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Quem ganha e quem perde na Era de Trump


A eleição de Donald Trump, embora fosse um cenário que poucos consideravam provável, é uma realidade. Neste momento, o mercado tenta compreender qual será o impacto das várias medidas anunciadas pelo atual presidente dos Estados Unidos da América nos vários sectores económicos. Tristan Camp, investment specialist da Legg Mason, na conferência Opportunities in US Equities promovida pela entidade, destacou recentemente os aspetos positivos e negativos que as medidas anunciadas poderão ter em cada sector.

Para Camp, as medidas podem ser analisadas segundo duas perspetivas: procura e oferta. No que diz respeito à primeira, “existe um enorme foco na redução dos impostos, tal como é usual nos partidos republicanos. Donald Trump pretende não só reduzir a taxa de imposto global, mas também reduzir a taxa de imposto federal para as empresas, para 15%, em vez dos atuais 25%. Mas de uma forma geral, quer reduzir os impostos para todas as empresas”, afirma Camp.

Por outro lado, na perspetiva da oferta, “nos últimos oito anos surgiram um conjunto de novos regulamentos nas mais variadas áreas – como por exemplo segurança pública, ambiente – e, como tal, Trump tem como objetivo reduzir a regulamentação. Pretende ainda facilitar a repatriação de dinheiro que as empresas norte-americanas detêm no estrangeiro”, destacou.

Desta forma, estas três medidas – redução dos impostos, desregulação e repatriação do dinheiro – “apresentam-se como potenciais catalisadores de um crescimento mais sustentado”, conclui o especialista.

Impactos sector a sector

Financeiro – Camp acredita que as consequências deverão ser tanto diretas como indiretas. Assim, “a desregulação terá um impacto direto no sector financeiro. Isto porque para além da redução dos impostos, Trump pretende rever de forma significativa a reforma Dodd-Frank, criada em 2010”. Por outro lado, a reflação terá um impacto indireto no sector, isto porque “hoje, a curva de yields está mais acentuada do que estava há uns meses atrás, o que é algo que afeta de forma clara os lucros, uma vez que impulsiona a margem dos juros. A expectativa de que a economia continuará forte é boa para os bancos, que são bastante sensíveis ao estado da economia. De uma forma geral, o sector financeiro e os bancos têm reagido bem às políticas de Trump”, afirma.

Saúde – Tristan Camp destaca que as consequências poderão ser positivas e negativas, no que toca a este sector. “Por um lado, os preços registados pelo sector farmacêutico no período pré-eleições acabaram por ser exagerados, uma vez que a proposta de Hillary Clinton relativa à entrada de medicamentos genéricos no mercado não se realizou”. Contudo, “a intenção de redução do preço dos medicamentos é uma medida que poderá ter um impacto negativo neste sector”. Por fim, “é evitado o risco da intenção de Donald Trump em rever de forma significativa o Obamacare, uma vez que não serão observadas alterações significativas nos próximos tempos”, conclui Camp.

Infraestruturas – este é um sector que poderá beneficiar das medidas de Trump, já que este pretende investir cerca de um bilião de dólares em infraestruturas. “As ações de empresas ligadas à construção e engenharia têm registado um bom comportamento com a expectativa de maior despesa pública neste sector. Por outro lado, esta medida poderá levar a um aumento importante do número de empregos”, destacou o especialista.

Defesa – a medida anunciada pelo Presidente dos Estados Unidos de investir este ano cerca de 54 mil milhões de dólares neste sector em particular  “acabou por ter um impacto positivo nas ações de empresas ligadas ao sector da segurança”, revela Camp.

Consumidores – Para o especialista, a redução da taxa de imposto no rendimento das famílias poderá levar “a um aumento do crescimento económico, numa economia em que o consumo representa cerca de 70% do PIB”.

Energia – “Nos últimos anos, o sector energético tem sido uma fonte importante de investimento, que teve como catalisador um aumento da produção de energia – a produção de petróleo nos Estados Unidos duplicou entre 2008 e 2015. Contudo, quando em 2014 os preços do petróleo começaram a baixar, o investimento neste sector caiu abruptamente, sendo que as consequências positivas acabaram ofuscadas, precisamente, por essa redução. Isto teve um impacto negativo não só nas empresas do sector energético, como também no sector industrial”, afirma Camp. Contudo, o apoio anunciado por Trump relativamente à produção de petróleo e gás natural, “bem como a recuperação de projetos anteriormente banidos, como é o caso da construção do Keystone XL Pipeline” poderá ter repercussões bastante positivas para este sector.

Tecnologias da informação – o especialista destaca que “uma abordagem menos rígida relativamente à política de concorrência poderá levar a um aumento das fusões e aquisições no sector”. Contudo, afirma que um dos riscos para o sector é o aumento do protecionismo. Isto é, as políticas de Trump “poderão causar alguns problemas com parceiros comerciais, em particular com a China, o principal parceiro dos Estados Unidos” a este nível.

Não obstante, a abordagem protecionista de Donald Trump é vista por Camp como benéfica para as empresas de pequena capitalização. Estas “reagiram melhor que o S&P 500 à eleição de Trump. Se observarmos o Russel 3000, que é o benchmark para estas empresas, este cresceu cerca de 14% nas semanas posteriores às eleições”. A razão é bastante clara: “estas empresas estão no sweet spot relativamente aos benefícios das políticas de Trump. Estas irão beneficiar mais da desregulação e da redução dos impostos do que as empresas de grande capitalização, isto porque estas empresas tendem a exportar mais do que as anteriores”, diz o especialista.

O contexto atual do mercado

Para Camp, existem dois riscos relacionados com as expectativas geradas em torno da eleição de Donald Trump. “Um deles é que as expetativas não sejam cumpridas. É bastante provável que se observem reduções nos impostos e desregulação; aliás, Trump reverteu algumas das medidas tomadas pelo seu antecessor, tais como medidas ambientais”. Por outro lado, “existe o risco de que as expectativas de impulsionar a economia e, consequentemente, o crescimento do PIB se tornem uma realidade. Isto poderá fazer com que a Fed adote uma postura mais rígida no que diz respeito à sua política”, destacou.

No entanto, a confiança do mercado parece manter-se. “Diz-se que este bull market que começou em 2009 é um dos mais odiados da história, uma vez que não se registaram novas entradas líquidas de dinheiro no global das classes de ativos. Ainda que se tenham observado flows em produtos indexados e ETF, registaram-se outflows significativos de fundos geridos de forma ativa, e ao mesmo tempo biliões de dólares eram colocados em fundos de obrigações. Ainda que os níveis de confiança e de ‘bulishness’ tenham aumentado, o comportamento por parte dos investidores ainda não se alterou. Isto significa que o fenómeno dos ETF veio para ficar, e enquanto não se registar essa alteração de comportamento, acredito que este ciclo ainda não terminou”, conclui Camp. 

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