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Reflexões sobre o auge do risco político na Europa e o seu impacto no mercado


A proximidade no tempo entre a consulta sobre a permanência do Reino Unido na UE e as eleições gerais em Espanha levou muitos investidores a tentar antecipar que impacto poderá ter o risco político nos restantes países que enfrentam as urnas nos próximos 12 meses. No que respeita ao resultado das segundas eleições em Espanha em menos de uma ano, da Pioneer Investments, o diretor de fixed income soberana europeia, Tanguy Le Saout, comenta que “a boa notícia é que, ao contrário do Reino Unido, o eleitorado espanhol não votou por uma solução radical. A má notícia é que poder-se-á produzir outro período de extensas negociações políticas”.

“O resultado não é tão mau como o que temiam os mercados, dado que se tinha falado de que a coligação Unidos Podemos poderia unir-se ao PSOE para formar um governo de esquerdas”, prossegue Le Saout. A situação atual não é, segundo o seu ponto de vista, “o resultado que elegeram os mercado, pelos menos não é o resultado que temiam”. Em termos de efeitos sobre as classes de ativos, o especialista considera que os spreads da dívida espanhola poderão estreitar-se em comparação com a Alemanha, “mas o estreitamente poder ser limitado pela falta de claridade política.

Já Laura Sarlo, analista sénior de dívida soberana da Loomis Sayles (filial da Natixis Global AM) considera que : “A incerteza causada pelo Brexit será um golpe no crescimento da UE. As economias periféricas continuarão sob pressão, e esperamos que os spreads entre países europeus se expandam”.

O temor de Sarlo é que, com a exceção da Espanha, o Brexit seja a faísca que acenda o sentimento anti europeísta noutras partes da Zona Euro. Além das intenções de Nicola Sturgeon, primeira ministra da Escócia, de voltar a convocar outro referendo a favor da independência, a analista recorda que também a Itália celebra o seu próprio referendo para decidir a introdução de uma série de mudanças na constituição. “Achamos que os riscos anti UE estão a incrementar-se entre a política da periferia”.

Para Jack McIntyre, da Brandywine (filial da Legg Mason Global AM), é preocupante o possível efeito do Brexit sobre as eleições presidenciais dos EUA no outono: “já levamos algum tempo num contexto de escasso crescimento. As pessoas estão a ficar frustradas. Existem diferentes formas de populismo, tanto da esquerda como da direita, que estão a impulsionar a popularidade do Donald Trump. Estão a jogar com argumentos contrários à globalização e à imigração. Veremos como termina isto”. Para McIntyre, o maior risco que acompanha uma eventual vitória de Trump é que “cumpra algumas das promessas que fez, o que dará lugar a protecionismo. Já assistimos a esta situação em 1929 e isso daria lugar a um contexto caracterizado por uma elevada aversão ao risco”.

O ano que vem também vai estar carregado de eventos políticos: eleições presidenciais em França, eleições federais na Alemanha e eleições gerais na Holanda. “Considerando os riscos associados à atual crise dos refugiados, o panorama político continuar a ser muito incerto”, observam os especialistas da NN Investment Partners. Sobre os resultados as eleições em Espanha, opinam o seguinte: “As eleições tiveram como resultado um Parlamento sem maioria pela segunda vez em seis meses. O Partido Popular de centro direita, do presidente em funções voltou a ganhar, mas não conseguiu uma maioria, o que deixa o país exposto a outro prolongado período de paralisação política, ou inclusivamente umas terceiras eleições gerais”.

Na gestora holandesa falam também do impacto da incerteza política na Europa sobre as valorizações, ao ter capacidade para fazer que os mercados reajustem consideravelmente os preços para que reflitam o risco político. “Isto já se pode perceber pois temos visto como as bolsas dos países periféricos sofreram o maior castigo e como, ao mesmo tempo, se ampliaram os spreads dos seus títulos de dívida pública. A este respeito, o Brexit pode levar os mercados a fixar a sua atenção no risco de desintegração da zona euro. A união monetária continua a precisar de instituições fiscais e bancárias mais vigorosas para conseguir ser estável no longo prazo”, resumem. 

Segundo a NN Investment Partners, estas dinâmicas provavelmente poderão determinar, em grande medida, a duração da desconfiança a curto prazo que reina nos mercados. “No final de contas, os circuitos de retroalimentação negativa entre a política e os mercados, por um lado, e a economia real, por outro, impulsionarão o impacto sobre as perspetivas de crescimento e, portanto, sobre as perspectivas a médio prazo para os mercados”, concluem.

“Nos tempos que correm, a política não costuma ter um efeito positivo nos mercados a curto prazo, mas finalmente a maré acalmou, o prémio de risco do mercado cai e os fundamentais das ações regressam uma vez mais à ribalta”, diz Paul Casson, gestor de retorno absoluto da Artemis. O experiente gestor encarrega-se de recordar que “isto acontece várias vezes, com novas dúvidas em cada oportunidade, que se vão dissipando à medida que o medo desvanece”. “A Europa não é um lugar perfeito, mas os mercados voláteis são os que nos proporcionam mais oportunidades, e não há motivo para nos rendermos e voltar para casa”, declara.

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