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Saúde como megatendência: estes são os riscos e oportunidades


Uma constante que se manteve ao longo da história da Humanidade foi a prevalência de uma base da pirâmide etária mais larga que o topo. Ou seja, que tradicionalmente no mundo houve mais pessoas jovens do que pessoas mais velhas. Contudo, calcula-se que daqui a 40 anos irão viver na terra, mais pessoas com mais de 65 anos do que pessoas com menos de 15 anos, pela primeira vez na história: 2.100 milhões de pessoas terão mais de 60 anos em 2050, face a 901 milhões que existiam em 2015, e desses, oito em cada dez pessoas com mais de 60 anos irão viver nos países em desenvolvimento. Até lá a idade média mundial será de 36,1 anos, face aos 29,6 anos atuais. São dados fornecidos pela J.P. Morgan AM, que recentemente organizou um pequeno-almoço acerca das ações temáticas em Madrid, no qual se falou, entre outras estratégias, do JPM Global Healthcare, classificado com o selo Blockbuster pela Funds People.

Existe uma relação clara entre os avanços científicos aplicados à saúde e a melhoria da esperança de vida, mas os investidores devem ter em conta que é um processo em desenvolvimento permanente e no qual a tecnologia irá ter um papel cada vez mais essencial. “Vamos precisar de tratamentos cada vez mais inovadores. Existe um contexto muito sólido para as ciências da saúde, com motores estruturais de crescimento para o longo prazo”, afirmou Frances Gerhold, especialista de produto de ações europeias da empresa.

Tal como acontece com outras megatendências de investimento com um desenvolvimento vasto, a especialista admite que ter exposição à temática da saúde apresenta riscos e oportunidades. Dentro dos riscos, foca-se em primeiro lugar no preço dos medicamentos no futuro, um tema que foi, de facto, objeto de polémica nos EUA, onde Donald Trump já durante a campanha eleitoral teria criticado as propostas de Hillary Clinton para regular os preços. A isto há de se acrescentar que uma das primeiras medidas assinadas pelo presidente se encaminhou para o início do desmantelamento do programa Obamacare, o que também coloca dúvidas no setor.

“O gasto pessoal em saúde aumenta à medida que a pessoa vai envelhecendo, e o preço dos medicamentos é muito mais elevado nos EUA do que noutros países (o gasto em medicamentos nos EUA equivale a 17% do seu PIB). As empresas deverão aumentar os seus gastos numa maior inovação para justificar os preços”, acrescenta a especialista. Esta constatação leva-a a dar o primeiro conselho aos investidores que se querem expor a esta megatendência: “Na altura de investir em saúde, é preciso que sejamos seletivos e compreendamos bem as empresas. Devemos saber se, na sua linha de produtos, têm medicamentos antigos com preços em decréscimo e fáceis de copiar ou medicamentos inovadores”.

Oportunidades

A representante da J.P. Morgan AM afirma que, dentro do segmento saúde, o mercado prestou tradicionalmente muita atenção às farmacêuticas, e em contrapartida ignorou outros subsetores como o do desenvolvimento farmacêutico, a tecnologia médica ou os serviços de saúde: “São áreas que, frequentemente, se passam por alto, mas apresenta a maior parte da inovação”. Isto está a acontecer particularmente em empresas europeias tradicionais que, segundo a J.P. Morgan AM, estão agora a alavancar nos desenvolvimentos tecnológicos de formas diversas.

De facto, Gerhold afirma que “estamos a viver uma nova era para a medicina, na qual os progressos na ciência estão a transformar os cuidados”. Dá como exemplo o desenvolvimento dos biossimilares: são medicamentos biológicos equivalentes na qualidade, eficácia e segurança aos medicamentos biológicos originais, frequentemente muito mais complexos ao serem realizados a partir de células vivas, e que para além disso, em muitos casos estão próximos da expiração da patente. Neste contexto, os biossimilares oferecem aos pacientes uma alternativa de baixo custo para o tratamento de doenças como o cancro ou a esclerose múltipla. Segundo dados fornecidos pela J.P. Morgan AM, a expansão dos biossimilares pode facilitar uma poupança de 50.000 milhões de dólares, ao apresentarem descontos entre os 15% e os 60%.

Outra área cheia de oportunidades é a do desenvolvimento de equipamento médico, através da aplicação de tecnologias como as imagens em 3D para um melhor diagnóstico (com aplicações desde a visualização do fluxo sanguíneo ao estudo de dentaduras), a aplicação da robótica em cirurgias, para que sejam menos evasivas, ou a utilização da inteligência artificial, para uma melhor análise e diagnóstico de doenças. Gerhold dá como exemplo pragmático de união entre tecnologia e medicina, a possibilidade de hoje em dia poder realizar-se um mapa do ADN de uma pessoa por um custo relativamente baixo que permite conseguir o código genético e, assim, desenvolver medicamentos específicos para o paciente

Sobre o fundo

O JPM Global Healthcare é um fundo co gerido por Anne Marden e Matthew Cohen. Marden está à frente da gestão do produto desde o seu lançamento, em 2009, e Cohen desde 2015. Ambos aplicam uma análise bottom up que os ajuda a identificar oportunidades como as descritas por Gerhold, e apoiam-se numa equipa de análise que dispõe de grandes conhecimentos sobre o setor farmacêutido, o biotecnológico, os serviços de saúde, a tecnologia médica e a biologia.

A especialista termina a sua revisão do setor com várias ideias chave: os investidores deverão estar conscientes do aumento da concorrência dentro deste segmento, pelo desenvolvimento de medicamentos mais inovadores e com poder de fixação de preços; além disso, deverão ser muito seletivos para poder escolher as empresas ganhadoras da tendência; e as valorizações, embora elevadas no geral, geralmente são sustentadas por um crescimento sólido de lucros. Ainda assim, podem encontrar níveis de dispersão aceitáveis dentro do setor, e há margem para investir em empresas de pequena capitalização suscetíveis de serem compradas por outras maiores, de forma a que o M&A aja como mais um driver de rentabilidade no segmento.

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