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Reestruturação: será um conceito assim tão negativo?


O conceito de reestruturação é muito importante no ensino da gestão e como prática nas empresas. É um conceito normalmente muito bem visto por analistas de research (de acções ou de dívida de empresas) e por analistas de risco de crédito.

Tem sido normal nos últimos anos vermos análises do tipo: dada a reestruturação da sua actividade, a empresa XPTO poupou x%, ganhou eficiência e assim conseguiu um ganho dos resultados de y% este ano; ou então, o processo de corte de custos é a face mais visível da reestruturação levada a cabo pela empresa ABC.

Também a reestruturação do passivo ou dos capitais alheios é sempre bem recebida pelos analistas, dado ser positiva para o equilíbrio financeiro da empresa a m/l prazo e para as necessidades de fundo de maneio.

Portanto, não há dúvidas que o termo reestruturação é para continuar a figurar nos compêndios de gestão. Contudo, quando o conceito é aplicado noutras vertentes, já não tem sido tão bem recebido, havendo até um certo dramatismo. Muito se tem falado no manifesto dos 70 e na oportunidade do mesmo numa altura em que falta pouco para o final do PAEF (Programa de Assistência Económia e Financeira).

De facto, nesta altura, quanto menos volatilidade e quanto menos “ruído de som” houver melhor. A reestruturação da dívida pública pode revestir duas formas: uma mais violenta denominada haircut e outra mais temporal denominada extensão de maturidades.

Com uma dívida pública de 130% do PIB (acima dos 200 mil milhões de euros), é óbvio que esta tem que estar escalonada em prazos de reembolso predominantemente muito longos, especialmente, quando o PIB tem dificuldades em crescer mais de 2% em termos reais, quando existem dificuldades em apresentar um saldo primário das contas públicas positivo de pelo menos 2% e quando as taxas de juro da dívida deveriam ser 1% a 1,5% mais baixas do que as actuais.

Mas, atendendo ao actual quadro de investidores da dívida pública nacional, um haircut não teria um impacto significativo na redução da mesma, uma vez que grande parte dela está nas mãos da Troika (91 mil milhões de euros ou seja, 54% da dívida de m/l prazo) e esta, como se sabe e como aconteceu na reestruturação da dívida grega não entrou nas contas do haircut. Por outro lado, os bancos nacionais e a segurança social seriam fortemente penalizados caso houvesse um haircut neste momento.

Em 2011 teria feito sentido um haircut, uma vez que a maior parte da dívida pública estava em mãos de investidores institucionais privados (bancos alemães e franceses fundamentalmente) e as posições dos bancos nacionais eram reduzidas.

No período pós Troika, faz todo o sentido continuar a reestruturar as maturidades, aliás, como o IGCP tem feito nos últimos meses. É necessário tempo para pagar a dívida pública, dada a reduzida dinâmica de crescimento do PIB e dada a necessidade em continuar com a consolidação das contas públicas nacionais.

(Autor da imagem:  srta_kalaberah, Flickr, Creative Commons)