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Que implicações para o investidor terá uma mudança no objetivo de inflação do BCE?


Na passada sexta-feira, dia 26 de julho, cumpriram-se sete anos desde que foi pronunciada por Mario Draghi - presidente de saída do BCE - a famosa frase que mudou o rumo dos mercados e provocou um rally no mercado de obrigações. A famosa “I will do whatever it takes to save the euro and believe, it will be enough”. A grande pergunta é: até quando se manterá o contexto de rentabilidades baixas e preços em alta nos mercados de obrigações? Tudo indica que será durante mais alguns anos. E não só porque o BCE e a Fed já confirmaram em várias ocasiões que a política monetária continuará a ser mais acomodatícia durante pelo menos mais um ano, mas também porque é previsível que esse prazo se alargue no tempo se se confirmar a notícia que a Bloomberg publicou recentemente que indica a possibilidade de que o BCE flexibilize o seu objetivo de inflação.

Concretamente, segundo referia a agência de notícias, Draghi seria partidário de modificar o atual objetivo de que a inflação se situe em níveis de 2% ou próxima dos 2% para incluir a possibilidade de que também possa estar ligeiramente acima desses 2%. Ainda que essa nuance possa parecer insignificante, é na realidade muito significativa.

Assim, segundo explicam da Julius Baer, “as taxas de juro atuais permanecem inalteradas” que é o mesmo que dizer no nível “mais baixo”. Isto reforçará as expectativas atuais do mercado de não aumentos de taxas na zona euro durante muito tempo. Os mercados financeiros já preveem que as taxas não vão aumentar por mais quatro anos”, afirma a gestora.

Mas a chave é que, se essa expectativa dos mercados se confirmar, a mudança de objetivo de inflação do BCE pode também manter-se até se a inflação superar os 2%, já que com essa nuance de “above 2%” o banco central assegura a capacidade de manter os estímulos até que a inflação se mantenha durante um curto período de tempo acima desses 2%, com o objetivo de evitar atuar antes de que se confirme esse número de inflação. “Os investidores deduziriam que isto reduz o risco de uma saída prematura do estímulo quando a inflação mostra sinais de retrocesso em direção à meta. Também travaria a reação do mercado nos casos de desacordo hawkish para facilitar as decisões”, apontam na ING. “Não esperamos que se mencione a simetria do objetivo de inflação do BCE, mas este tema poderá ser discutido durante as perguntas e respostas”, afirma François Rimeau, estratega sénior da La Française.

Os investidores estarão atentos a tudo o que possa dizer neste sentido, e não só os grandes mas também o pequeno investidor já que essa mudança no objetivo de inflação implicará a prorroga de baixas rentabilidades em todos os ativos considerados livres de risco como por exemplo a dívida pública de países desenvolvidos, e obviamente, os depósitos. Ao fim e ao cabo, tal como refere Maurice Harari, gestor da SYZ AM “a postura acomodatícia do BCE influenciará a trajetória futura das políticas e tem um efeito considerável nos mercados financeiros (muito mais do que crescimento ou a dinâmica da inflação). Portanto, isto obrigará os participantes do mercado a manter ou incorporar ativos com maior risco para evitar forças monetárias da repressão financeira”.

Faz sentido pensar numa inflação além dos 2%?

Não obstante, o certo é que ainda que o objetivo inicial de toda a artilharia de medidas quantitativas que levou a cabo o BCE desde esse “whatever it takes” era o de gerar inflação, a realidade é que esta não alcançou esse nível devido, segundo referem vários economistas, às pressões deflacionistas provocadas pela tecnologia ou o envelhecimento da população entre outras variáveis. De facto, o organismo reduziu em duas ocasiões este ano as suas perspetivas de inflação para a zona euro e acredita que esta acabará em níveis de 1,5% este ano. Além disso, também diminuiu a sua expectativa a respeito da inflação a cinco anos. Se em dezembro referia que esta se situaria em 1,9%, agora vê-a nos 1,8%.

Isso, não obstante, não implica que em momentos pontuais a inflação não possa superar esse nível e não só por causa do calor desses novos estímulos que o mercado espera que o BCE ponha em cima da mesa, mas também pela subida do petróleo provocado por um aumento dos riscos geopolíticos que atualmente protagonizam o Irão e os EUA.

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