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Portugal Telecom (PT): um claro exemplo antecipado de destruição de valor


Prognósticos só no fim do jogo”, a célebre frase de um grande capitão do meu FCP, não se aplica à PT. Neste caso, as más decisões estratégias ao longo dos anos foram sempre um pronúncio do que poderia acontecer de mal. Quem hoje diz que o melhor afinal era a OPA do grupo Sonae ter resultado, deveriam ter pensado nisso quando andaram a reunir tropas para a chumbar. Na altura da OPA, a PT chegou a valer cerca de 10,40 euros, quando hoje, vale menos de 1 euro por acção (com um mínimo histórico de 0,865 euros no dia 20/10).

Os principais erros de política financeira que tenho referido há anos aos meus alunos começam em finais de 2006. Estávamos em plena OPA do grupo Sonae à PT a um preço de 9,5 euros por acção. Mais tarde, o grupo Sonae reforçou a oferta com o anúncio de uma política agressiva de pagamento de dividendos. A administração da PT apoiada por accionistas liderados por um banco, por um grupo que hoje está insolvente e por uma golden share do Estado, conseguiu chumbar a OPA.

A defesa da OPA baseou-se em dividendos agressivos, na compra de acções próprias e no spin-off da PT Multimédia. Desde 2006, o custo destas operações ascendeu a cerca de 9,5 mil milhões de euros. Esta foi a primeira decisão estratégica errada. Face à forte concorrência, aos investimentos na rede de fibra óptica e no Brasil, a PT não deveria ter seguido o caminho de uma política agressiva de dividendos, pois tal repercutiu-se no aumento da dívida financeira e na diminuição de resultados. Foi o que aconteceu: trocar expectativas de m/l prazo de criação do valor por expectativas de curto prazo de remuneração raramente resulta bem para os accionistas.

A segunda decisão errada e esta com custos mais visíveis para os accionistas, foi a venda da posição na Vivo e o investimento de quase 50% do encaixe na compra de uma posição na Oi. Alguém consegue compreender a troca de um topo de gama por um “velho” utilitário a precisar de uma revisão completa? Só em casos de grandes dificuldades de liquidez, o que não era o caso.

A Oi era e é uma empresa fortemente endividada e tecnologicamente aquém dos melhores. O desejado turnaround da empresa até pode ser entendido mas alguém se esqueceu que o ambiente concorrencial no sector das telecomunicações no Brasil é muito diferente do tempo da compra da Telesp Celular. Ou seja, os resultados dessa estratégia nunca seriam visíveis no mesmo curto espaço de tempo como foram os resultados da Telesp Celular e mais tarde da Vivo.

A terceira má decisão foi o financiamento de um grupo em doses completamente irracionais do ponto de vista das finanças empresariais. A PT até poderia ter realizado aplicações de tesouraria em papel do GES, mas ter investido 900 milhões de euros (50% do valor da capitalização bolsista quando o facto veio a público) é no mínimo um erro grosseiro. Porque é que se ensina nos cursos de gestão a teoria da diversificação de riscos? Entre outras questões, para se evitarem estes tristes episódios.

Se as acções da PT já desciam há meses, este problema decretou o fim do sucesso estratégico desta empresa portuguesa que deu tantos prémios internacionais aos seus gestores. O que dirão hoje os responsáveis das publicações que deram esses prémios?

E agora? Alguns querem que o Estado ajude a resolver os erros de gestão de uma empresa privada para a salvar de ir parar a mãos estrangeiras. Mas a PT já não está em mãos estrangeiras? Outros pedem ajuda aos grupos nacionais para comprar de volta a PT. Onde é que os grupos nacionais têm capital, onde é que têm capacidade de endividamento para um negócio destes e onde é que o sistema financeiro está em condições de o financiar?

O futuro da PT já não passa pelos tão badalados mas pouco efectivos centros de decisão nacionais, pois a decisão pertence à Oi, a meu ver, mais interessada na aproximação a players de maior dimensão que lhe garantam um papel relevante no mercado de telecomunicações brasileiro ou que evitem até a sua compra por terceiros.

É triste ver uma empresa / marca como a PT que foi referência de analistas e gestores de activos nacionais e internacionais e que hoje está a definhar. Quanto ao grupo Sonae, não comprou a PT e não se endividou com essa operação. Contudo, mantém-se no sector das telecomunicações com objectivos assentes numa estratégia racional. Será que é caso para dizer: ri melhor quem ri por último?

Nota de rodapé: um crescimento estimado do PIB em 2015 de 1,5% no Orçamento de Estado é nesta altura uma previsão bastante optimista, tendo em conta o actual enquadramento macroeconómico externo. Oxalá esteja enganado!

 

Carlos Bastardo

 

(Imagem: Tiagø Ribeiro, Flickr, Creative Commons)

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