Tendências interessantes nos investidores que estão a recompor as suas carteiras


A queda registada pelos mercados financeiros pela crise do coronavírus foi muito rápida e vertical. Trata-se de uma descida com capacidade para assustar até os investidores mais calmos. Noutros tempos, os volumes de saídas de dinheiro na indústria teriam sido avultados. Não obstante, nesta ocasião não foi assim. O investidor está a saber ser paciente e tolerar a volatilidade. “É o que nos estão a transmitir as gestoras locais, as bancas privadas e os serviços de gestão discricionária de carteiras, onde os reembolsos estarão em torno dos 2% sobre o total dos ativos”, revela numa entrevista à FundsPeople Aitor Jauregui, responsável da BlackRock para Portugal, Espanha e Andorra.

De cada crise que os mercados financeiros foram sofrendo ao longo dos anos, os investidores foram extraindo algumas lições. A mais importante é que a paciência paga. “Nos últimos anos, depois de correções muito bruscas, no geral, produziram recuperações muito rápidas. Por exemplo: o último trimestre de 2018 foi muito duro para os mercados, e os investidores que capitularam e venderam não viram os frutos da recuperação de 2019. Hoje os assessores financeiros dispõem de muitas mais ferramentas para pôr à frente dos seus clientes informação relevante, que lhes permita tomar melhores decisões de investimento”, sublinha Jauregui.

Nesta ocasião, a prova está a ser ainda mais dura porque a incerteza é muito alta. Cabe recordar que o VIX chegou a tocar níveis de 85. Não obstante, os investidores ibéricos estão a mostrar os nervos de aço. “Não realizaram movimentos significativos em carteira. No fim de março fizeram alguns rebalanceamentos e recompuseram as suas carteiras para voltar aos seus níveis neutros de risco. A queda do mercado foi forte, mas a reação por parte das autoridades com a aprovação de estímulos fiscais foi rápida. Começa a ver-se mais consenso quanto à necessidade de tomar medidas deste tipo e os mercados estão a avaliá-lo em, com subidas superiores a 20% nas ações”.

Se se analisarem os fluxos de ações, observa-se um importante viés regional. “Os investidores europeus tendem a aumentar a sua exposição a ações europeias enquanto os americanos fazem-no ao mercado de ações americano”. Jauregui também destaca outra tendência interessante que tem observado nos investidores que estão a recompor as suas carteiras: a de apostar em estratégias sustentáveis, onde os fluxos continuam a ser positivos, algo que também vimos a acontecer em Portugal. “Se o investidor não tinha exposição ao MSCI Europe, para a construir estão a recorrer a produtos ISR”, revela. Mas não são as únicas tendências interessantes que estão a acontecer.

 A nível sectorial, o responsável da BlackRock para Portugal, Espanha e Andorra tem notado ao longo das últimas semanas algum interesse por três categorias muito concretas: tecnologia, digitalização e temáticos. No mercado de obrigações, após o aumento significativo dos spreads, a atenção está a virar-se para o crédito, onde os investidores estão a aumentar a sua exposição à dívida corporativa europeia. No mundo das matérias-primas, os olhos dos investidores estão a voltar-se para o ouro, onde as entradas estão a ser positivas devido ao seu status de ativo refúgio.

Uma última tendência refere-se a algo que, historicamente, tem sido importante para o investidor em períodos de volatilidade e incerteza: a de aumentar a liquidez nas carteiras. É daí que, segundo Jauregui, os ETF estão a desempenhar um papel muito relevante. “Os investidores estão a usar os fundos cotados para aumentar a liquidez dessas exposições sem perder a exposição ao risco. Reduzi-lo drasticamente pode sair muito caro, especialmente se ocorrerem subidas no mercado, como está a ser o caso. Vimos muitos clientes a tentar replicar com ETF exposições que possuíam em ativos em T+2 ou T+3.”

Com dados da BlackRock, de tudo o que foi negociado nas bolsas europeias entre 24 de fevereiro e 3 de abril, os ETF representaram mais de 30% do total. Por outras palavras, um em cada três euros que movimentaram as ações europeias nesse período foi através deste tipo de veículo. Nas obrigações, o volume negociado através de ETF aumentou mais de 200% em comparação com a média semanal. “Os ETF estão a fornecer liquidez no momento em que o investidor tem que realizar resgates. Estão a comportar-se como deveriam. Muitos clientes estão a dizer-nos que investir em crédito é uma oportunidade única e usam ETF pela sua eficiência operacional, pois, se o mercado voltar a sofrer correções, poderão desfazer essas posições com eficiência”, conclui.

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