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Ross Teverson (Jupiter AM): “As large caps de mercados emergentes tornaram-se bastante caras”


Muito se tem falado sobre mercados emergentes ultimamente. Ross Teverson, head of strategy de emerging markets da Jupiter AM, é dos que se junta ao grupo de “confiantes” relativamente ao potencial de performance dos mercados emergentes (ME). “Mesmo depois de um período de fortes retornos nos mercados das economias menos desenvolvidas, as valuations ainda se mantêm atrativas numa perspetiva histórica e, para além disso, estão também atrativas em termos relativos, nomeadamente face aos países desenvolvidos”, começou por indicar o especialista, referindo que “atualmente estamos a assistir a um crescimento dos lucros positivo e forte no espectro de muitos destes mercados, e é provável que assistamos a um crescimento entre 15% e 20% dos lucros das ações de ME como um todo em 2018, o que configura um cenário bastante forte para a região”.

Apesar desse positivismo, os riscos não são desconsiderados. “Os elevados níveis de dívida na China” fazem parte do rol de riscos, mas também o preço das large caps é assinalado. “Algumas tornaram-se bastante caras, tanto porque começaram a ser muito populares entre os investidores, como pelo facto de terem beneficiado dos fluxos provenientes dos ETFs”, assinala o especialista. No fundo Jupiter Global Emerging Markets Equity Unconstrained Fund, a cargo do profissional, esta última razão enunciada dá o mote para aquela que é uma forte convicção atual da gestão. “Pelo facto de considerarmos que as large caps estão caras, temos vindo a encontrar mais oportunidades em small e mid caps de EM. Dois terços do nosso fundo estão alocados a este tipo de empresas”, certifica. Os mercados fronteira são outra das apostas da casa, e “valem” dentro do fundo 10% de exposição. “Tanto nas valuations como no potencial de lucros a longo prazo vemos oportunidades neste tipo de países”, assegura.

Portefólio atento às mudanças

O processo de investimento do fundo começa por ser bastante amplo. São 6.000 as empresas incluídas no screening inicial, existindo 1.000 encontros com empresas durante o ano. “Nestes encontros com as empresas o que procuramos identificar são as mudanças positivas decorridas na empresa, que acreditamos que o mercado ainda não refletiu na valuation da mesma. Estamos atentos nesses encontros a três coisas: mudanças ao nível da empresa, ao nível da indústria em que a empresa se insere, ou ao nível estrutural. Todos esses aspetos são anotados no nosso ‘investment note’”, explica. O especialista prossegue, e adianta que quando acreditam que algo está a acontecer na empresa colocam a si próprios três questões: “De que é que se trata essa mudança; Porque é que acreditamos que essa mudança não está refletida no preço e, por último, que catalisadores é que existem para que o mercado comece a entender o que se está a passar com a empresa”.

O processo “culmina” num portefólio bastante concentrado que pode ter até 50 empresas, estando cada “ideia” no portefólio em permanente concorrência com outras: “Por cada título que sai há um que entra”. O turnover do portefólio é próximo de 40%. “Para nós é bastante comum ter em carteira uma posição durante dois anos; esse período por vezes é mais longo ou por vezes mais curto, depende de quão rápido o mercado tem em consideração no preço essa mudança positiva que nós reconhecemos numa determinada companhia”, elucida Ross Teverson.

O especialista está convicto de que o produto representa uma verdadeira proposta de diferenciação face a outros fundos, mas também relativamente aos índices que seguem este mercado. Essa diferenciação aparece por via da já referida “sobreponderação a small e mid caps face ao índice” – cerca de 60% do fundo está investido nestas empresas, que no máximo têm 10 mil milhões de dólares de capitalização de mercado, enquanto no índice 75% das empresas são large caps. Os números são claros: “65% dos ativos do portefólio não estão representado no MSCI EM, 84% do que temos não está no top cinco de fundos dos mercados emergentes, e apresentamos 94% de active share”, diz veementemente.

Materializa ainda mais esta necessidade de se desviarem de um índice, acrescentando que embora a “China represente cerca de 30% do benchmark de mercados emergentes, atualmente temos apenas 17% do fundo investido no país. Não temos em carteira bancos chineses, nem sequer temos em carteira a empresa Tencent, que se configura como o maior constituinte do índice chinês. Gostamos de diversificar o portefólio e não apenas replicar o índice”, afirma.

De Taiwan ao Quénia

Essa convicção de afastamento de um índice ganha forma em algumas “histórias” de empresas que Ross Teverson fez questão de contar à Funds People. Começou pela Bizlink, uma small cap taiwanesa com cerca de mil milhões de dólares de capitalização bolsista. “Por ser uma empresa tão pequena creio que é esquecida por vários investidores. A empresa é fornecedora da Tesla no que toca ao conjunto de cabos elétricos. Se imaginarmos o pack de bateria do modelo Tesla X, existem uma série de células individuais que têm de ser conectadas para que a energia possa alimentar o carro. O que esta empresa faz é precisamente providenciar o conjunto dos cabos que executam essa função”, explica. Subjacente à atenção dada à Bizlink, está o facto “das vendas da empresa para a Tesla terem um potencial de subida de 9 vezes nos próximos 5 anos”.

Outro exemplo é a empresa sediada no Kenya Commercial Bank, partner de uma plataforma móvil canadiana chamada M-Pesa. “Um queniano que faça um crédito através da M-Pesa, terá o funding feito literalmente através do Kenya Commerical Bank. Este banco é o que tem maior penetração no país, e gera um ROE de 20%, o que é um valor elevado para um banco. O mercado hipotecário no país ainda é muito incipiente e, por isso, espera-se que acelere nos próximos tempos”, explica. 

Desde o seu lançamento (2012), o fundo alcançou 23,2% de retorno em dólares o que, não esconde o especialista, “tem ficado atrás” do benchmark com o qual se comparam (MSCI Emerging Markets) que conseguiu 31,9% de retorno no período. Para Ross Teverson há contudo um contexto a ter em conta: “Este foi um período em que a China teve um melhor desempenho, bem como as large caps. Esse tipo de headwinds são obviamente desafios de curto prazo para o fundo; no longo prazo, contudo, acreditamos que a composição do fundo deverá trazer fortes retornos”, diz confiante.

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