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Reflexões importantes para os que continuam alocados a depósitos a 0% e têm medo de investir


Investir para aumentar o património é um tema bastante comum, sobretudo quando os investidores se movimentam entre a aversão ao risco e a procura por rentabilidade. Atualmente, muitos portugueses se mantêm em depósitos bancários que oferecem rentabilidades próximas de 0%. De facto, neste momento, em Portugal há mais de 130.000 milhões de euros em liquidez, mas, em muitos casos, os titulares estão conscientes de que, em última análise, isso resultará numa perda do poder de compra. No entanto, nem mesmo sabendo isso, muitos deles mudam as suas opções de investimento. Por outro lado, outros investidores posicionam-se entre a aversão ao risco e a procura de rentabilidades. Tanto o primeiro como o segundo grupo devem ter em conta algumas reflexões importantes.

Talvez os factos mais reveladores sejam expostos por David Buckle, responsável pela área de soluções de investimento da Fidelity, no tradicional almoço de verão com os jornalistas: que, ao fazerem isto, os investidores estão a perder poder de compra. Algo que temos visto ao longo dos últimos oito anos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. “Na Zona Euro, o que em 2009 custava 100 euros, hoje custa aproximadamente 111 euros, enquanto esses 100 euros aplicados em depósitos atualmente seriam 102. Nos Estados Unidos ocorreu algo parecido e o que custava 100 dólares em 2009, hoje custaria 116 dólares, e esse dinheiro no banco tinha-se convertido em 103 dólares. É inegável que, devido à inflação, tenha havido uma perda do poder de compra que fez com que a liquidez tenha sido a pior classe de ativos”, assegura. Isto mostra que investir em liquidez só garante uma rentabilidade que vai ficar aquém da curva da inflação.

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A regra número 1 que deveriam saber aqueles que, em Portugal, aplicam esses 130.000 milhões em depósitos e contas à ordem é que a conservação do poder de compra deve governar toda a decisão de investimento, e não a segurança, afirmam Hans-Jörg Naumer e Stefan Scheurer, analistas globais de mercados da Allianz Global Investors. Ambos elaboraram um guia com gráficos ilustrativos, onde expõem quatro reflexões que deveriam ter em conta aqueles que pretendem abandonar os depósitos de 0% mas que têm medo de investir.

Reflexão #1 - O importante é que a inflação não reduza o seu poder de compra

Parece que tudo gira à volta da segurança, muitas vezes entendida como ausência de flutuações das cotações. Mas tem sido mostrado que, se forem guardados 100 euros no banco, o mais provável é que, dentro de dez anos, esse dinheiro sirva para adquirir menos bens e serviços, o que deriva numa perda de poder de compra real.

“Nos últimos anos, temos visto que investir em ações pode ser como uma viagem de montanha russa. Por isso, é compreensível que os investidores queiram evitar as flutuações das cotações. No entanto, correm altos riscos de sofrer uma perda real do poder de compra, o que é, ainda, mais desagradável se considerarmos que, na atualidade, as taxas de juro das contas a prazo são praticamente nulas. Nem os títulos soberanos servem. Quem quiser conservar o seu capital, não pode ter entre as suas exigências principais a ausência de flutuações das cotações, mas sim como requisito mínimo na hora de investir, a preservação do poder de compra”, recordam os profissionais da Allianz Global Investors.  

A gestora faz um pequeno cálculo que demonstra o quão rápido a inflação diminui o poder de compra: o de alguém que guarda hoje 100 euros debaixo do colchão, ou de alguém que o deixa aplicado num depósito bancário a 0%. “Supondo uma inflação anual que ronde o objetivo do BCE a médio prazo, que é ligeiramente inferior a 2%, dentro de dez anos, com esse dinheiro apenas poderia comprar artigos no valor de pouco mais de 80 euros. Ao fim de 20 anos, o valor desse dinheiro teria baixado para menos de 70 euros. E se, neste período, a inflação subisse 4%, em apenas 10 anos o seu dinheiro valeria menos de 70 euros. Ao fim de 20 anos, não seria o suficiente sequer para comprar alguma coisa que custasse 50 euros. Visto assim, o maior risco é não querer correr nenhum risco”, afirmam.

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Reflexão #2 – Conheça-se a si mesmo e questione as suas aspirações

Segundo explicam os profissionais da entidade gestora, os resultados da economia comportamental levam sempre à mesma conclusão: o nosso cérebro é o culminar de um processo de desenvolvimento que terá durado milhares de anos. Em consequência, ainda hoje tendem a mostrar padrões de conduta da Idade da Pedra, que nem sempre se podem explicar racionalmente. Assim, muitas vezes vemos o mundo dos investimentos dentro de um determinado quadro, isto é, vemos apenas o que queremos ver e, como resultado, por vezes excluímos alternativas melhores. Temos tendência a “seguir a manada” ou a agir impulsionados por estados de humor que são precisamente os que levam os investidores a passar do medo à ganância, e vice-versa. 

“Na maioria dos casos, o melhor é seguir a sabedoria dos Índios Dakotas, aos quais se atribui a máxima: se o cavalo está morto, desmonta. No entanto, atualmente cruzamo-nos com investidores que compraram uma determinada ação nos inícios da década de 2000 por 60 ou 80 euros, e estão à espera que a sua cotação volte a esses níveis. Se tivessem vendido e trocado por uma carteira diversificada de ações alemãs e europeias, já tinham recuperado aquelas quedas de preços. A consequência é que passam mais de uma década a deixar escapar revalorizações. Por isso é importante conhecer-se a si mesmo e questionar a própria forma de aturar”. (Gráfico 1: Padrões Típicos de Conduta)

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Reflexão #3 – A lei fundamental dos investimentos é optar por prémios de risco

Os investidores de sucesso sabem-no: sem risco não há prémios de risco; esta é a verdadeira lei fundamental de todos os investimentos. “A lógica subjacente é que todos aqueles que investem assumindo um maior risco, deveriam poder contar que, com tempo, esses investimentos produzam uma rentabilidade maior do que outros investimentos alternativos carentes de risco e que, portanto, prometam menos lucros”. No Gráfico 3 são mostrados quais os prémios de risco que são atribuídos a cada classe de ativos.

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Até aqui foi teoria. Agora passamos à prática. O período do estudo integral, compreendido entre 1801 e o final de 2015, revela claramente qual foi o efeito dos prémios de risco das ações. Se em 1801 um investidor tivesse investido 1 dólar em títulos soberanos desse país, chegado o fim de 2015, teria ganho algo mais de 1550 dólares, mesmo após o ajuste do poder de compra. No mesmo período, com um investimento em ações teria ganho mais de 1,4 milhões de dólares. “Supostamente, a história não se repete, mas podemos aprender muito com ela. A lição é que correr riscos maiores compensou a olhos vistos no caso das ações. Tendo em conta o poder de compra, as ações ofereceram mais segurança do que as obrigações”.

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Reflexão #4 – Investir em vez de especular

Não é preciso ser-se um especialista e acompanhar continuamente a evolução das cotações e os acontecimentos do mercado para identificar quais os momentos mais oportunos para investir e resgatar. A boa notícia é que aquele que quer ver crescer o seu capital a longo prazo, não especula, mas sim investe logo. Quando se refere a “especular”, a Allianz Global Investors refere-se a apostar a curto prazo em movimentos das cotações e, com “investir”, a aplicar o dinheiro para render no médio a longo prazo. No Gráfico 5, a gestora explica a diferença nos diferentes segmentos de mercado de ações.

“Usemos como exemplo as ações europeias: aqueles que nos últimos 25 anos investiram numa carteira diversificada de ações europeias, conseguiram, em média, uma rentabilidade de quase 8%. Se esses investidores tivessem perdido os melhores 20 dias da Bolsa, por exemplo à espera de cotações mais vantajosas para entrar, apenas teriam obtido uma rentabilidade de menos de 2%. E se tivessem perdido os melhores 40 dias, teriam sofrido uma perda de 2,3% anual, em média. A maioria das vezes o melhor método é deixar que o dinheiro fique aplicado. O risco de se perderem os melhores dias dos mercados de capitais é muito elevado. Em nenhuma Bolsa há uma campainha que avisa quando o investidor deve entrar ou sair”.

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