Primeiras reações ao programa de compras PEPP do BCE


À segunda (parece) que é de vez. O Banco Central Europeu lançou ontem perto da meia-noite, um segundo pacote de estímulos. Um novo programa temporário de aquisição de ativos tanto públicos como privados com uma dotação de 750.000 milhões de euros e que receberá o nome de Programa de Aquisições de Emergência para Casos de Pandemia (Pandemic Emergency Purchase Programme; PEPP). Depois de a presidente do BCE ter assustado os investidores ao declarar que “não estamos aqui para conter os spreads de dívida”, Lagarde mudou de tom. “Não há limites para o nosso compromisso com o euro”, é a frase que destaca Esty Dwek, da Natixis IM.

É a segunda mão que a entidade monetária estende ao mercado para lutar contra o impacto económico do coronavírus. Apesar das gestoras lamentarem que a primeira mensagem de Christine Lagarde tivesse sido morna (ou até um desastre, conforme a quem perguntar), agora as entidades gestoras estrangeiras avaliam positivamente o movimento. Sebastien Galy, estratega sénior de estratégia macroeconómica da Nordea AM, classifica-o como impressionante. Frank Haüler, estratega chefe da Vontobel AM, coincide: “O programa que o BCE anunciou na noite passada é de grande envergadura e mais flexível quanto à sua implementação. É isto que é preciso”. A julgar pelos movimentos das obrigações espanholas e italianas a 10 anos, por exemplo, seguramente teve um efeito tranquilizador nas obrigações governamentais. “Veremos se terá um efeito duradouro nos spreads de dívida corporativa”, pergunta-se.

O ponto-chave é que ataca diretamente onde mais é preciso. Desde há umas sessões o comportamento das obrigações governamentais europeias preocupava. O prémio de risco dos periféricos como Espanha e Itália foi escalando nos últimos dias. Uma correção nas bolsas é uma reação normal já que são ativos de risco, mas não na dívida do país, tradicionalmente um refúgio. Isto agora está a reverter-se após o anúncio do BCE. “A contundência deste programa é principalmente uma resposta ao aumento das yields de dívida soberana na zona euro e, em particular uma resposta ao aumento dos spreads da periferia”, explica Paul Diggle, economista sénior da Aberdeen Standard Investments.

O programa de compras já se viu durante a crise financeira, mas agora os países beneficiários são mais. Como assinala Frederik Ducrozet, economista sénior da Pictet Asset Management, o BCE nunca tinha comprado obrigações gregas sob o seu QE. Até agora. “Há 50.000 milhões de euros que podiam ter sido comprados e que o BCE poderá agora adquirir em teoria”, refere.

Pode ser uma medida que passe despercebida nas bolsas, mas o seu efeito já está a ser sentido nas obrigações. Tal como prevê Galy, será muito bem recebida nos mercados de obrigações gregas e italianas. “À medida que as yields finalmente estabilizarem e com o tempo diminuírem, deverá ajudar os bancos expostos, mas a simples queda da volatilidade deverá ajudar muito. O problema é se o risco creditício absorver o suficiente. Isto é, se recair nos mais necessitados, naqueles países sem o equilíbrio fiscal para absorver o choque. Itália está numa pior posição em comparação com a Grécia até mudarem a natureza do programa”, explica o especialista da Nordea AM.

“A lógica deste programa é simples. Os Estados vão gastar enormes quantidades de dinheiro para compensar os efeitos negativos que a epidemia terá na atividade. Ao mesmo tempo, as taxas de juro deverão permanecer baixas para evitar um choque financeiro tanto para o orçamento de estado como para o das empresas”, explica Philippe Waetcher, economista chefe da Ostrum (Natixis IM).

Podemos ainda não ter visto o fim. Diggle, por exemplo, não descarta medidas ainda maiores do BCE nas próximas semanas e meses, incluindo o trabalho com o Mecanismo Europeu de Estabilidade para proporcionar um apoio fiscal essencialmente monetizado, e até ancorar a rentabilidade das obrigações soberanas e dos spreads em todo o bloco. Mais medidas, sim, mas dentro de limites. Haüler não vê o BCE a comprar ações, nem a Fed a comprar obrigações corporativas.

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