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Que lições de sucesso empresarial podem aprender os investidores com as FAANG?


A recente carta do CEO da BlackRock, Larry Fink, às empresas participadas pela sua empresa, contribuiu para incentivar o debate sobre até onde as empresas de todo o mundo devem dirigir os seus passos. Fink propunha a estas empresas que devolvessem parte dos seus lucros à sociedade – e a Morningstar respondeu, ao pedir-lhe que baixasse os custos aos participantes da própria BlackRock – mas este não é, obviamente, o único ponto de vista existente na indústria. Por exemplo, da Allianz Global Investors – uma das gestoras que começou precisamente a alterar o seu modelo de cobrança de comissões – o especialista Neil Dwane parte do exemplo estabelecido pelas empresas FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google) para explicar porque motivo se deverá regressar a um foco de longo prazo e mais sustentável no modelo de negócio, que incentive à inovação e investigação.

Dwane explica que as fenomenais taxas de crescimento deste grupo de tecnológicas contribuiram para que os investidores se apaixonassem por elas e por outras empresas cujo modelo de negócio é tecnologicamente disruptivo; esta paixão, que contribuiu significativamente para impulsionar a bolsa norte-americana para máximos históricos, “veio trazer luz depois da tristeza do baixo crescimento e alto endividamento que envolveu grande parte do mundo posterior à crise financeira”, afirma o especialista.

Questiona-se se o sucesso das FAANG “nos está a distrair da necessidade de conduzir o crescimento através da economia global”. Dito de outra forma, questiona se haverá alguma fórmula para que uma empresa alcance o êxito e consiga sustentá-lo a longo prazo. Para Dwane, a resposta deve vir necessariamente de “um modelo de negócio que dê prioridade à visão a longo prazo em vez da engenharia financeira a curto prazo, em que se preserve a missão central das empresas e a sua competitividade, antes de incentivar o sub-investimento”.

O especialista insiste no exemplo das FAANG porque acredita que, de facto, oferecem várias lições positivas que as outras empresas deveriam tomar nota. “Empresas como a Amazon são famosas por priorizar o seu fluxo de caixa operacional em vez dos lucros, para investir em esforços que ajudem a reter uma vantagem competitiva”, ressalva. Dito isto, Dwane apresenta a lista dos erros mais comuns que cometem as empresas que não conseguem melhorar o seu modelo de negócio.

#1 Má alocação de capital

“Pode-se dizer que as taxas de juro zero e negativas prolongaram o excesso de capacidade e evitaram que as empresas bem geridas se aproveitassem para adquirir vantagem sobre outras excessivamente endividadas”. O especialista denuncia que esta injeção de estímulos trouxe como dano colateral a criação de “legiões de bancos zombies e de emissões quase zombies”, ainda que expresse a sua esperança em que “a normalização gradual da política monetária deva encarecer o financiamento das instituições à beira da falência”. Aqui está a primeira lição: “Como investidor é importante manter-se do lado correto deste ajuste”.

#2 Incentivos inadequados

Neste ponto, o especialista refere-se à tendência para a engenharia da contabilidade observada nos últimos anos: em vez de investir sobre o seu próprio capital, muitas empresas optam por recomprar as suas ações, para levantar a sua cotação. “As recompras de ações podem, na realidade, diminuir os retornos a médio prazo, ao reduzir os investimentos que poderiam impulsionar a competitividade”, afirma Dwane.

#3 Orçamento zero para investimentos

“Começar orçamentos do zero a cada ano para justificar os gastos, converte-se com frequência num mero exercício de corte de custos. Por sua vez, isto pode encorajar as empresas a investir menos na estrutura essencial dos seus negócios – especialmente no pessoal – enquanto acentuam em excesso os fluxos de caixa para dar uso aos seus enormes endividamentos”. A conclusão a que chega é que “gerir empresas eficientemente não deve confundir-se nunca com geri-las de forma a obter lucro”.

#4 Uma excessiva alavancagem para impulsionar o crescimento

Alguém deve devolver os altos níveis de dívida do mundo – pois de outra forma arriscamo-nos a entrar em incumprimento – mas “quem suporta esta carga?”, questiona-se o especialista. Não apresenta uma resposta explícita a esta dúvida, prefere aludir a um conflito geracional emergente: enquanto que os babyboomers estão a começar a reformar-se, os millennials continuam a ter problemas para incorporar-se no mercado laboral com bom trabalho e uma habitação a preços acessíveis.

A solução: longo prazo

“O mundo precisa claramente de um novo modelo de negócio que enfatize as decisões tomadas a longo prazo”, declara Neil Dwane. Acrescenta que “o pensamento míope está a levar a que se encurte a vida das empresas” e cita dados de um estudo do Credit Suisse: a vida média de uma empresa cotada no S&P 500 é hoje inferior a 20 anos, enquanto que na década de 1950 alcançava os 60 anos.

“Empresas e governos necessitam de impulsionar o seu compromisso com a análise fundamental para criar o tipo de ajustes sistémicos em inovação que sejam também transformadores em termos sociais, económicos e do meio ambiente”, refere Dwane. Alude a um estudo realizado pela Allianz Global Investors para determinar a origem da queda de produtividade e que concluía que um enfoque na análise e investigação “pode ser a única maneira de escapar à atual situação de baixo crescimento económico”.

O especialista está consciente de que esta afirmação pode parecer um tanto radical, mas afirma que “um ajuste maioritário no pensamento pode ser um feito bem-vindo tanto para o eleitorado como para acionistas”. “Os votantes sabem que as alterações económicas demoram tempo e estão a gritar aos líderes políticos para que tenham uma visão de futuro. A sala de reuniões parece ser o lugar perfeito para começar essa mudança”, sentencia o especialista.

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