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Quem tem medo do Lobo Mau?


Vulgarmente, associamos o risco de um choque petrolífero a uma subida descontrolada do preço do petróleo. Mas nos dias que correm este lobo mau, que assusta tanta gente, pode provocar uma crise se for obrigado a reformar-se antecipadamente.

Uma das temáticas mais relevantes e que temos identificado como um dos principais fatores de risco nos próximos anos, é a implicação geopolítica da alteração das dinâmicas que estão subjacentes às fontes de energia, em particular, à perda da importância do petróleo como matéria-prima. Ninguém ao certo consegue medir as suas implicações, nem tão pouco perceber como se vão comportar os interesses instalados. Mas é muito provável que ao longo desta nova década sejamos confrontados com distintos episódios geopolíticos, para os quais vamos ter maior dificuldade em aferir o seu significado e consequentemente o seu alcance.

Se é verdade, que o recente recrudescimento do conflito entre os EUA e o Irão, estabelece um novo marco neste confronto, porque torna inviável o desanuviamento das tensões no Médio Oriente nos próximos anos, também é verdade que a consequência imediata é a cristalização de um maior prémio geopolítico no preço do petróleo.

Contudo, e não pretendendo elaborar nenhuma teoria da conspiração, vale a pena procurar um enquadramento mais alargado dos recentes acontecimentos, para que nos obrigue a refletir que existem muito outros fatores de análise para além daqueles que são repetidamente evidenciados.

Na última década, assistimos a uma alteração profunda no domínio da produção do petróleo e gás, com os EUA a liderarem a produção mundial. Em finais de outubro de 2019, os EUA estavam a produzir cerca de 12,655 milhões de barris por dia (bpd), de acordo com as fontes da Energy Information Administration (IEA). Segundo o American Petroleum Institute, a indústria do petróleo e do gás é responsável por mais de 10,3 milhões de postos de trabalho e representa cerca de 8% do PIB americano

Apesar de deter 79,4% das reservas mundiais de petróleo, a OPEP viu na última década, a sua quota da produção mundial de petróleo passar de cerca de 40% para 30%. O Irão, apesar de ser o terceiro país com as maiores reservas comprovadas, produziu apenas 2,1 milhões bpd a novembro de 2019, o que contrasta com os 3,8 milhões bpd que produziu em 2017. Segundo o FMI, o PIB em 2019 terá caído 9,5%, não sendo por isso de estranhar o registo de crescentes episódios de insurreição social no Irão.

Com vista a controlar o excesso de capacidade do petróleo, a OPEP associou-se à Rússia com o objetivo de controlar os preços. De registar que a Rússia produziu 11,25 milhões de barris por dia em 2019, tornando-se o segundo maior produtor mundial. Atualmente existe um acordo que totaliza um corte de cerca de 1,7 milhões bpd e que está vigente até março deste ano. Contudo, ainda persiste um excesso de capacidade estimado, por vários organismos internacionais de 0,7 a 1 milhão bpd. Mas a propósito do acordo com a OPEP, o ministro da energia russo Alexander Novak, na semana passada, veio afirmar que os cortes de produção não podem ser indefinidamente prolongados no tempo e que a Rússia tem interesse em incrementar a sua quota de produção…

Não deixa de ser relevante que esta recente subida do preço spot do petróleo tenha deixado praticamente inalterados os preços de longo prazo deste commodity. Se juntarmos a divergência entre a evolução dos preços do gás natural e do petróleo nos EUA, facilmente depreendemos que o potencial de subida sustentada dos preços de petróleo é muito limitado. No último ano o crude subiu 60% em termos relativos face ao gás natural e 35% em termos absolutos (fonte: bloomberg).

A relevância dos preços do petróleo, para os Estados produtores e para as companhias que operam no setor são cada vez mais relevantes, dado a exposição das contas públicas e dos pesados balanços. Em 2015, a queda dos preços do petróleo teve um impacto tremendo nos spreads de crédito dos países produtores, bem como no universo de dívida de High Yield, com especial expressão no mercado americano, desestabilizando de imediato a frágil confiança do sistema financeiro mundial.

Não foi por isso de estranhar a preocupação manifestada pela agência de rating Moody’s no final de dezembro, ao referir-se aos 200 mil milhões de dólares de dívida de empresas petrolíferas norte-americana, que vão ter de ser refinanciados nos próximos 4 anos, dos quais 40 mil milhões de dólares este ano.

Nesta análise, não podemos ignorar o principal motor fundamental que está por detrás das diferentes “contas” subjacentes ao preço do petróleo, são indubitavelmente as vendas de automóveis. Em 2019, as vendas de novos veículos deverão ter caído globalmente cerca de 4%, ou seja, 3,1 milhões de unidades, o que se traduz na maior queda desde a grande recessão. No mês passado a China, o maior mercado consumidor de automóveis do mundo, anunciou que pretende que 25% das vendas de automóveis em 2025 sejam em veículos eléctricos...

Por fim, de referir que na Austrália, enquanto estão a ser devorados mais de 5 milhões de hectares pelos fogos, uma equipa de cientistas internacionais da Universidade Monash, desenvolveu o protótipo de uma bateria de lítio capaz de fazer um carro eléctrico mover-se 1.000 km e de manter carregado um telemóvel durante cinco dias…

Em resumo, no topo da cadeia alimentar o lobo mau está a ficar velho e a perder aptidões. O risco é que se este for rapidamente substituído pode provocar uma grande distorção na cadeia alimentar. Estes são os sinais dos tempos, onde neste mundo endividado e fragmentado, são múltiplos os fatores que podem minar a confiança no sistema e precipitar uma recessão. Ironicamente, uma queda descontrolada do preço do petróleo acarreta esse risco.

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