Rui Castro Pacheco (Banco Best): “Na zona euro, o crescimento do PIB deve recuar para 0,9%-1,0% em 2020”


Os EUA continuam a ser uma das economias mais robustas e que se encontram numa fase mais avançada do ciclo económico. A economia norte-americana encontra-se bastante dependente do consumo interno, que representa cerca de 70% de toda a economia, o qual deverá continuar dinâmico graças ao aumento do rendimento das famílias. No entanto, a produção industrial tem perdido fôlego devido às tensões comerciais com a China e às políticas protecionistas, se bem que ainda não são observáveis ameaças ao crescimento da economia, graças, fundamentalmente, ao crescimento dos serviços. Aliás, a confiança do consumidor continua extremamente positiva, devido a aumentos nos rendimentos das famílias, e enquanto a vertente doméstica se mantiver resiliente, será improvável uma contração significativa da economia. Por sua vez, a intenção de manter as taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed) continuará a alimentar alguma robustez económica por conta do setor dos serviços. As eleições irão marcar o próximo ano nos EUA, mas os riscos encontram-se relativamente contidos já que tanto os democratas como os republicanos, defendem políticas de expansão fiscal que irão ajudar a sustentar a economia americana.

No que respeita à Zona Euro, e de acordo com as mais recentes previsões, o crescimento do PIB deve recuar de 1,2%-1,1% para 0,9%-1,0% em 2020. A procura doméstica continua a suportar o crescimento, refletindo a baixa  taxa de desemprego e a ligeira recuperação dos salários. Já o investimento continua a beneficiar de condições financeiras favoráveis - depois do corte de 10 bps na taxa da facilidade de depósito em 2019, para -0,50% (com tiering dos juros) e depois do regresso das compras de ativos (EUR 20 bn/mês)  - mesmo assumindo que o BCE tenha vindo a sinalizar uma pausa nos estímulos e uma prioridade à revisão da estratégia da política monetária. A par da instabilidade política tem-se assistido a uma deterioração dos indicadores de confiança, minados pela incerteza decorrente de uma eventual guerra comercial com os EUA, pelo desfecho ainda imprevisível do Brexit e pela diminuição do comércio internacional. O comportamento da Zona Euro no próximo ano vai estar também, inevitavelmente, muito ligado à situação económica da Alemanha cujo crescimento do PIB depende bastante do desempenho do seu setor industrial. Com a desaceleração do mercado automóvel, antecipa-se uma continuação da tendência negativa evidenciada pelo setor industrial, o que poderá empurrar a Alemanha para uma recessão em 2020.

Quanto à China um dos principais motivos de preocupação contínua a residir numa eventual desaceleração económica em 2020. A economia chinesa cresceu, no terceiro trimestre do ano, ao ritmo mais lento dos últimos 26 anos, afetada pela guerra comercial com Washington e, sobretudo, pela queda do consumo doméstico. Entre julho e setembro, o PIB da China cresceu 6%, um número ainda menor do que os 6,2% registados no trimestre anterior, de acordo com o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, sendo que esta tendência de desaceleração controlada deve prosseguir. De tal modo que de acordo com um estudo do FMI sobre a transição económica chinesa, estima-se que o crescimento possa desacelerar para 5% em 2025 e para 4% em 2030. A economia chinesa está a fazer a transição de uma economia baseada nas exportações para um modelo baseado em investimentos que implicará, necessariamente, desaceleração e alguns riscos. A dívida no setor não financeiro saltou de 134% do PIB para 257% entre 2008 e 2018. A demografia também é um fator de desaceleração na China, já que a população em idade de trabalhar vai cair até 2030. Na China, entre 30% a 40% do PIB é gerado por empresas detidas pelo Estado, que empregam cerca de 20% da população chinesa. Mais importante ainda, a maior parte do setor financeiro continua a ser detido pelo Estado, o que leva a que os desequilíbrios económicos sejam arrastados durante bastante mais tempo do que o que seria possível em economias de mercado.

O governo de Shinzo Abe considera aumentar a estimativa de crescimento para o ano fiscal de 2020 devido à adoção de novas medidas de estímulo económico no valor de 13 biliões de ienes (108 mil milhões de euros) para impedir que a economia japonesa, já enfraquecida, caminhe para uma recessão em 2020. Espera-se que quase 50% desses investimentos públicos sejam gastos na modernização e em reparações na infraestrutura do país, após a passagem do devastador tufão Hagibis em outubro, mas que comporta um efeito perverso de aumentar a sua já enorme dívida pública (238% do seu PIB em 2018, de acordo com o FMI). O país continua a deparar-se com grandes desafios geopoliticos, demográficos e económicos. Do ponto de vista populacional sofre  de um processo de envelhecimento acelerado, devido, em parte, ao aumento da esperança média de vida, mas também às reduzidas taxas de natalidade. O Japão tem demonstrado alguma dificuldade para livrar-se da deflação que constitui um entrave ao consumo privado e das empresas desde há décadas, apesar dos planos de crescimento lançados pelos diferentes Governos, e as próprias empresas japonesas têm demonstrado alguma dificuldade face ao crescimento de conglomerados de outros países asiáticos, nomeadamente chineses e sul-coreanos. 

Os riscos inerentes a uma multiplicidade de fatores – tais como os receios de abrandamento económico global conjugado com o aumento da incerteza política, as questões em torno das tensões comerciais entre EUA e a China, a situação no Médio Oriente, o desfecho do Brexit e as próprias flutuações do preço do petróleo – tendem a potenciar a volatilidade, o que nos aconselha a adotar uma exposição neutral a ações europeias e norte-americanas. Já quanto ao crédito e dívida pública vemos valor, acima de tudo, pelo efeito diversificador/mitigante do risco, uma vez que as yields atuais não nos protegem do risco de crédito. Por essa mesma razão vemos que a exposição individual a risco de crédito High Yield é de evitar, da mesma forma que continuamos a acreditar que a dívida emergente apresenta uma melhor proposta de valor pela alteração de políticas monetárias nos EUA.  

O risco de uma escalada de tensão entre os EUA e a China estará sempre presente no centro das preocupações já que terá impacto direto no aumento do risco comercial, político e geopolítico. Na zona Euro será sobretudo riscos políticos, já que embora as perspetivas tenham melhorado, é importante notar que o risco de Hard Brexit não está, ainda, totalmente afastado, dada a necessidade de um acordo sobre uma relação comercial com a UE ter de ser alcançado até ao final do período de transição (Dezembro 2020). Latente permanece, também, o risco de novo referendo sobre independência da Escócia, alimentado pelo bom resultado eleitoral do SNP. Também a política interna em países como Itália, Brasil, Turquia e Argentina irá pesar nas perspetivas de crédito destes países.

Se tivermos que escolher apenas um tipo de fundo, diria que escolheríamos um fundo Multi-Ativos, já que estes permitem uma diversificação de carteira que será importante para 2020. Num ambiente em que se exige alguma flexibilidade no posicionamento face aos mercados acionistas e obrigacionistas, apenas um fundo multi-ativos poderá responder às exigências dos mercados que esperamos para 2020. Já há algum tempo que o Banco Best tem destacado o fundo Acatis Gané Value Event, bem como os fundos BlackRock Managed Index Portfolios Defensive, Moderate e Growth como excelentes alternativas para quem pretende este tipo de investimento.

Nos ativos de risco e numa perspetiva de médio e longo prazo continuamos a privilegiar alguns temas que temos vindo a destacar no nosso site e na comunicação aos nossos clientes.

Temas como Tecnologia e Robótica têm-se mantido na ordem do dia desde há algum tempo e o grande tema do ano passado, que nos continuará a acompanhar, é a sustentabilidade. Por último, acabámos de lançar um tema que nos parece interessante de acompanhar e que tem a ver com o crescimento e sustentabilidade das mega-cidades e tudo o que está relacionado com smart-cities, infraestruturas e real estate necessários para suportar estas cidades.

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