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Severine Raymond-Soulier (Thomson Reuters): “Esperamos que os grandes players globais sejam capazes de sobreviver a este choque”


É no dia 3 de janeiro de 2018 que entra em vigor a MiFID II, regulação que trará também repercussões para a indústria dos fundos de investimento. Trata-se de uma diretiva que abrange vários setores e que afeta diretamente o research elaborado pelos analistas, estabelecendo que as entidades bancárias, os brokers e as empresas de trading devem faturar em separado os custos da análise que utilizam. Mas que consequências práticas terá esta medida para a indústria? Serão todas as entidades capazes de sobreviver a estas mudanças? Severine Raymond-Soulier, head of Investment & Advisory Continental Europe da Thomson Reuters responde, em entrevista à Funds People, a estas e outras questões sobre a preparação e futura aplicação da MiFID II.

Tendo em conta a sua experiência no negócio de distribuição, como descreve a preparação da indústria com vista a antecipar MiFID II?

A Thomson Reuters é, de facto, o maior distribuidor de research a nível global através das nossas plataformas. Mas mesmo com 30 anos de experiência nessa matéria, esperamos uma mudança tremenda na nossa indústria nos próximos meses.

Os nossos clientes estão a preparar-se para a implementação de MiFID II no dia 3 de janeiro e, de acordo com uma votação decorrida durante um dos nossos seminários online, 45% das pessoas afirmou estar ainda na fase de planeamento, e tem ainda muito trabalho pela frente para preparar a implementação de MiFID II, enquanto 40% está confiante que irá cumprir com os requisitos até ao final de 2017. Apenas 12% diz que está muito confiante de que irá cumprir os requisitos até ao final do ano. Nesse sentido, o nível de preparação é claramente diferente entre os gestores de ativos.

O que eu consigo perceber da parte dos meus clientes, é que há diferenças, em primeiro lugar, de acordo com o país. O Reino Unido está definitivamente na frente no que diz respeito à implementação de processos conduzidos por um regulador muito ativo, que tem comunicado bastante sobre o tópico. A França parece também estar a avançar relativamente depressa através de estudos de mercado levados a cabo por um regulador francês. Outros países europeus parecem estar um pouco mais atrás e a aguardar maior orientação da parte do seu regulador local. Há também um nível de disparidade que já era esperado entre grandes empresas de gestão de ativos e pequenas instituições. Algumas grandes gestoras vêm até nós para pedir RFP (requests for proposals/pedidos de propostas) para preparar as suas equipas com novas ferramentas de distribuição de research através do nosso método: Thomson Reuters Eikon. As pequenas gestoras estão mais atrasadas e ainda se encontram em fase de investigação. Eu visitei um cliente nosso de uma grande gestora de ativos na semana passada e a sua mentalidade foi bastante representativa das tendências de mercado. Ele disse-me que houve “pressa para assinar contratos com todos os provedores de research antes do final do ano, mas que os sistemas de relatório/votação (que é um requisito regulamentar) serão progressivamente configurados no primeiro e segundo trimestres de 2018. O processo de assinatura destes contratos com diferentes serviços e termos parece ser muito mais dolorosos do que o esperado”.

Algumas empresas anunciaram já alguns ajustes no modelo de comissões/incentivos e no budget disponível para research. Como espera que o modelo de gestão de ativos evolua nos próximos anos?

As alterações no padrão de consumo do research vão ser acompanhadas pela mudança nos hábitos de trabalho dos gestores de ativos. É esperado que efetuem tarefas adicionais que não eram sua preocupação até agora, tais como avaliar os seus provedores de research ou estabelecer um orçamento de research anual. Isto irá significar ainda menos tempo e menos fontes de informação para encontrar alpha, uma vez que se irá racionalizar os fornecedores de research. Vão induzir uma mudança contínua na forma como a indústria opera e em formas alternativas de olhar para o alpha.

Que setores podem ser mais prejudicados em ambiente de MIFID II?

A resposta mais óbvia é pensar primeiro nos corretores de sell side, que obviamente precisarão de sobreviver num ambiente ultracompetitivo. Os corretores vão precisar de ser vistos como os melhores de mercado para se manterem na pequena lista de corretores selecionados pelas gestoras de ativos. Esta é a razão para que os rankings e os prémios de reconhecimento, como o Thomson Reuters Starmine Awards, que reconhecem os melhores analistas no mercado, se tornem agora mais importante do que nunca.

Há também outros setores que podem ser prejudicados pela nova regulação MiFID II. Por exemplo, os pequenos gestores de ativos, que não podem necessariamente suportar o research, vão provavelmente ser cortados do circuito de research e receber menos informação. Para além disso, se subsistirem menos corretores no mercado então o research oferecido pode tornar-se mais pobre e menos diversificado. Os investidores mais pequenos podem receber menos informações no mercado, o que é completamente contraditório à proposta de regulação do MIFID II.

Outro dano colateral é antecipado por algumas empresas. As pequenas empresas cotadas receiam que a sua cobertura de research possa tornar-se mais baixa ou simplesmente cessar. Como os corretores teriam que concentrar-se apenas em negócios lucrativos pode haver menos vontade em seguir pequenos mercados , bem como os de nicho. Isso poderá mais uma vez levar a menos cobertura, menos informação no mercado…

Finalmente, a indústria das obrigações e da macroeconomia está a antecipar uma grande mudança no seu modelo de negócio. Gestores de ativos focados em obrigações estão muito preocupados em como encontrar financiamento para a research, especialmente devido ao baixo spread dos seus produtos. Contudo, parece que algumas corretoras estão a tomar decisões no sentido de dar research de obrigações e macro gratuitamente (como foi anunciado na imprensa pelo BBVA, NatWest, Credit Suisse, ING e Daiwa), o que poderá representar um grande alívio para estes setores. Mas e em relação ao risco de dumping que pode ser detetado pelo regulador? Isso é o que vai ser definido nos próximos meses.

Muitas das principais gestoras de ativos no mundo estão a assumir os custos da research. Acredita que isto irá acontecer na maioria dos casos?

De facto, algumas das maiores gestoras de ativos, como o Deutsche Bank Asset Management, Allianz Global Investors, BlackRock, Pimco e muitos outros, anunciaram recentemente na imprensa que iriam financiar o research às custas do seu P&L. Outras vão transferir os custos para os seus clientes, mas esta abordagem parece agora um pouco mais isolada. A tendência de mercado parece estar inclinada mais para a abordagem P&L que não era necessariamente a mais expectável no início do ano. De facto, temos visto grandes gestoras de ativos, como a Invesco, Schroders, Janus Henderson e Union Firms, a decidirem finalmente absorver os custos do investimento em research depois de terem dito que iriam passar esses custos para os clientes.

O que podemos aprender com isto é que esta abordagem contabilística está a tornar-se um elemento de marketing e que passar os custos para os clientes pode ser visto como negativo pelos investidores, num mercado onde cada vez mais gestoras de ativos advertem para o facto de que serão eles a absorver os custos da research nas suas margens. Contudo, os investidores estão também cientes de que, no final, o custo será provavelmente absorvido pelo próprio cliente mesmo quando é escolhida uma abordagem de P&L. Os investidores não são ingénuos em relação ao facto de, num ambiente de pressão, aquele que paga é provavelmente o investidor através de comissões.

Para além das considerações de marketing, o método do P&L pode ser favorecido por ser simples para as gestoras de ativos e por libertar os gestores de relatar a maioria dos requisitos do regulador (não há a necessidade de avaliar a qualidade da research, por exemplo).

Na sua perspetiva, qual será o impacto nas empresas de produção de research? As mais pequenas conseguirão sobreviver?

O mercado de research vai necessariamente precisar de se reinventar, como foi título do estudo da McKinsey sobre o tópico da desagregação do research. A indústria de research estava já sobre grande pressão ao nível dos custos desde há vários anos, mas esta tendência deverá acelerar em 2018. A competição será feroz entre as várias equipas de research no próximo ano. Nós esperamos que os grandes players globais sejam capazes de sobreviver a este choque ao parar de seguir determinadas ações e ao serem mais estratégicos na sua alocação de recursos. Isso pode tornar-se mais desafiador para as pequenas equipas de research. Aquelas que estão focadas no equity tradicional vão certamente sofrer, mas o nicho de players pode beneficiar desta mudança no mercado atual. Muitas vezes lemos que o research independente pode vir a ser o que mais beneficiará  neste novo mercado, dada a sua posição de nicho em certos setores/mercados e devido ao facto de serem, por definição, “desagregados”. Eu concordo parcialmente com esta visão porque, para mim, aqueles que mais sairão a ganhar são os players mais diferenciados e inovadores, independentemente de serem os maiores ou mais pequenos.

Se, e apenas se, o seu research for visto como sendo um gerador de alpha, então irá sobreviver.

A Thomson Reuters é frequentemente questionada sobre como pode ajudar os corretores de sell side durante este processo e nós acreditamos que podemos assumir um papel-chave à medida que a informação se torne um elemento-chave.

Os provedores de research bem-sucedidos que poderão emergir desta transformação da indústria vão ser aqueles que sejam capazes de demonstrar o valor dos seus analistas de sell side e os que se consigam adaptar aos novos modelos de monotorização de research.

 

 

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