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Preocupações de um economista antes das férias


Antes das férias, vou focar alguns aspetos que me preocupam. O primeiro aspeto é o PIB, que provavelmente não irá crescer 1% em 2016, o que é um problema e revela bem que a aposta no consumo privado e no aumento significativo do crédito ao consumo, por si só, não fazem milagres. Aliás, o défice externo quadruplicou nos primeiros cinco meses de 2016 face ao mesmo período de 2015.

O segundo aspeto, e que revela bem as dificuldades do setor financeiro português (no dia 29/7 vamos saber os resultados dos testes de stress) é o crédito vencido. Até o BCE recomendou no dia 21/7 que parte da carteira de crédito vencido fosse vendida.

De acordo com os últimos dados divulgados pelo Banco de Portugal, o rácio de NPL (non-performing loan ratio) subiu de 9,08%, em abril, para 9,22% em maio. Enquanto que no segmento das famílias, parece haver uma estabilização em redor dos 4,32% (4,45% em maio de 2015), o segmento de empresas continua a preocupar bastante, uma vez que o rácio NPL estava em 16,5% em maio (15,7% um ano antes).

O terceiro aspeto que me preocupa é a recente evolução do spread entre a dívida pública portuguesa e a homóloga alemã. Em 22 de julho de 2016, a yield das obrigações de dívida pública portuguesa estava em 3,03% enquanto que a yield das obrigações alemãs estava em -0,01%, ou seja, um diferencial de 304 pontos base ou 3,04%. Em fevereiro de 2015 este spread estava em 175 pontos base ou 1,75% (na altura o valor mais baixo desde maio de 2010) e no final de 2015 estava em 200 pontos base ou 2%.

Mesmo que alguns responsáveis deste país continuem em negação e não queiram ver o óbvio, a perceção de risco do nosso país está a deteriorar-se gradualmente e só não é mais rápida porque existe o salvador BCE, que continua a comprar “contentores” de dívida e a injetar muita liquidez no sistema. A bolha da dívida pública continua a desenvolver-se: basta olhar para as yields negativas da dívida pública alemã.

O quarto aspeto que me preocupa é que Portugal teve recentemente a pior performance da zona euro em termos de produção industrial, mas é o país com a inflação mais elevada (0,7% em junho contra 0,1% da zona euro). Apesar de o valor da inflação ser reduzido, é “curioso” estarmos a ter mais inflação quando estamos a crescer bastante abaixo do valor médio dos países da zona euro.

O quinto aspeto é a banca nacional, Novo Banco e CGD. Quando um alto responsável anuncia um cenário de liquidação de um banco, caso a venda não se concretize num determinado período, o impacto na redução do seu valor e, consequentemente, na redução do preço de compra que um potencial comprador possa oferecer é imediato. É incrível como se dão tantos “tiros nos pés” neste país! O impasse na CGD já está a causar problemas à economia. Tanto tempo para escolher uma equipa de gestão e tudo a assobiar para o lado, não querendo ser responsabilizado. É o costume!...

Há ainda mais vertentes de preocupação, mas é melhor ficar por aqui, pois se continuo a escrever ainda começo as férias traumatizado. Desejo a todos uma ótimas férias, descansadas e divertidas.

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