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Porquê sobreponderar ações europeias: desafios e oportunidades


Tendo em conta os abundantes desafios que enfrenta a zona euro este novo ano, várias gestoras internacionais têm indicado que as ações europeias se apresentam como uma das áreas com maior número de oportunidades para gerar rentabilidade nos próximos 12 meses.

Comecemos pelos desafios. “A resiliência do consumidor será posta à prova pela subida do preço do petróleo, as taxas de juro em alta e uma série de eventos políticos”, indica Raphaël Gallardo, estratega especializado em multiativos da Natixis Global AM. Este especifica que será necessário prestar atenção aos inquéritos sobre a confiança empresarial e do consumidor e sobre as exportações (recuperação das ordens de exportação industriais, debilidade do euro).

A postura da Natixis Global AM é positiva relativamente ao mercado, “pelo menos para a primeira metade de 2017”, clarifica Gallardo. A entidade sobrepondera as ações da zona euro porque observa por um lado que as valorizações estão próximas da neutralidade, e por outro que “as ações estão determinadas a bater em rentabilidade as obrigações”.

Também são construtivos os analistas da NN Investment Partners, que consideram que a economia da zona euro vai encarar este período de incerteza “sobre bases relativamente estáveis”. Assinalam que, embora seja certo que o PIB esteja apenas ligeiramente acima do registado em 2008, no entanto, “em termos de crescimento económico e mudanças marginais nas condições financeiras, há várias razões para se ser positivo”. A principal, na sua opinião, é que “o crescimento económico está apoiado num sólido incremento subjacente da procura doméstica”. Adicionalmente, observam que “o canal de crédito continua a abrir-se, com uma tendência em expansão tanto da oferta como da procura”.

Como estão os fundamentais?

Rory Bateman, responsável de ações do Reino Unido e da Europa, na Schroders, recorda que, para além da ida às urnas dos cidadãos franceses, alemães e holandeses, terão este ano, “as negociações do Reino Unido em torno do Brexit, que serão seguidas com atenção”. O gestor afirma que o Brexit “é principalmente uma questão que afecta o Reino Unido, e não acreditamos que tenha um efeito negativo considerável nas empresas da Europa Continental”, pelo que conclui, em tom tranquilizante, que “a recuperação económica europeia avança com passos lentos mas seguros, e não prevemos que o Brexit traga obstáculos”.

À margem da influência de factores macro, o gestor destaca os fundamentais da classe de ativos, começando pelas valorizações: “Na nossa opinião, as ações europeias estão atrativas do ponto de vista das valorizações. O PER ajustado ciclicamente atualmente é de 14 vezes, face à média dos últimos 30 anos, de 20 vezes. Por tanto, parece-nos que a Europa é interessante em relação à sua própria trajetória e em comparação com os mercados bolsistas de outras regiões”.

Adicionalmente, Bateman afirma que “em 2017 poderá registar-se um aumento dos lucros empresariais na Europa com o ritmo mais elevado dos últimos cinco anos”. A primeira razão que acrescenta para justificar esta previsão é que “as yields das obrigações apontam para um aumento das previsões da inflação, o que geralmente é positivo para a recuperação dos lucros”. Neste sentido, indica que no último trimestre se têm visto revisões em alta sobre os lucros dos sectores energético, químico e de matérias primas, “à medida que se torna mais fácil estabelecer comparações interanuais e à medida que melhoram os preços subjacentes das matérias primas”. A expectativa do gestor é de que esta tendência se mantenha em 2017.

Por fim, Bateman explica que para 2017 espera ver que as correlações temáticas entre diferentes tipos de ativos (valor, crescimento, qualidade...) comece a diluir-se. Na verdade, afirma que “há indícios que apontam nesta direção”. “Nos últimos anos, têm prevalecido as temáticas macroeconómicas e de dinamismo, e os segmentos de qualidade e crescimento do mercado  têm registado uma rentabilidade superior aos de valor. Tem havido uma escassa diferenciação entre os títulos dentro desses referidos grupos e, na nossa opinião, isto tem conduzido à aparição de novas oportunidades geradas pelas ineficiências de preços”, resume o especialista.

Este considera que a banca é um bom exemplo: embora todo o sector tenha estado submetido a uma grande pressão, devido à erosão que exercem as taxas negativas sobre a sua margem de lucro, no entanto “existem diferenças consideráveis entre os diferentes bancos quanto à solidez do seu capital, à qualidade dos ativos, a geração de fluxo de caixa e o potencial de distribuição de dividendos”. A conclusão a que Bateman chega é que “uma diminuição das correlações poderia fazer com que o mercado apreciasse adequadamente estas diferenças”.

Algumas palavras sobre a agenda eleitoral

Para os especialistas da NN Investment Partners, a chave dos processos eleitorais deste ano reside na presença de partidos anti-europeus a concorrer para as referidas eleições, assim como "na forma como a UE pode convencer os eleitores sobre os benefícios da integração regional”. No entanto, afirmam que “suportar o eleitorado da região é tão necessário como o progresso para uma união fiscal e bancária”.

Da gestora explicam que, num contexto em que a polarização política é um fenómeno cada vez mais estendido (e agravado por factores como a crise dos refugiados), “o descontentamento dos eleitores acrescenta outra dimensão ao desafio que a Europa enfrenta”. Para os analistas, a questão chave que 2017 vai colocar em cima da mesa é se “os líderes da UE estão dispostos e são capazes de solucionar as legítimas preocupações dos votantes e acomodar as diferenças entre as preferências dos eleitores nacionais e, ao mesmo tempo, fazer com que as instituições que apontam a União Monetária Europeia sejam mais sólidas e à prova de shocks”.

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