Riscos no segundo semestre: as “trumpalhadas” e não só!


Findo o primeiro semestre e que se pautou por uma maior volatilidade dos mercados e ativos financeiros, quais os fatores de risco que poderão influenciar os mercados até final do ano?

Apesar de a economia global continuar a crescer, a principal preocupação é que o crescimento económico pode não ser sustentado, devido ao facto de poderem existir descontinuidades na harmonização entre os vários blocos: EUA, Europa, Ásia (com o natural peso da China) e economias emergentes em geral.

Os principais fatores de risco que poderão afetar um crescimento harmonioso à esfera global são a meu ver: a guerra comercial iniciada por Trump, tendo como alvos principais a China e a Europa (que ele considerou há pouco tempo como inimiga dos EUA); a inflação que durante muitos anos foi um indicador menos importante para a análise económica e dos mercados; um período de crescimento do PIB americano longo (mais do dobro dos anos que a média histórica) e o risco geopolítico em alguns países europeus motivado por diferentes fatores como a crise migratória do norte de África, os desejos nacionalistas / radicais e os desejos independentistas (Alemanha, Itália e Espanha) e que podem criar instabilidade para o futuro europeu.

Comecemos pelas “Trumpalhadas”. Trump é sobretudo um homem de negócios que já obteve sucesso, mas também insucessos na sua vida empresarial. Em termos económicos, Trump gere a economia americana como se fosse uma empresa. Ele quer combater o elevado défice comercial, mas na minha opinião está a escolher o caminho errado.

Numa sociedade americana de forte consumo e desperdício, querer reduzir o défice comercial através de um crescente protecionismo, em vez de escolher a via da negociação é um erro, pois a economia americana também perde. As exportações dos blocos económicos envolvidos são globalmente afetadas, com as naturais consequências negativas na evolução económica. Estes receios foram recentemente salientados pelo FMI.

O segundo fator de risco é a inflação. Durante anos, a inflação não esteve nos holofotes dos analistas financeiros. E mesmo hoje, se olharmos para a curva das yields americanas, vemos que o spread entre as obrigações do tesouro a 10 e a 2 anos é de apenas 0,38% (2,88% versus 2,50% em 23 de julho). Contudo, caso a inflação dê sinais de subida, a curva das taxas de juro ficará mais inclinada, com as yields longas a crescer mais do que as yields a prazos mais curtos.

Devido ao período expansionista e extremamente flexível em termos de política monetária, o endividamento das empresas americanas aumentou e tal é visível em vários indicadores financeiros (especialmente o número de vezes que a dívida financeira é superior ao cash-flow operacional).

E, portanto, num cenário de subida da inflação para níveis acima do esperado, a consequência é a subida dos juros e, naturalmente, dos encargos financeiros das empresas, prejudicando os resultados líquidos.

Na Europa, as dificuldades de constituição do governo na Alemanha e os efeitos da crise migratória do norte de África, têm criado dificuldades à estabilidade política na maior economia da Europa. Por outro lado, a economia alemã assenta bastante nas exportações, pelo que, é vulnerável a qualquer constrangimento comercial.

Na Itália, temos um governo radical e disposto a não cumprir à risca as regras do Pacto de Estabilidade. Nos próximos meses veremos os resultados do seu programa de governo e a evolução do défice público italiano.

Em Espanha, com a mudança de governo, estamos ainda na chamada fase de “lua de mel” entre Madrid e a Catalunha. Mas, as aspirações independentistas de parte dos catalães não desapareceram.

Portanto, o cenário não está fácil. Esperemos que a época de resultados do 2º trimestre que está a decorrer, venha ajudar a dissipar algum do nervosismo dos investidores.

Boas férias.

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