Porque é que os mercados não responderam bem às ações dos bancos centrais?


Há algum tempo que não se via uma ação coordenada dos bancos centrais para enfrentar uma crise sistémica… até este domingo. Ao mesmo tempo que a Fed anunciava que baixava as taxas de juro para níveis de 0%, coordenava também com outros bancos centrais (Banco do Canadá, Banco de Inglaterra, Banco do Japão, Banco Nacional Suíço) para potenciar a provisão de liquidez via linhas de swaps mais baratas em dólar americano.

A ideia de uma coordenação dos bancos centrais para dar facilidades de liquidez ao sistema funcionou muito bem no passado estalar da crise das subprime e da quebra da Lehman Brothers, mas desta vez isso não aconteceu. De facto, os principais índices europeus despediram-se da sessão desta segunda-feira com quedas que vão de 4,36% até 4,57% do FTSE 100 apesar do endurecimento das medidas aprovadas pela ESMA sobre a comunicação das posições curtas. A situação nos EUA não é muito melhor já que a meio da sessão os principais benchmarks de Wall Street descem mais de 7% noutra sessão agitada. Já para não falar do facto de o Brent negociar abaixo dos 30 dólares por barril e do ouro, o histórico ativo refúgio também registar quedas de 3%.

Mas o que mudou nestes 12 anos para agora os mercados não reajam bem à novas injeções de liquidez no sistema como o fizeram no passado? O primeiro é a natureza desta crise comparativamente à que se viveu após a queda da Lehman.

“O problema radica na extrema dificuldade que os gestores de ativos estão a ter para navegar numa situação em constante mudança. Esta situação não é causada por um problema financeiro conhecido, mas, como já apontamos uma vez, assemelha-se muito mais a "causas de força maior": terramotos, inundações e ... pandemias. Por esse motivo, a maneira de a gerir, se for abordada como um problema puramente financeiro, nunca será adequada”, afirmava na sua newsletter matinal o economista Juan Ignacio Crespo. Segundo recorda Paul Moran, professor do Mestrado em Finanças Internacionais do IEB, “a crise financeira de 2008 teve três fases viciosas que começaram com famílias insolventes, depois com bancos ilíquidos e, finalmente, com ajustes fiscais por parte dos principais governos do mundo. A crise de Coronavírus é uma crise global, também com três fases: contenção, demora e mitigação”.

Isto é, as medidas adotadas para conter uma crise financeira como a de há 12 anos funcionaram porque o problema estava altamente focado num sector, o financeiro, mas não são suficientes para resolver um problema que, além de global, envolve todos e cada um dos sectores económicos, além de ser um problema de saúde global. Portanto, entre os comentários que os gestores de fundos enviaram para avaliar primeiro as medidas do Fed e, em seguida, a ação coordenada anunciada no domingo pelos grandes bancos centrais coincide com a necessidade de uma política fiscal por parte dos governos para mitigar os efeitos económicos devastadores que a crise do Covid 19 irá gerar.

Da coordenação monetária à fiscal

“Os países europeus estão a anunciar planos de estímulos significativos que deveriam comprar tempo, enquanto a pandemia é contida. Uma vez contida, serão necessárias medidas para estimular a procura agregada de forma a assegurar um aumento significativo do crescimento”, afirmam da Amundi.

Ao fim e ao cabo, segundo explica Esty Dwek, economista chefe da Natixis IM, “a liquidez não é problema, os bancos estão cheios de liquidez. As medidas fiscais são absolutamente necessárias. Atualmente o apoio fiscal é o que é mais necessário. Os dados económicos de março serão pobres e o impacto continuará em abril”. De momento, os dados que se conhecem neste arranque da semana têm sido desoladores. O índice de Produção Industrial da China caiu em fevereiro cerca de 13,5% e as vendas de retalho caíram cerca de 20%.

“Dadas as reações do mercado esta manhã, a resposta fiscal (e monetária) não tem sido suficientemente grande de forma a reduzir o risco de forma credível. Esperemos que se anunciem novas iniciativas mais para fazer deste evento um evento transitório relativamente à economia”, afirma Frank Háüsler, estratega chefe da Vontobel AM.

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