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PSI- “anything”


“Pressão turística no Porto e Lisboa superior a Londres”, “Afinal, o que é que Lisboa tem?”, “A nova loucura das casas”, “Valor das casas atinge novo máximo desde o verão de 2010”, “Tech stocks shine”… tudo isto são títulos recentes de jornais, nacionais e internacionais, que espelham as dinâmicas da economia nacional e dos mercados financeiros internacionais no passado recente.

É do conhecimento de todos que temos vivido tempos extremamente positivos no que diz respeito à evolução dos ativos de risco e que, mais recentemente, as economias globais têm também dado sinais de crescimento sincronizado, suportando o posicionamento dos investidores. No entanto, o que realmente tem potenciado o aumento do risco tomado pelos agentes económicos têm sido as políticas monetárias extremamente expansionistas da generalidade dos bancos centrais do mundo desenvolvido, cujas consequências genéricas, ao nível dos ativos financeiros, têm sido a queda sustentada das taxas de juro dos governos, a contração dos spreads de crédito e o repricing dos níveis de avaliação dos mercados acionistas. Por outro lado, ao nível dos ativos reais, esta constante procura por rendimento tem também consequências significativas, em particular no mercado imobiliário.

Passando agora para a esfera nacional, as taxas de juro do governo, reais e nominais, estão novamente em mínimos dos últimos 5 anos, os spreads de crédito suportados pelos emitentes nacionais estão também em mínimos dos últimos 5 anos, os preços dos imóveis residenciais estão em máximos desde 2010, tal como foi referido nos títulos de jornais do início deste comentário, e as yields implícitas no imobiliário comercial estão em mínimos desde 2007, de acordo com a CBRE, seria de esperar que, tal como acontece na generalidade dos demais mercados europeus, o mercado acionista estivesse em máximos dos últimos 5 anos…. Infelizmente, a realidade é que o principal índice do mercado acionista nacional, o PSI-20, se encontra cerca de 20% abaixo do máximo atingido em 2014, incluindo os dividendos pagos pelas empresas que o compõem.

Foi precisamente sobre esta disparidade de rentabilidade entre o mercado acionista nacional e, não só os demais mercados acionistas europeus, como também os restantes ativos financeiros nacionais, que tentámos elaborar um pouco mais, assumindo que este simples facto pode ser encarado como uma oportunidade de investimento ou um reality check para o mercado português.

No sentido de tentar dar uma resposta é importante descrever brevemente o nosso índice de referência. O PSI-20 é, e sempre foi, um índice altamente concentrado em meia dúzia de grandes empresas nacionais, historicamente com um forte enviesamento para o setor financeiro, característica comum aos demais mercados do Sul da Europa. Esta falta de diversidade, quer em termos individuais quer do ponto de vista de exposição setorial, parece-me ser uma consequência de um conjunto alargado de fatores, que passo a enumerar:

  • Riscos idiossincráticos que ditaram o desaparecimento, ou total perda de relevo, de um conjunto de empresas que foram bastante relevantes na história recente do mercado acionista nacional, em particular o BES, a Portugal Telecom e o Banif;
  • Movimentos de consolidação potenciados pela liquidez abundante que tiveram como consequência o delisting de alguns nomes relevantes e que garantiam uma diversificação adicional ao nosso mercado, de onde destaco a Cimpor, a Brisa, BPI e a Luz Saúde;
  • Reduzido free float de alguns nomes de menor dimensão que ditaram a saída de mercado no seguimento de compras adicionais por parte dos seus acionistas de referência, movimento que poderá continuar, sendo mais claro em nomes como a Sumol-Compal, a SonaeCom e a SAG, mas também num nome relevante no mercado como a EDP Renováveis;
  • Dinâmicas específicas do nosso tecido empresarial, que não entende o mercado acionista como uma fonte de financiamento, não perceciona de forma positiva o facto de ter de abrir a sua base de capital a outros acionistas e, muitas vezes, não tem escala para fazer face às exigências regulamentares de uma empresa “pública”;

Outros agentes económicos, além das empresas e seus principais acionistas, têm também a sua quota-parte de responsabilidade, em particular os investidores profissionais nacionais, ao menosprezarem o potencial do nosso mercado e, em muitos casos, “riscarem” na totalidade a exposição a este mercado das suas alocações potenciais; os reguladores, ao não facilitarem processos de ofertas públicas a empresas de menor dimensão não se adequando ao mercado concreto que regulam; os governos, por não incentivarem as empresas a vir para o mercado, em particular por não legislarem de forma mais célere no sentido de enquadrar determinadas temáticas, como o caso dos REITs, realidade que se mostrou um sucesso em Espanha no passado recente.

Todos estes fatores têm contribuído para que o mercado acionista nacional não seja considerado um mercado relevante para os investidores internacionais, não conseguindo captar novo investimento de forma sustentada. Esta realidade fica bem clara quando comparamos os números de Portugal e Espanha no que diz respeito a novo dinheiro captado para o mercado, em particular através de IPOs.

Desde o início de 2013, 30 novas empresas vieram para o mercado em Espanha, tendo sido levantados cerca de 20MM€, de onde se destacam os setores industriais e imobiliário – em particular 4 novos REITs. Adicionalmente, a rentabilidade agregada destes novos nomes, ponderada pela capitalização e desde os respetivos listings, foi de cerca de +37%. No caso português, foram realizados apenas 2 IPOs no referido período, em particular os CTT e a Luz Saúde, tendo sido levantados apenas 600M€, ou 33x menos que no caso espanhol! Apesar de um destes nomes já ter saído de mercado no seguimento de uma oferta de aquisição, que permitiu um ganho superior a 50% a quem participou na oferta inicial, a rentabilidade agregada, utilizando os mesmo pressupostos acima referidos, foi de -5%...

Parece-me urgente estancar este processo de delapidação da base do mercado acionista nacional, incentivando novas empresas a vir para o mercado na tentativa de captar novo investimento, enquanto a abundância de liquidez global é uma realidade. As atuais dinâmicas da economia nacional, em particular no que diz respeito ao turismo – visíveis nos títulos de jornais já referidos -, podem servir de alavanca para que este processo seja iniciado, apostando precisamente em setores de atividade diretamente relacionados com esta temática, hoje em dia sub-representados no nosso índice de referência.

Adicionalmente, apesar de reconhecer que o mercado é cada vez mais global, parece-me relevante tentar adequar a atuação sobre o mercado às suas especificidades, em particular os reguladores e legisladores, no sentido de facilitar e incentivar o processo de abertura de capital a empresas de média dimensão, bem como promover o acompanhamento destas empresas e suas equipas de gestão na fase inicial da sua entrada em mercado. Esta componente da dimensão parece-me relevante, pois é uma realidade difícil de alterar por não haver forma de contornar o facto de sermos um país envelhecido e de reduzida dimensão, sendo inevitável que o mercado alvo inicial de uma empresa nacional é mais reduzido do que o da grande maioria das restantes empresas semelhantes por esse mundo fora.

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