Pode repetir-se no Brent a queda vista no petróleo WTI?


A crise do COVID-19 está trazer headlines que se veem pela primeira vez na história, e um dos mais chamativos é o que se refere à queda protagonizada pelo barril de crude West Texas Intermediate, referência nos EUA, na segunda-feira, ou, mais concretamente, o futuro sobre o WTI que vence no mês de maio. O crash foi tão grande que chegou a cair mais de 300% e negociou em -30 dólares. Nunca antes tinha acontecido, mas porque aconteceu agora? E, sobretudo, poderemos ver um movimento similar nos futuros do Brent, a referência na Europa?

Michael Salden, gestor da Vontobel, explica que o Brent está menos submetido a pressão do que o West Texas por várias razões. A primeira é que o seu contrato não expirava tão cedo como o do West Texas  (expirava esta terça-feira, enquanto que o do Brent expira no próximo dia 30 de abril). A segunda é que ao contrário do petróleo americano, o europeu tem mais sistemas de armazenamento, e a terceira razão é que o Brent negoceia mais os cortes da produção anunciados pela OPEP na semana passada.

“O Brent está menos submetido a pressão já que o seu contrato não expira já e porque o armazenamento é mais acessível em forma de armazenamento flutuante (navios). No entanto, o futuro do Brent mais próximo expirará a 30 de abril e é provável que sinta uma certa pressão de venda, no entanto, em menor medida do que o WTI”, afirma Salden.

Tomás García Purriños, gestor do Morabanc, explicava num post do Twitter, que “o Brent se costuma considerar uma referência mais global. Transporta-se por mar e pode chegar a qualquer parte do mundo. Por outro lado, o WTI é uma referência importante sobretudo nos Estados Unidos e menos global porque o seu transporte é mais complicado”. Na verdade, entrega-se num lugar chamado Cushing, em Oklahoma, no centro do país, daí ser complicado o seu transporte. Mais, se se tiver em conta que, como explica o economista Juan Ignacio Crespo na sua newsletter diária, “nos seus tanques podem acumular-se até 76 milhões de barris de crude, mas cerca de 72% dessa capacidade já está utilizada, e dos restantes 28% pode ser que uma boa parte já esteja comprometida com contratos assinados à data”. Ou seja, não há espaço para armazenar esse petróleo.

Para além disso, o Brent, por ser mais global do que o WTI, está mais exposto aos cortes de produção anunciados na semana passada pela OPEP, que contempla um acordo para reduzir a produção de crude em 10 milhões de barris diários. “Em geral, os cortes da OPEP estão mais orientados para o Brent, enquanto que os produtores de xisto dos Estados Unidos não podem acordar facilmente cortes coordenados da produção. Isto deve-se ao facto da indústria de xisto dos EUA não ser propriedade estatal e estar composta por muitas empresas privadas. Qualquer corte de produção nos EUA é um corte forçado devido aos baixos preços do petróleo e às limitadas capacidades de armazenamento”, afirma. Salden.

No entanto, embora o Brent tenha menos probabilidade de protagonizar um movimento como o visto no WTI, tudo dependerá de que o corte anunciado pela OPEP seja suficiente para ajustar a oferta e procura de crude num contexto de recessão global como o que enfrentamos com a crise do COVID-19. “É evidente que se impõe um novo acordo de redução da produção mundial de crude já que, tal como comentávamos na semana passada, os 10 milhões de barris acordados na reunião OPEP não serão suficientes. Pode ser que agora nem sequer uma redução de 20 milhões seja suficiente”, assegura Crespo.

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