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Terá começado uma nova guerra de divisas?


Foi o próprio Mario Draghi que recentemente rejeitou com vigor as acusações de Donald Trump sobre a manipulação de divisas. A origem da polémica teve início nas declarações ao Financial Times de Pete Navarro, diretor do Conselho Nacional do Comércio dos Estados Unidos. Navarro afirmou que a Alemanha se estava a aproveitar de um euro muito subvalorizado para ganhar competitividade à custa dos EUA e de outros países da UE. A nova Administração já tinha acusado outros países (sobretudo da Ásia) de manter as suas divisas artificialmente baixas. Como consequência, o dólar tem estado a desvalorizar desde o início de fevereiro.

“Talvez seja uma consequência deliberada”, dizem os especialistas da Legg Mason Global AM. “Os países criticados pela nova Administração por manterem as suas moedas artificialmente baixas são um reflexo da lista de países com os quais os EUA têm um défice. Isto fez com que alguns investidores de mercados emergentes começassem a favorecer os países que estão na parte do superávit da balança comercial norte-americana, pois poderão ver-se menos afetados pelas políticas tarifárias propostas”, resumem os profissionais da gestora. 

 

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“Uma coisa é clara: a nova Administração não está interessada num dólar forte”, declara Joachim Fels, assessor económico global da PIMCO. Como exemplo, fala das declarações de Donald Trump de que o dólar “está demasiado forte” face ao yuan chinês e que “está a matar-nos”, bem como as já referidas declarações de Peter Navarro.

Na opinião do assessor, estes factos recentes não são mais do que o aviso de que o mundo voltou a entrar numa guerra fria de divisas, começada pelo Banco Central Europeu (BCE) em conluio com o Banco do Japão (BoJ) e com o Banco Popular da China (PBC) através de ações coordenadas para desvalorizar as suas moedas durante o segundo semestre de 2016.

Fels recorda que “um dólar forte prejudica o setor industrial dos EUA e, portanto, muitos dos eleitores de trump”. Ou seja, se a valorização do dólar continuar, “torna-se-á mais provável que Trump cumpra com as suas promessas eleitorais e comece a nomear manipuladores de divisas pouco tempo depois de assumir o cargo”.

Além disso, o assessor crê que entraram dois bancos centrais na corrida na semana passada. Refere-se ao comunicado da Reserva Federal na sequência da última reunião do Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC), em que este se absteve de empregar uma linguagem mais ortodoxa para impulsionar as expectativas de uma subida de taxas em março (que acabaram por cair para 15% após a publicação do comunicado). Paralelamente, o Banco de Inglaterra (BoE) aumentou a sua previsão do PIB no último relatório sobra a inflação, mas baixou significativamente a estimativa da NAIRU (acrónimo em inglês para taxa de desemprego não aceleradora da inflação), “e, por conseguinte, enviou um sinal dovish que ajudou a desvalorizar a moeda”.

A carta do protecionismo

Para o especialista, o ponto decisivo para saber para onde se vai dirigir esta guerra fria de moedas vai ser o protecionismo: “os EUA têm um grande défice comercial e a Europa, a China e o Japão têm grandes superávits bilaterais com os EUA, pelo que este parece ter menos a perder (pelo menos segundo a sua própria perceção) numa guerra comercial, e as declarações públicas de Trump e de Navarro sugerem que a ação protecionista é uma ameaça muito credível”. Feels acredita que a reação mais lógica para evitar uma confrontação seria que “a Europa, o Japão, a China e outros exportadores permitissem, pelo menos temporariamente, que as suas moedas valorizassem em relação ao dólar para não provocar mais os Estados Unidos.”

Raphaël Gallaro, estratega de multiativos da Natixis Global AM, analisa com uma perspetiva mais ampla o impacto das políticas de Donald Trump sobre o dólar. Por um lado, incorporar medidas de estímulos keynesianas e políticas protecionistas a uma economia que está muito próxima do pleno emprego “só vai ter um impacto moderado sobre o crescimento, mas também vai servir para impulsionar as taxas de juro e o dólar”. Contudo, se se aprovar a simplificação do código fiscal e a repatriação de rendimentos no estrangeiro, Gallardo calcula que “o impacto seria o equivalente a uma desvalorização de 15% do dólar”. Por sua vez, a redução resultante do défice comercial dos EUA voltaria a fazer subir o dólar.

O estratega aponta alguns cenários possíveis para outros países com relações significativas com os EUA, começando pelo Japão, onde o BoJ implementou uma política de controlo da curva das obrigações a dez anos. “O diferencial de taxas com os EUA está a alargar-se, pelo que o yen vai desvalorizar graças à política monetária do BoJ. Uma queda abaixo dos 100 yenes por dólar são más notícias para o gasto das famílias nipónicas e leva ao risco de uma aceleração incontrolável dos fluxos de saída de capital”, explica. Em segundo lugar, um encarecimento maior do dólar seria prejudicial para aqueles países emergentes que dependem do capital estrangeiro e importam petróleo, como a Turquia ou a África do Sul. Finalmente, a China poderá enfrentar dificuldades devido à subida das taxas nos EUA, o que impulsionaria a saída de capital num momento em que o banco central não pode subir taxas de juro devido à alta alavancagem.

Em conclusão, “o rally do dólar vai ser desastroso para a popularidade de Trump entre os votantes desencantados dos Estados do Manufacturing Belt (região dos Estados Unidos que abrange estados do Nordeste, dos Grandes Lagos e do midwest)”. É neste contexto que, aos olhos do estrategista, “a tentação seria acentuar o protecionismo, o que só aumentaria o risco de uma recessão mundial”. 

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