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Principais diferenças entre a indústria americana de fundos e a europeia: o que se pode melhorar?


“O sector de gestão de ativos pode ter um papel importante para as famílias, ajudando a cumprir os seus objetivos de aforro e investimento. Como todos sabemos, os retornos dos depósitos bancários estão extremamente baixos, e as famílias somente podem obter um retorno razoável nos seus investimentos de longo prazo se investirem no mercado de capitais”. Estas palavras são de Steven Maijoor, presidente da ESMA (European Securities and Markets Authority). Maijoor discursou recentemente no contexto do fórum de investimentos organizado pela EFAMA (European Fund and Asset Management Association), na qual falou dos desafios que enfrenta a indústria europeia de fundos. A ideia central do seu discurso condensa-se, talvez, nestas declarações: “É evidente que a eficiência do sector de gestão de ativos terá um grande impacto potencial no que se pode conseguir para os investidores”.

Maijoor centrou-se na questão da eficiência, comparando as características que definem a indústria norte-americana de fundos com as que definem a indústria europeia. “Como todos sabemos, a nossa indústria de fundos reflete inevitavelmente as características muito específicas da UE”, explicou o presidente da ESMA, não querendo destacar as qualidades norte-americanas, mas sim apresentá-las como um espelho onde os profissionais europeus se podem ver, pois considera que “os dados mostram oportunidades para a indústria europeia de fundos ter um papel mais amplo no sistema financeiro, para o benefício tanto dos consumidores de retalho como da própria indústria de fundos”.

EUA vs UE

Maijoor indica em primeiro lugar a enorme diferença no número de participantes em relação com a população total: enquanto a UE dispõe de 510 milhões de habitantes – quase 60% mais que os EUA – o património total em fundos é claramente inferior, 8 biliões de euros em formato UCITS, que compara com cerca de 16 biliões do equivalente americano.

Para o representante da ESMA, esta diferença tem duas consequências importantes. A primeira, que “a nível agregado, uma quantidade superior dos ativos totais em fundos de investimento representa mais investimento para as empresas, apoiando o crescimento económico e, portanto, melhorando a nossa qualidade de vida”. A segunda, que “quanto maior for o tamanho de um fundo de investimento, mais se pode beneficiar de economias de escala, melhorando os retornos para os investidores que querem poupar para cumprir os seus objetivos de longo prazo”.

Perante estes dados, o especialista pergunta-se porque o sector europeu de fundos é ainda relativamente mais pequeno, apesar do forte crescimento registado na última década. “Em primeiro lugar, a taxa de participação na Europa é significativamente mais baixa. Apenas 11% das famílias da UE investem em fundos. A proporção nos EUA é quase quatro vezes superior, na ordem dos 43%”, responde. Segundo Maijoor, a diferença torna-se mais significativa se se tiver em consideração o facto de que a riqueza média das famílias na zona euro é de 110.000 euros, quase o dobro dos EUA, o que interpreta como que muitos “cidadãos europeus têm meios para investir em fundos, mas escolhem não o fazer”.

Uma questão de preços

O representante da ESMA considera que a segunda razão que pode explicar porque investem mais pessoas em fundos nos EUA é porque “os custos dos fundos europeus são muito mais elevados do que os seus equivalentes norte-americanos”. No entanto, há que ter em consideração que cerca de 30% dos ativos sob gestão nos EUA estão em veículos de gestão passiva, o que compara com 7% no segmento UCITS. “Mas mesmo tendo em consideração essa diferença, os fundos americanos são significativamente mais baratos”, denuncia Maijoor: aos números em que se baseia apontam para uma comissão média de 145 pontos base para fundos ativos com formato UCITS, em comparação com os 84 pontos base na média dos EUA. A diferença também se constata entre os fundos passivos: que cobram uma média de 35 pontos base em comissões na UE, em comparação com 11 pontos base nos EUA.

O especialista acredita que uma explicação para esta diferença de custos reside na menor economia de escala dos fundos europeus: “Os fundos ativos americanos têm um tamanho cerca de cinco vezes maior que os seus concorrentes europeus, enquanto que o fundo passivo médio nos EUA é de 10 a 12 vezes superior”. A distribuição de fundos também pode contribuir para a diferença de custos: “Na Europa, a rede de distribuição é dominada em grande parte pelos bancos e os custos dessa rede incrementam os custos dos fundos. Em contraste, a maioria dos fundos nos EUA são vendidos fora do sector bancário”.

Maijoor insiste na importância destas diferenças, considerando que “no atual contexto de taxas reduzidas, no qual é difícil conseguir retornos decentes nos investimentos, a evolução dos custos é provavelmente um dos critérios mais importantes para tomar a decisão de investimento”. Nesta comparação com os EUA, o especialista conclui que “há muita margem para fazer com que os fundos de investimento europeus sejam mais eficientes e menos caros para o investidor médio”, e acrescenta que este factor poderá ir de mão dada com um “papel mais importante do sector de gestão de ativos dentro do sistema financeiros”.

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