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Porque é que a 2ª metade de 2019 vai ser um período muito difícil para gerir carteiras


2019 está a ser um ano favorável nos mercados financeiros. As principais categorias de ativos estão a oferecer rentabilidades positivas. Expressas em euros, as ações de mercados desenvolvidos sobem 17,8%, a dos mercados emergentes 11,2%, as obrigações emergentes 11%, as obrigações high yield 10%, a dívida com investment grade 8,7% e as ações de governos 5,5%. Só a liquidez está a gerar este ano perdas (-0,1%). Quem no início do ano optou por assumir risco nas suas carteiras está de parabéns.

As gestoras não têm nenhuma dúvida quanto aos motivos que alimentaram estas subidas. “A postura expansiva que a maioria dos bancos centrais adotou este ano, impulsionados pela guerra comercial e a deterioração dos dados do sector manufatureiro explica a recuperação generalizada de todos os mercados pela reativação da procura de rendimentos por parte dos investidores”, assegura Andre Iannelli, diretor de investimentos em obrigações da Fidelity Internacional. No mundo desenvolvido, seis bancos centrais apontam para descidas de taxas este ano. Nos países emergentes, o número ascende a treze.

A má notícia é que o renovado protagonismo que voltaram a adquirir os bancos centrais, que derivou nesse bom comportamento registado pelos mercados financeiros, faz com que a segunda metade de 2019 se torne num período muito difícil para ser gestor de ativos, tanto de ações como de obrigações. No mercado de obrigações, porque as yields em obrigações voltaram a cair e agora estão em zona de mínimos.

“27% do universo de obrigações globais de governos tem atualmente uma yield negativa, o que representa um crescimento de 10% relativamente a como estávamos no passado mês de outubro. No caso da Europa, 40% da dívida pública negoceia atualmente com uma yield negativa, entre os quais se encontra a dívida alemã a dez anos. Este não é o cenário mais fácil para os gestores de obrigações”, reconhece Lucía Gutiérrez-Mellado, subdiretora de Estratégia da J.P.Morgan AM para Portugal e Espanha (todos os gráficos publicados neste artigo têm como fonte o Guia dos Mercados da J.P.Morgan AM).

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O novo contexto de yields comprimidas, muitas delas em negativo, significa que é preciso reduzir drasticamente a exposição ao mercado de obrigações? Essa é a grande pergunta. Gutiérrez-Mellado considera que é preciso, ainda que as carteiras estejam posicionadas de uma forma mais cautelosa do que há uns anos. Dado que temos de estar conscientes do momento do ciclo em que nos encontramos, é preciso ter muito cuidado ao realizar mudanças bruscas nas mesmas”. O que os investidores estão a tratar de fazer é estimar qual será o impacto da mudança de política monetária dos bancos centrais.

A BlackRock acaba de rever em alta as suas perspetivas sobre os ativos europeus ao entender que o BCE efetuará uma mudança claramente acomodatícia nos próximos meses. Em consequência, puseram fim à sua subponderação em dívida corporativa e ações europeias, revendo em alta  a sua visão sobre a dívida pública do Velho Continente para uma sobreponderação. Dão-se por previstas novas compras de ativos por parte do BCE e descidas de taxas por parte da Fed, mas quantas? Qual será a profundidade dos cortes e a nova política expansiva de Jerome Powell? E o BCE? Até  onde está disposto a chegar nesta ocasião? Comprará ações? Não há consenso sobre estas questões.

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Existem muitas incertezas incógnitas por resolver. Esta política monetária funcionará? O ciclo alargará? Será positivo para os mercados financeiros? Há opiniões para todos os gostos. Ariel Bezalel, chefe de estratégia de obrigações na Jupiter, mostra-se cético de que os cortes nas taxas de juro por parte da autoridade monetária americana possa impulsionar uma tendência sustentável nos mercados. No seu ponto de vista, “existe uma grande variedade de ativos em que não se entendem os verdadeiros riscos que estes têm”.

Chris Iggo, pelo contrário, acredita que “a combinação de dados que não são tão maus e de bancos centrais a proporcionar uma política mais acomodatícia é embriagadora para as bolsas e, por extensão, para o crédito”. Na opinião do diretor de investimentos de obrigações na AXA IM, no contexto global de baixa inflação, fazer uma política monetária ainda mais expansiva constitui pouco risco. “Em termos globais, isto permitirá acrescentar um apoio substancial por parte dos bancos centrais tanto na economia mundial como nos ativos de risco. Com os riscos relacionados com a política comercial ainda presentes, faz sentido para os banqueiros centrais adotar alguma classe como medida de precaução”.

Sobre se faz sentido baixar a política monetária nos EUA, tendo em conta que a economia americana criou um milhão de empregos este ano e que o crescimento se moderou só de uma forma muito marginal, o especialista destaca que os sinais são mistos. “Por um lado está o forte crescimento do emprego, mas, por outro, os indicadores de probabilidade de recessão de duas das equipas de investigação das unidades regionais da Fed mostram que o risco de recessão está ao nível mais alto alcançado desde precisamente antes da última recessão de 2009”, afirma. Mas os organismos internacionais não a preveem.

O FMI prevê um crescimento de 3,2% para a economia global em 2019 e de 3,5% para 2020. O Banco Mundial situa o número nos 2,6% para este ano e nos 27% para o próximo. A seguir ao ciclo poderá servir de suporte para as bolsas. “Os mercados de ações receberam, um forte empurrão no primeiro semestre do ano, tanto pela trégua temporária na guerra comercial entre os EUA e a China, como pela mudança de discurso dos bancos centrais ocidentais, que progressivamente se foi tornando muito mais favorável”, lembra Roberto Magnatantini, responsável de ações globais e gestor de carteiras na SYZ AM.

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Agora, após o bom comportamento registado pela ações na primeira metade do ano... o que fazer? O que esperar? “O balanço deverá ser positivo para as ações, mas há que ter em conta que, por um lado, as subidas estarão limitadas pelo crescimento dos lucros empresariais, os quais não se espera que sejam fortes e, por outro lado, que as subidas estarão limitadas pelo apoio dos bancos centrais. Ainda que possa acontecer, se as taxas baixarem é difícil vermos quedas importantes. O normal será que as bolsas se movam dentro de uma faixa”, assinala Guitiérrez-Mellado.

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