Razões que explicam a deceção dos investidores com a bolsa japonesa…


Nos últimos cinco anos o caminho do índice de referência do Japão, o TOPIX, foi uma viagem a lado nenhum. Um investidor passivo em ações nipónicas estará agora mais ou menos no mesmo ponto de partida do que em 2015. O que explica a sensação de deceção com esta classe de ativos. Mas antes de descartar o mercado por completo, Ichiro Kosuge, responsável de ações japonesas na Goldman Sachs AM, convida a compreender primeiro as razões por detrás do mau comportamento.

1. Porque o índice não representa bem as áreas de maior crescimento do país

Como muitos índices, a construção do TOPIX japonês tem um viés para setores do passado. Tem um peso relevante nos chamados setores legacy, as indústrias potentes de outrora que atualmente oferecem um escasso potencial de crescimento futuro. O setor automóvel, os transportes, as empresas de telecomunicações, a banca, as matérias-primas, etc., representam 60% do índice.

unnamed

Segundo identifica também o gestor do Goldman Sachs Japan Equity Portfolio, fundo com Selo FundsPeople 2020, com classificação de Blockbuster, o baixo rendimento destas partes mais value do mercado deveu-se principalmente à débil inflação numa economia estagnada, a qual se junta a um contexto de taxas de juro negativas. “Depois da venda indiscriminada deste ano, alguns podem argumentar que as valuations significativamente descontadas justificam a recuperação destas ações. Não obstante, é importante recordar que no contexto atual de baixo crescimento, baixas taxas de juro e baixa inflação com catalisadores limitados, muitas destas aparentemente subvalorizadas empresas poderão muito bem tornar-se armadilhas de valor a longo prazo”, alerta.

Pelo contrário, Kosuge optará por fixar-se em empresas menos alavancadas na procura cíclica e com maior exposição ao crescimento independente do ciclo económico. O Japão continua a albergar alguns dos principais inovadores de tecnologias disruptivas como a automatização de fábricas, soluções de condução autónoma, eletrónica industrial, robótica, 5G, internet das coisas, etc., recorda.

2. O impacto da taxa de câmbio do dólar-yen

Outro dos fatores imprescindíveis ao investir no Japão é vigiar a taxa de câmbio do yen-dólar. A nível geral, explica o gestor, costuma-se interpretar um yen forte como percursor de uma correção e um yen débil como um catalisador positivo. Mas, na realidade, o impacto varia muito por setor.

unnamed

Fazer esta distinção por setores é especialmente relevante agora que atravessamos um período de força no yen. Como se pode ver no gráfico anterior, há indústrias como o retail ou o ferro e o aço com um breakeven (o ponto a partir do qual são rentáveis) alto, enquanto é mínimo em nichos como as farmacêuticas ou químicas.

A relevância do alfa

Tudo o anterior pode ser resumido assim: estamos perante uma oportunidade boa para a seleção ativa nas ações japonesas. E os gestores (bons) de fundos ativos souberam tirar partido. Segundo dados da Mercer, quanto maior for o prazo, melhor ultrapassaram o índice. Nos últimos cinco anos, mais de 62% dos gestores ativos ultrapassaram o TOPIX.

schr2

O motivo, explica Kosuge, está na mudança de tendência no mercado japonês. Entre 2012 e 2015, o Japão foi um mercado beta, com a Abenomics e as políticas do Banco do Japão a atuar como fatores determinantes no preço das ações. Mas, desde 2015, o impacto das políticas macroeconómicas no mercado diminuiu. “Os preços das ações são agora em função dos fundamentais empresariais e da solidez financeira das empresas”, assegura. Isto provocou uma maior dispersão nos retornos e um aumento da importância do alfa. No caso dos gestores no primeiro quartil, a geração de alfa contribuiu 75% para os retornos dos últimos quatro anos.

Outro argumento a favor da gestão de ativos, acrescenta, é a baixa cobertura do mercado japonês por parte dos analistas. O TOPIX é o terceiro mercado por capitalização do mundo, com 3.600 empresas. Mas o rácio de cobertura é de 11 analistas por empresas enquanto no S&P 500 é 22 e no MSCI Europe é de 21.

Empresas

Notícias relacionadas

O Mais Lido

Próximos eventos