segundo lugar, explicam que “os ventos contrários para as rentabilidades em commodities, procederam da rotação negativa do rendimento, causada pelo “contango”. Se este desaparece, dá lugar a um ambiente mais positivo para os retornos das matérias-primas e irá atrair o interesse dos investidores”.

Como aconteceu com as anteriores tentativas de comunicação do cartel durante este ano, para gerir as expectativas do mercado, o recente corte na produção foi bem recebido pelos especialistas – e investidores - que impulsionaram o preço das principais referências. David Laffety, estratega-chefe de mercados da Loomis Sayles (parte da Natixis Global AM) afirma que “um cartel requer cooperação interna entre as entidades e algum controlo sobre a produção e/ou sobre o preço. Não é claro que a OPEP cumpra hoje estes critérios”.

Independentemente do impacto que esta medida tenha sobre o mercado de petróleo, Lafferty adverte que “os medos de que a procura toque nos máximos criaram uma mentalidade de ‘usá-lo ou perdê-lo’, com apenas alguns (poucos) países-membros a estarem dispostos a cortar na produção”. Neste sentido, o especialista prevê “alguma recuperação nos preços, com base em referências relacionadas com a “coordenação”, mas parece improvável que existam cortes reais na produção ou que se imponham limites significativos”.

Por todos estes dados, o especialista situa o equilíbrio a longo prazo entre oferta e procura global entre os 55 e os 65 dólares no barril de WTI (referência para os EUA), e espera que se situe nesta faixa em 2017 e 2018.

Perspetivas para o longo prazo

Enmanuel Martin, analista de ações da Amundi, fixa-se primeiramente no equilíbrio entre a oferta e a procura, para afirmar que a segunda “deverá continuar relativamente forte, com uma expansão de aproximadamente 1,2 milhões de barris, por dia, em 2016 e em 2017”. O especialista considera que o impacto negativo, provocado pela queda da procura na China e por uma série de países da OPEP, que foram compensados por uma surpresa positiva da procura, procedente de outros países não-membros, especialmente a Índia, que com um valor de consumo anual estimado de 4,3 milhões de barris por dia e um crescimento aproximado de 7,5%, face a 2015” está a emergir como um novo grande consumidor a nível global.

Na parte da oferta, Martin indica que a queda no investimento a montante, conduziu a uma forte queda da produção de países fora da OPEP, especialmente os produtores de petróleo de xisto nos EUA. Segundo os dados publicados pela Agência Internacional de Energia (AIE), caíram em média 900 mil barris por dia em 2016, mas poderam recuperar 400 mil barris em 2017.

Para o período 2017-2020, o analista afirma que “a procura deverá continua a subir em cada ano, com um subida média de cerca de um milhão de barris, por dia, até final da década”. Neste sentido, indica que o “rápido crescimento do inventário global de carros elétricos não teve impacto sobre o perfil de crescimento da procura global”. Em relação à oferta, Martin afirma que a “produção de petróleo de xisto deverá continuar a sua tendência de crescimento no primeiro trimestre de 2017, expandindo-se a uma taxa ligeiramente mais moderada do que antes da crise”.

No entanto, acrescenta, que os produtores norte-americanos conseguiram melhorar a sua produtividade neste período, de tal forma que se “espera que o volume de produção de petróleo de xisto norte-americano cresça aproximadamente um milhão de barris por dia, a partir de 2018, assumindo um preço para o Brent (de referência na Europa) de 60 dólares o barril”. Ainda assim, o profissional aclara que “isto não significa que esta fonte seja suficiente para seguir o ritmo de crescimento da procura, à medida que a taxa de queda dos depósitos tradicionais tenha um impacto a longo prazo sobre a oferta”. Precisamente, por este motivo, acredita que irão ser necessário outras fontes adicionais de oferta para satisfazer a procura, particularmente os depósitos offshore tradicionais, “ou pelo menos aqueles que sejam mais rentáveis”. A Amundi prevê um preço médio do Brent em 55 dólares em 2017, 60 dólares em 2018 e 65 dólares em 2019.

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