Semana horribilis nos mercados de obrigações e ações italianos


As passadas semanas foram muito agitadas nos mercados de obrigações e ações italianos. O país, a terceira economia da Zona Euro, quer agir sozinho em relação aos objetivos orçamentais e os investidores não estão dispostos a deixar passar isso ao lado. A pressão dos mercados já se sente. Nas últimas sessões o prémio de risco italiano disparou 300 pontos base voltando para níveis de 2014. A razão: a intenção do governo italiano de aprovar um orçamento que aponta para um déficit de 2,4%, o triplo do proposto pelo anterior Executivo de Paolo Gentiloni. “Isto faz com que a Itália continue a ser o principal risco nos mercados financeiros. Os orçamentos apresentados pelo governo para o período de 2019-2021 parecem contradizer os compromissos com a solidez fiscal”, declara Axel Botte, estratega na Otrum AM (filial da Natixis IM).

Muitos investidores esperam que a pressão do mercado atue rapidamente como um dispositivo de disciplina nas negociações orçamentais em prática entre o governo populista de Roma e a Comissão Europeia. Mas também são muitos os que têm dúvidas sobre a eficácia que a Europa terá em influenciar e reconduzir a situação de um estado-membro de tanto peso. E tudo aponta para que as discrepâncias entre Roma e Bruxelas não se irão resolver nem tão fácil nem rapidamente. “O tom desafiante da retórica política de Itália sugere que qualquer negociação futura poderá ser tão barulhenta como longa”, afirma da Legg Mason Global AM.

Será que o governo de Giusepe Conte é capaz de aguentar a pressão dos mercados? Esta pergunta é muito séria. Segundo dados da DWS, as ações e as obrigações soberanas italianas já perderam mais de 50.000 milhões de euros do seu valor nos últimos dias de negociação. Por outro lado, o gasto público adicional previsto para 2019 ascendeaos 10.000 milhões de euros. Não parece um bom negócio para as famílias italianas. A questão é… a recente fragilidade do mercado poderá estimular rapidamente o governo de Itália a reverter os seus planos de gasto?

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Da gestora alemã acreditam que há motivos para duvidar disso. “A maior parte da queda aconteceu nas obrigações e não nas ações. A proporção da dívida pública italiana em poder das famílias nacionais e das empresas não financeiras foi reduzindo durante anos. Isto limita o impacto imediato do alargamento dos spreads entre a dívida pública italiana e a alemã. Também não há muitos sinais de que os esforços dos líderes empresariais em fazer lobby tenham sido eficazes”.

Em parte, isto pode dever-se a que até a Liga Norte, partido de direita e eminentemente pro-empresarial, esteja a basear o seu discurso, principalmente, nos proprietários de negócios mais pequenos de Itália, que produzem e vendem em Itália. “Estão todos connosco”, disse recentemente Claudio Borghi, chefe da Comissão de Orçamentos do Parlamento italiano, à Financial Times. “As pessoas não se sentem realmente chateadas pelo prémio de risco. Isto é um problema concebido pelos meios de comunicação”, assegurava.

As consequências das políticas do governo italiano estão a provocar uma redução da correlação histórica entre as obrigações italianas e espanholas. Já não andam de par em par. “Registámos um distaciamento das yields das obrigações italianas do resto dos países periféricos, com spreads entre as obrigações espanholas e portuguesas face às obrigações italianas que alcançaram níveis máximos anuais. Isto sugere que o mercado atualmente considera a Itália como mais um problema isolado do que como um inconveniente da Zona Euro, mas na realidade isto ainda não se sabe”, assinala Guido Barthels, gestor da Ethenea Independente Investors.

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