Previsões macro das gestoras (I): O que esperar da economia em 2019?


Chega ao fim mais um ano complicado para o investidor em que a economia e a geopolítica recuperaram a sua influência nos mercados. Com os bancos centrais a iniciar a sua retirada de estímulos, o estado do crescimento mundial e, consequentemente, os lucros empresariais assumem maior relevância. Por isso, nesta série de dois artigos, as gestoras internacionais partilham as suas previsões macroeconómicas para 2019.

Allianz Global Investors

Neil Dwane, Estratégista Global, Allianz Global Investors

Neil_Dwane_foto_mais_recenteAcreditamos que uma economia global divergente e uma agitação política cada vez maiores estão a contribuir para o aumento da volatilidade do mercado e para reforçar a necessidade de ser ativo e seletivo. Temas de investimentos a longo prazo incluem o crescimento da Inteligência Artificial, o aumento da expansão da influência da China na Ásia e o potencial para o ESG melhorar a performance de investimento.

À medida que a economia se torna menos sincronizada e mais divergente, os investidores devem ambicionar ser mais ativos e seletivos. A economia dos EUA vai, provavelmente, abrandar após os efeitos dos cortes nos impostos que o Presidente Trump vai levar a cabo, mas um Congresso dividido pode não alterar significativamente a sua política económica; ainda não é esperada recessão nos EUA.  As preocupações em relação ao Brexit e a direção das políticas europeias podem reduzir os níveis de confiança e alimentar a incerteza do mercado na Europa. A China continuará a mudar a sua economia em direção a uma economia impulsionada pelo consumo e pelos serviços, mas pode ser dificultada pelas fricções do “trading” e da emergente “guerra fria tecnológica” com os EUA. Com o QE a fixar erradamente os preços de vários ativos, a diversificação por si só pode não ser suficiente.

As taxas de juro mais elevadas nos EUA - e o menor alívio quantitativo da Reserva Federal e do Banco Central Europeu – vão, possivelmente, reduzir a liquidez e criar maior volatilidade de mercado para os investidores em 2019. Já que para navegar com sucesso nos mercados podem ser necessárias mais qualificações, acreditamos que os investidores devem considerar ativamente selecionar onde investir em vez de aceitar passivamente os retornos do mercado – apesar de não haver garantia de que a estratégia será bem sucedida.

A economia global – que se tem saído bem – provavelmente vai tornar-se ainda menos sincronizada e mais fragmentada. Isto vai continuar uma tendência que começou a sério em 2018 já que os retornos de mercado foram negativos. As tensões comerciais e a incerteza política serão os entraves ao desempenho enquanto os preços do petróleo e os mercados de trabalho restritos nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha e no Japão podem fomentar receios de subida das taxas de juro e da inflação.

Amundi Asset Management

Vincent Mortier, diretor adjunto de investimentos da Amundi:

121536fa20978213O nosso cenário base parte de 3 transições: 1. Da aceleração económica à desaceleração com maiores divergências. 2. Da abundante liquidez dos Bancos Centrais à maior normalização e contração da mesma. 3. Do ruído político ao domínio da política (disputas comerciais e eleições no Parlamento Europeu em maio). Com estas premissas, as obrigações americanas mantêm-se favorecidas em 2019, ainda que a predominância vista em 2018 se vá desvanecendo ao convergir o crescimento de lucros das principais economias.

Em contrapartida, acreditamos que o “repricing” da “grande periferia” (emergentes e Europa) visto na segunda metade de 2018 irá abrir oportunidades para diversificar a exposição ao risco a preços razoáveis numa posição globalmente neutra a prudente nos ativos de risco. A Fed terá um papel central em estabilizar os mercados emergentes: se como prevemos se finalizar o ciclo de endurecimento no meio de uma desaceleração americana, isto aliviará a estes mercados que oferecem um “carry” atrativo. Terminando o “reflation trade” impulsionado pelo excesso de liquidez, os investidores teriam de baixar as suas expectativas de rentabilidade.

Na Europa, o panorama permanece mais nebulado e carece do motor do fixed income ao manter as taxas muito baixas. Aqui, podem procurar oportunidades de “credit continuum” (incluindo veículos líquidos e não líquidos) e adicionar fontes descorrelacionadas de retornos. Acreditamos que 2019 será o ano de nos focarmos nos fundamentais para encontrar retornos.

BlackRock

André Themudo, responsável de negócio da BlackRock em Portugal. 

André ThemudoNa BlackRock, o nosso cenário central é que tanto as obrigações como as ações entregarão retornos positivos, ainda que moderados em 2019 após um ano de 2018 atípico com quedas em ambas as classes de ativos. Os fatores que afetaram de maneira negativa os mercados durante este último ano foram fundamentalmente a incerteza económica, as tensões comerciais e condições financeiras mais restritivas.

Vemos que em 2019 vai haver uma desaceleração no crescimento económico global e nos lucros empresariais, ainda que outorguemos uma possibilidade baixa de que haja uma recessão a curto e médio prazo.

Por outro lado, a Fed não vai continuar a subir as taxas trimestralmente como vimos até agora e cada vez menos será previsível já que a sua política monetária atual está próxima de ser considerada neutra.

Recomendamos aos nossos clientes que construam carteiras mais resilientes seguindo uma estratégia Barbell ou de extremos. Dedicando a parte central da carteira a ativos conservadores, defensivos e de grande qualidade, complementando com investimentos noutros ativos nos que a recompensa justifique o risco assumido. Continuamos a ter preferência por ações e acreditamos que as obrigações soberanas terão um papel fundamental no processo de construção de carteira como estratégia defensiva perante momentos de volatilidade.

BNY Mellon Investment Management

Shamik Dhar, economista chefe do BNY Mellon IM:

A inflação, as guerras comerciais e dívida em euros são algumas das dificuldades que a economia mundial deverá enfrentar em 2019, o que não implica que as perspetivas globais sejam, necessariamente, negativas.

Outros fatores que podem debilitar a economia em 2019 incluem condições financeiras mais restritivas, a desaceleração do crescimento europeu, os problemas idiossincrásicos de alguns países emergentes, as consequências negativas da apreciação do dólar e as tensões comerciais.

A pergunta que os investidores devem fazer a si mesmos no momento de fazer as suas alocações em 2019 é se os fundamentais são suficientemente robustos para garantir a estabilidade dos mercados mundiais e se os preços dos ativos já descontam fundamentais mais sólidos, ainda que mais débeis, assim como os riscos que ameaçam as perspetivas mundiais.

No ano que vem, acreditamos que o ambiente de investimento continuará a ser relativamente favorável. O crescimento mundial continua positivo para as economias desenvolvidas, se bem que a maioria dos países vão crescer a um ritmo mais lento que em 2017 e 2018. Ainda que na China e Europa o crescimento continue a abrandar, os EUA atuarão como consumidor de último recurso, impulsionando a economia mundial.

Columbia Threadneedle Investments

Mark Burgess, Vice-diretor Global de Investimentos e Diretor de Investimentos para EMEA

IMG_5345Esperamos um crescimento modesto no mundo todo. Isto permitirá que as empresas continuem a gerar lucros saudáveis e a apoiar o crescimento, o que beneficiará, seguramente, os proprietários de ações mais do que os detentores de obrigações. Atualmente, as avaliações encontram-se em níveis razoáveis, por isso, em 2019 provavelmente vamos observar uma continuação do bom ambiente de 2018, em igualdade com outros fatores.

Ainda que o crescimento nos EUA modere em 2019 à medida que o impacto dos estímulos fiscais se desvanece e a Fed suba as taxas em conformidade com as expetativas do mercado (mantendo a inflação controlada), prevemos que o bom crescimento económico registado na Europa irá persistir no próximo ano.

A subida das taxas de juro poderá constituir um encargo tanto para as ações como para o crédito ao gerar rentabilidades negativas por duração no crédito e danificar as ações pela procura de rendimentos em ativos de menor risco. Dito isto, no início de 2019 continuamos a preferir as ações (assim como, as “commodities” e os imóveis comerciais) em vez de crédito, ainda que continuemos a manter uma postura bastante neutra no que diz respeito à apetência pelo risco.

Conservamos uma atitude positiva a respeito das ações da Europa, da Ásia e, em particular, do Japão dentro desta favorável atribuição a esta classe de ativos em linha gerais.

Consideramos que os mercados de dívida dos países centrais são interessantes como já não eram há bastante tempo. As valorizações de crédito parecem situar-se dentro da média; embora as yields da dívida dos países centrais tenha tido um ligeiro aumento, as yields absolutas das obrigações constituem um maior atrativo.

Fidelity International

Eugene Philalithis, gestor do FF global Multi Asset Income Fund:

ae210425e5a05eb0A flexibilização quantitativa foi o único compasso que soou durante uma década, mas a música está a mudar. Neste ambiente, esperamos que o crescimento dos lucros empresariais nos EUA abrande em 2019, mas que continue a ser positivos em torno dos 8-9%. Entretanto, os níveis elevados de dívida e os aumentos graduais das taxas de juro são os maiores riscos para as bolsas, especialmente em Itália e na China.

Nas obrigações, a maré que elevou todos os barcos retira-se e a redução das injeções de liquidez está a mudar a sua dinâmica: a qualidade e a seleção de títulos serão a chave para obter lucros. E quando o ciclo de subidas de taxas da Fed fizer uma pausa em 2019, o rendimento das obrigações do Tesouro a 10 anos deverá situar-se em torno dos 3%, dando à dívida dos mercados emergentes, espaço para respirar.

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