Que impacto tem o risco político sobre os ativos financeiros?


No ano que vem celebrar-se-ão eleições chave na Europa, nomeadamente na Alemanha, França e Holanda. Tendo em conta a sensibilidade crescente dos investidores a eventos de risco político, os estrategas da Amundi Valentine Ainouz e Bastien Drut analisam que impacto podem ter sobre os ativos do sector financeiro.

Em primeiro lugar, a dupla de especialistas percepciona uma mudança de tendência: “Geralmente o mercado não gosta de risco político. No entanto, à luz dos acontecimentos recentes, devemos admitir que os investidores se estão a tornar relativamente insensíveis a estes riscos”. Um bom exemplo desta mudança de atitude são os máximos renovados em Wall Street depois da vitória eleitoral de Donald Trump, ou a reação moderada dos mercados à vitória do “não” no referendo constitucional italiano.

A chave sobre o que devem esperar os investidores na Europa é o debate subjacente sobre o projeto europeu. “A história pode desenvolver-se numa direção diferente caso se lancem dúvidas sobre a coesão da zona euro, nomeadamente se for eleito um partido populista”.  A materializar-se este cenário – que a dupla de especialistas considera pouco provável – “as ações do sector financeiro seriam duramente golpeadas pelo aumento da aversão ao risco”.

Ainouz e Drut acreditam que o BCE poderá responder à escalada de risco político “mediante o aumento do tamanho do seu programa QE”. “Mario Draghi especificou que se as previsões se tornassem menos favoráveis, o Conselho Governativo poderia procurar um aumento maior do tamanho do programa”, acrescentam. Esta reação, no entanto, poderá ser contraproducente, “porque poderá arrastar a rentabilidade dos bancos”.

Um bom exemplo deste sofrimento é que o índice Euro Stoxx Banks perdeu mais de 25% durante os três primeiros trimestres de 2016. “Este mau comportamento pode ser explicado em parte pelo contexto de taxas ultra baixas. A porção do mercado europeu de obrigações que oferecia yields negativas bateu um novo record de 45% em setembro”, explicam os especialistas.

Que bancos podem sair mais prejudicados?

Ao longo de todo o ano, a banca italiana tem estado sob o escrutínio dos investidores devido ao seu alto nível de crédito em mora e empréstimos incobráveis. No entanto, os estrategas da Amundi opinam que “o sistema bancário alemão é particularmente vulnerável neste contexto” (de baixas taxas). Segundo dados da Autoridade Bancária Europeia (EBA, nas siglas em inglês), o ROE da banca alemã foi de apenas 2,6% durante o primeiro trimestre do ano. “Isto converteu o país no terceiro pior na UE, ficando apenas atrás da Grécia e Portugal”, dizem.

Os especialistas indicam que os problemas da banca alemã não são atuais, embora “a baixa rentabilidade já fosse um problema muito anterior à crise financeira”, e atribuem-na à própria estrutura do sector. “A abundância de bancos de poupança e bancos cooperativos fazem com que a Alemanha tenha o sistema bancário mais fragmentado dentro da zona euro. Em 2014, os cinco bancos de maior tamanho tinham apenas 32% dos ativos totais no sistema”, indicam.

Os estrategas apontam duas consequências desta grande fragmentação: “1) O contexto é altamente competitivo e arrasta as margens para um caminho de queda sobre empréstimos ao consumo e empresas. 2) Há um elevado custo de estrutura. De acordo com o BCE, existia um empregado bancário por cada 166 pessoas na zona euro em 2014, comparativamente com a proporção de um por cada 127 pessoas na Alemanha”.

Segundo os representantes da Amudi, “as taxas negativas têm vindo a exacerbar esta situação”. De acordo com os analistas do Deustsche Bank que citam no estudo, os -0,4% do BCE sobre os depósitos custará ao sistema bancário alemão 787 milhões de euros durante este ano.

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