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Richard Colwell (Columbia Threadneedle): “O mercado de ações inglês está num ponto de entrada muito interessante”


Há dois anos atrás preparava-se aquela que viria a ser uma das decisões mais importantes da história do Reino Unido. A consulta feita ao povo inglês a 23 de junho de 2016 ditava a saída do Reino Unido da União Europeia mas, como recorda Richard Colwell, head of equities da Columbia Threadneedle, nos meses que antecederam a decisão eram poucos os sinais que faziam prever o desfecho do referendo. Numa conversa com a Funds People Portugal em Londres, o profissional recordou precisamente que na “preparação do referendo o ‘céu estava azul’, toda a gente achava que o crescimento da economia inglesa era muito forte, Cameron tinha sido eleito e a situação política parecia estável. Além disso, o mercado de ações inglês estava a sair-se bem e a libra era vista como um safe haven. A margem do mercado estava a ser conduzida por muitas das empresas domésticas mais pequenas e as empresas de grande capitalização eram vistas como um pouco aborrecidas”.

Na gestão do Threadneedle UK Equity Income, fundo com selo Blockbuster atribuído pela Funds People e a cargo do profissional, os meses que antecederam a o referendo não foram de especial preparação para o que estaria para vir. O profissional admite mesmo que “não prepararam o portefólio para nenhum cenário em específico”; começaram, sim, a aumentar posições em algumas das ‘large caps’ que muitos viam como pouco interessantes. “Quando o resultado do referendo foi conhecido, navegámos bastante bem nesse cenário porque não estávamos nos chamados ‘crowded trades’, e também, provavelmente, por estarmos mais investidos em empresas de grande capitalização com receitas noutras divisas. A nossa experiência de drawdown nesses dias seguintes quando o mercado caiu a pique foi bastante boa”, recorda.

Bom ponto de entrada

Atualmente a situação do mercado de ações inglês é diferente dessa altura. Richard Colwell frisa que o mercado “está obviamente em novos máximos em termos absolutos”, mas não deixa de apontar que “relativamente a outros mercados de ações globais tem ficado para trás durante os últimos anos”. Ainda assim, é bastante conciso na sua opinião: “Diria que o mercado de ações inglês está atualmente um ponto de entrada muito interessante, ainda para mais se o investidor sentir que em termos genéricos os mercados de ações já se estenderam demasiado à medida que nos movemos de um regime de Quantitative Easing para um regime mais de Quantitative Thighten”, declara. Num contexto de maior turbulência, como este último, o mercado de ações inglês constitui um “maior safe haven, no sentido em que não existe muito dinheiro especulativo a circular no mesmo”. O especialista lembra mais uma vantagem: “A composição do mercado acionista do Reino Unido não é um reflexo apenas da economia doméstica, pois este trata-se de um mercado internacional com uma vasta gama de empresas multinacionais, o que faz com que tenha uma maior tendência para o que chamamos de indústrias mais defensivas. As ações destas indústrias não têm sido propriamente favorecidas pelo mercado durante os últimos 18 meses, com os investidores a acreditarem na ideia de um crescimento global sincronizado e, por isso, mais interessados em conseguir exposição económica a empresas cíclicas e financeiras”. Segundo o especialista “têm existido alguns desapontamentos neste último tipo de ações” e, por conseguinte, “o mercado de ações do Reino Unido tem beneficiado com isso”. Para os investidores que continuam “condicionados” pelo eventual desfecho do Brexit, Richard Colwell reage de forma muito prática. “Se os investidores estiverem à espera de alguma clareza relativamente ao Brexit há duas coisas que vão acontecer: provavelmente terão de esperar muito tempo e, por outro lado, estarão a desperdiçar oportunidades pelo caminho”.

Olhar para os desfavorecidos do mercado

Na gestão do Threadneedle UK Equity Income, embora o objetivo seja, claro, “proporcionar uma yield atrativa relativamente às alternativas, e esta seja uma parte importante da proposição de investimento”, Richard Colwell diz não querer estar “totalmente focado no income a qualquer custo”. “Quero que este fundo seja considerado como um bom balanceador que oferece um retorno total muito atrativo dentro do ciclo. Tratam-se de 50 posições cotadas no mercado do Reino Unido; não faço um screening de cada ação tendo em conta um dividend yield mínimo. A yield de 4% que alcançámos é obtida ao nível do portefólio em termos genéricos. Entre os vários títulos em carteira existem algumas ações com yields elevadas; são empresas que o mercado vê com algum receio, e cujos dividendos estão sob pressão porque os lucros são fracos. Contudo, eu considero que os cashflows dessas empresas podem melhorar”, certifica.

O processo de investimento do fundo parte do que apelida ser uma “forte equipa de ações UK”, com cerca de 12 pessoas, com distintos skills, backgrounds, estilos de investimento, etc. O profissional conta que na parte de geração de income procura olhar especialmente para screenings de empresas que foram desconsideradas pelo mercado, “por estarem estruturalmente pressionadas e pelo facto dos seus retornos não terem regressado a anteriores máximos. Tentamos portanto identificar empresas cujo ‘franchising value’ tenha sido subestimado por causa das atuais dificuldades operacionais”.

Familly office type fund”. É assim que o profissional gosta de designar o produto.  Diz não estarem preocupados com a constituição do índice, nem com a constituição de outros produtos semelhantes, e dá provas disso. “No índice inglês, por exemplo, cerca de 40% é composto por Energy & Mining, e essa é uma área de mercado da qual nos afastamos”. Por via desta postura, o profissional salienta que “o tracking error deste fundo é mais alto do que o de outros produtos”, mas, por outro lado, a ‘drawdown experience’ é muito boa”. Outra caraterística do fundo é a sua baixa rotação, principalmente nos últimos anos. “Tentamos fugir da manada e ser seletivos. Ainda assim, contudo, tentamos ser bastante ativos e reunimos com boards de empresas nas quais não investimos”, diz.  Resumindo, o profissional salienta que o seu “campo de caça” é todo o mercado. “Neste fundo temos cerca de 70% investido no FTSE 100, mas ironicamente nesses 70% temos pouca exposição às maiores posições do índice; não temos em carteira empresas como a Vodafone, BP, HSBC... os 30% que estão fora do universo do FTSE 100 estão em algumas small caps. Podemos dizer que o fundo é portanto muito flexível”.

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