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Pontos-chave e consequências da debilidade do dólar face ao euro


Uma das maiores mudanças para as carteiras dos investidores face aos próximos meses poderá chegar às divisas. Depois de três anos de hegemonia do dólar americano este está a viver uma mudança de tendência. Anujeet Sareen, gestor da Brandywine Global (Franklin Templeton), relembra-nos sobre dois números: o dólar americano avançou quase 9% no primeiro trimestre antes de devolver quase dois terços da sua subida em meados de agosto. Por outro lado, depois de cair quase 5% num momento do primeiro trimestre, o euro subiu agora 11% desde os seus mínimos de março. Perguntámos aos especialistas pelos ponto-chave e consequências desta mudança no euro/dólar.

1.O que explica a debilidade do dólar e a força do euro

Para entender o futuro, Sareen defende que primeiro é preciso compreender o passado. Ou seja, o que determinou a força do dólar há escassos seis meses. Para o gestor, foi uma mistura do trajeto de expansão do vírus (que começou na Ásia e continuou na Europa antes de chegar aos EUA), elevadas taxas de juro em comparação com o resto dos mercados desenvolvidos (e até alguns emergentes), a fuga para a qualidade e, por último, a necessidade de encontrar financiamento em dólares quando a pandemia golpeou o país. “Mas estes fatores agora reverteram-se”, aponta.

Além disso, o euro conta com o seu próprio tailwind, a aprovação do Plano de Recuperação da UE. “Impulsionada por um inimigo comum, a Europa está a unir forças para recuperar das consequências económicas da COVID-19”, assegura o estratega da Robeco, Peter van der Welle. “Com isto, provavelmente ativou um estimulante para trazer à tona o valor da moeda comum: as perspetivas de integração fiscal”. Se a maior integração fiscal na zona euro propicia a criação das denominadas euro-obrigações, o dólar americano poderá ressentir-se. “Ao serem estas obrigações representativas do conjunto da zona euro, o novo ativo terá seguramente uma rentabilidade maior que as obrigações do governo alemão, reduzindo ainda mais a brecha de rentabilidade com os EUA”, explica Jeroen Blokland, especialista em multiativos na Robeco.

A tendência pode perdurar? Os especialistas veem motivos para que assim seja. Keith Wade, economista chefe da Schroders, destaca dois fatores. O primeiro é a chegada de Biden à presidência dos EUA e a redução das tensões entre o país e a China, o que, por sua vez, reduz o atrativo do dólar como ativo refúgio. O segundo é o provável retorno dos défices gémeos (quando uma economia tem défice tanto orçamental como de conta-corrente), que prognosticará um período de debilidade do dólar à medida que a economia se torna dependente do financiamento externo. Wolfgang Bauer, gestor da equipa de obrigações da M&G, coincide com esses dois fatores e acrescenta mais um: que se prevê que os EUA se tornem num exportador líquido de petróleo, o que também pode afetar o dólar.

Há um consenso entre as gestoras internacionais. “O dólar é uma divisa sobrevalorizada”, sentencia Luca Paolini, estratega chefe da Pictet AM. Na sua opinião, o dólar está numa queda estrutural, pela redução da sua vantagem de crescimento económico e duplo défice record, fiscal e de balança comercial. “Calculamos que o seu duplo défice alcance os 22% do PIB este ano, o pior nível desde a década de 1970”, recorda. “A situação da Europa parece melhor do que a dos EUA do ponto de vista económico, político e sanitário”. Na PIMCO e na BNY Mellon também veem continuidade na queda do dólar. “As condições extremas onde o dólar se comporta melhor não desapareceram, mas possivelmente aplanaram devido às agressivas respostas fiscais e monetárias em todo o mundo”, argumentam na PIMCO.

Também é preciso ter em conta indicadores técnicos, como o posicionamento dos grandes investidores que a DWS ressalta no gráfico abaixo. “No início do ano, muitos participantes do mercado de futuros de divisas tinham-se posicionado num euro mais débil. Com o euro mais forte este também mudou. Atualmente, as apostas por uma maior debilidade do dólar estão no seu ponto mais alto desde 2018”, explicam.

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Isto, por sua vez, sugere que a maioria das boas notícias para o euro tem um custo, deixando espaço para as surpresas negativas. Nem todas as gestoras estão assim tão certas. “Em geral, ainda é demasiado cedo para escrever o obituário do dólar”, alerta Stefanie Holtze-Jen, estratega chefe de divisas da DWS. “No fim de contas, assumimos que ambas as regiões económicas podem viver bem com uma taxa de câmbio entre 1,10 e 1,25”, defende também nessa linha Philipp Vorndran, estratega de mercados da Flossbach von Storch.

Outro fator contra poderá chegar dos próprios bancos centrais. Como bem refere Dave Chappel, gestor sénior de obrigações na Columbia Threadneedle Investments, nenhum banco central precisa de uma moeda fortalecida nesta etapa inicial da recuperação. “Na reunião desta quinta-feira do BCE, a recente subida do euro vai ter um lugar de destaque na agenda”, afirma. É um ponto que ressalta também James Athey, diretor de investimentos da Aberdeen Standard Investments, que tem uma visão bearish quanto ao euro. “O fortalecimento do euro é um problema importante para a economia europeia. A zona euro é uma região com superavit em conta corrente, que depende em grande medida da procura externa. Muitas das empresas dos seus principais índices de ações obtêm grande parte dos seus lucros do estrangeiro”, aponta.

2. Que implicações tem para as carteiras

O principal foco do movimento nas carteiras está centrado, naturalmente, no euro. Gestores como Bauer contam que recentemente aumentaram as suas posições longas no euro por dois motivos. “Em primeiro lugar, reduziram determinados riscos sobre a recuperação da zona euro e, em segundo lugar, a evolução das taxas de câmbio vêm em parte determinada pelas diferenças nas taxas de juro, mas estes já se situavam em cotas muitos reduzidas na Europa e torna-se pouco provável que se reduzam ainda mais, pelo que a incerteza é menor”, explica.

Na Europa, o impacto varia por países. Tal como analisa John Plassard, da Mirabaud, os dois países mais afetados por uma subida do euro face ao dólar são a Itália (as exportações do país para os EUA cresceram nos últimos anos, especialmente nos setores de moda, acessórios, joelharia, alimentação, automóvel e ferramentas para maquinaria) e França, cujo preço de equilíbrio se estima em 1,15 dólares. Espera-se que os setores franceses de aeronáutica, alimentação, automóvel, farmacêutica e luxo se vejam prejudicados. No lado contrário da moeda estão Espanha, que envia mais de metade das suas exportações para a zona euro e dois terços para a UE. E depois, logicamente, a Alemanha, onde só uma quarta parte das exportações alemãs ainda estão denominadas em dólares; um terço do comércio exterior do país realiza-se com a zona euro e, por isso, não está sujeito a nenhum efeito cambial.

Vários especialistas convidam a pensar também no efeito secundário nas divisas. Por exemplo, Jack Janasiewicz, gestor da Natixis IM, recorda que um dólar mais débil também atua como catalisador para o ouro, já que os investidores voltam a procurar um ativo no qual reter o seu poder de compra. A isto Luca Paolini, estratega chefe da Pictet AM, acrescente como beneficiário o cobre, exposto a tendências seculares relacionadas com a eletrificação do transporte, numa indústria com muita disciplina de oferta, efetivamente um oligopólio. “Está muito correlacionado com o dólar e com a criação de dinheiro, sendo mais estável que o petróleo. Se a economia global não colapsar, o seu potencial é especialmente alto nesta segunda parte do ano”, defende.

E não só tem implicações para os ativos de mercados desenvolvidos. Por exemplo, Wade comenta que o debilitamento do dólar apoiou a sua recente alocação em moeda local dos mercados emergentes, já que o movimento ajuda a flexibilizar as condições monetárias nos países emergentes.

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