PIMCO: a vida sem Bill Gross… é vida


Houve um tempo em que Bill Gross era conhecido como o rei das obrigações. Ocupava este trono porque estava à frente do PIMCO Total Return Bond, que durante anos foi o maior fundo de obrigações do mundo. Durante o seu reinado, eram habituais as aparições de Gross na televisão, onde opinava e emitia juízos de valor que não deixavam indiferente quem o ouvia. Eram tempos em que Gross tinha uma reputação intocável. Por muito peculiares e politicamente incorretos que fossem os seus comentários, os investidores mostravam uma confiança quase cega no gestor e na sua estratégia, como evidenciava um património que, longe de se ressentir, não fazia mais do que engordar. Mas em 2011 tudo mudou.

O PIMCO Total Return Bond fechava o ano com saídas líquidas de dinheiro pela primeira vez na sua história. Foi o início do decliniu. A partir de então, tudo foi diferente tanto para Gross como para a PIMCO. As saídas de dinheiro acentuaram-se e as guerras internas tornaram-se públicas. A mais mediática foi a protagonizada pelo próprio Gross com Mohamed El-Erian, então CEO e corresponsável de investimentos da entidade. As reprovações mútuas entre ambos eram habituais e mantiveram-se até depois de, em janeiro de 2014, El-Erian anunciar a sua saída da PIMCO. Foram meses muito difíceis para a gestora. El-Erian apresentava o contraponto perfeito face à personalidade de Gross, não apenas dentro do comité de investimento, mas também dentro da organização geral da gestora. A partir de então, os acontecimentos precipitaram-se.

Os meios de comunicação divulgavam as frequentes discussões, como a causa para a saída de El-Erian e revelavam que os restantes empregados se sentiam demasiado intimidados por Gross para puder falar com liberdade. Estes constrangimentos começaram a levar ao conhecimento de detalhes escabrosos sobre o dia a dia da empresa que não satisfizeram nada os investidores que começaram a retirar o dinheiro da estratégia. Tudo culminou em setembro de 2014, com a saída do próprio Gross, que saiu para a Janus Capital. “Para a PIMCO, o adeus de Gross foi juntar gasolina com fogo. Provocou um tsunami de saídas de dinheiro, o que gerou medo de que a queda das receitas provocasse cortes dolorosos, tanto de recursos como da própria gestora. Alguns investidores e especialistas chegaram a questionar a própria sobrevivência da entidade”, explica a Morningstar num relatório pormenorizado.

A gestora endireita o rumo

A PIMCO demorou muito tempo a recuperar daquele golpe. Os dois anos seguintes à saída de Gross foram uma travessia no deserto em que a empresa não parou de sofrer saídas de dinheiro. Afetou principalmente o PIMCO Total Return (cujos ativos passaram dos 377.000 milhões de dólares que tinham quando se anunciou a saída do gestor, para os 155.000 milhões que mantinha no final do terceiro trimestre de 2017), ainda que se estenda a muitas outras estratégias da entidade. O PIMCO GIS Income foi a exceção. As entradas de dinheiro neste produto começaram a ser recorrentes e dispararam em 2017, e em setembro tinha captado 32.000 milhões de euros, sendo de longe o fundo que mais captou dinheiro na Europa nesse ano. Hoje engloba mais do triplo do que tinha há três anos, convertendo este produto gerido por Daniel Ivascyn e Alfred Murata no fundo estrela da entidade.

A atração que se registou por este produto explica, em parte, que os fluxos de dinheiro para a PIMCO tenham voltado a ser positivos na segunda metade de 2016 pela primeira vez desde o segundo trimestre de 2013. A partir de aí, a gestora conseguiu reverter a tendência.

“Ainda que os princípios fundamentais do processo de investimento da PIMCO não se tenham alterado, a nova equipa criada para tomar as rédeas do PIMCO Total Return, liderada por Ivascyn, trouxe um maior rigor quantitativo tanto no que respeita à tomada de decisões como na altura de reduzir os desvios comportamentais desse processo. Por outro lado, a gestora é agora menos dependente do êxito de um gestor e de uma estratégia concreta. No final de 2014, o PIMCO Total Return centrava mais de 25% dos ativos geridos pela empresa, enquanto a sua estratégia de income e crédito com grau de investimento representava um único digito. Em 2017, a distribuição entre estas três categorias de produto está muito mais equilibrada, cada uma a representar menos de 15% do total”, sublinham a partir da Morningstar.

O risco agora é que, se o PIMCO GIS Income continuar a crescer ao ritmo atual, pode acabar por provocar uma nova concentração de negócio da empresa numa única estratégia, ou seja, voltar a ser uma gestora mono-produto. No entanto, as vulnerabilidades atuais da PIMCO não são as mesmas que as existentes na época de Bill Gross. “Enquanto a estratégia americana do PIMCO Total Return foi vítima das preocupações dos investidores sobre o risco de subidas nas taxas de juro das obrigações core, o foco do PIMCO Income na procura de yields superiores e a maior sensibilidade ao crédito ajudou esta estratégia, é a razão da sua popularidade”, assinalam a partir da Morningstar.

“Com a confusão causada pela crise de liderança e as saídas de dinheiro que lhe sucederam, a equipa de investimento da PIMCO permaneceu estável e bem equipada ao nível de recursos, apresentando-se como uma gestora capaz de gerar resultados competitivos nos próximos anos. O seu ressurgimento foi impressionante”, concluem.

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