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“Petróleo & Dólar: Irmãos Inseparáveis…”


Uma das maiores consequências que a política monetária não convencional originou nos mercados financeiros, foi a alteração das correlações tradicionais entre as diferentes classes de ativos financeiros. Mas no caso do dólar e do petróleo, se é certo que o fim do programa de compra de ativos (Q.E.) nos EUA veio restabelecer parcialmente a tradicional correlação negativa entre o dólar e o preço do petróleo, as alterações estruturais que têm vindo a ocorrer na economia global alteraram irremediavelmente o elo entre estes dois ativos, independentemente de se manterem como ”irmãos inseparáveis”.

A razão tradicional desta correlação advinha do facto do petróleo ser cotado em dólares e dos Estados Unidos serem simultaneamente o maior consumidor e importador de petróleo do mundo. Se por alguma razão os preços do petróleo subiam, as moedas dos países produtores tendiam a valorizar-se contra o dólar, caso contrário, se o preço do petróleo caía eram as moedas dos países produtores que ajustavam. Sucede que os EUA, apesar de ainda serem o maior consumidor mundial, já não são o maior importador de petróleo e deixaram de ter hegemonia integral das transações na própria divisa, desde a introdução dos futuros em petroyuans no passado mês de março. Sendo de registar que as tensões geopolíticas no Médio Oriente, vão dando cada vez maior protagonismo a este novo mercado de futuros de Shangai

A subida do petróleo para níveis de 60$ por barril era expectável, mas agora com o brent na vizinhança dos 80$ por barril, é de concluir que entrámos claramente na fase de overshooting.

O mercado energético tem estado demasiado focado na medição dos distintos impactos do lado da oferta. Por um lado, pelas restrições na produção, quer pelo corte de investimento, quer pelo grau de cumprimento do acordo de corte de produção da OPEC e por outro lado, pelo efeito contrário da subida de produção do gás e petróleo de xisto. Mas no curto prazo o que o mercado petrolífero subestimou, foram as dinâmicas do lado da procura, fruto da melhoria do crescimento global e do maior consumo de países como a China e a Índia. Estes fatores acabaram por normalizar os inventários, o que originou que o prémio de risco geopolítico ganhasse outra vez mais relevância, com os temas recorrentes no Médio Oriente e da situação política na Venezuela.

No entanto, prevalecem fatores estruturais que ainda agora se enlaçaram e que vão condicionar a futura curva da procura do petróleo. Contrariamente ao que vulgarmente se diz sobre a rigidez da curva da procura de petróleo, esta é cada vez mais elástica face à subida de preços, uma vez que as alternativas ao petróleo são cada vez mais viáveis e estão cada vez mais presentes. Não podemos ignorar que o desenvolvimento sustentável e as alterações subjacentes ao conceito da mobilidade, vão afetar grandemente o consumo de gasolina nos próximos anos, o qual representa cerca de 50% do consumo de petróleo. Por outro lado, não podemos esquecer que a oferta também é elástica, com a produção de petróleo nos EUA a aproximar-se dos 11 milhões de barris por dia. Nesse sentido e independentemente da recente dinâmica dos preços do petróleo possa persistir por mais algum tempo, não devemos de todo ignorar que os fundamentais desta matéria-prima se alteraram profundamente!

Quanto ao dólar, subsiste um paradoxo em que taxas de juro sucessivamente mais elevadas no dólar podem não ser suficientes para gerarem uma valorização sustentada desta moeda. Analisando este paradoxo e enquadrando-o neste novo contexto económico global, emergem três temas que ajudam a explicar a sua existência:

A Divergência prende-se exclusivamente com esta nova administração americana, cuja estratégia política, de forma deliberada ou não, tudo tem feito para descredibilizar o estatuto do dólar, como reserva de valor internacional. A prova disso é a estratégia mediática e descuidada sobre a negociação de tarifas, que acaba por transformar os EUA num parceiro comercial pouco fiável e consequentemente pouco recomendável. Por via do lado económico, o sentido de oportunidade de estimular a economia através de um agressivo plano fiscal, numa altura em que a mesma se encontra em pleno emprego, acarreta riscos para o dólar, por via de um maior défice fiscal. Por fim, com as taxas de juro das hipotecas já nos 4.5% e a manterem-se os problemas estruturais, da desigualdade, dívida e demografia, dificilmente para o ano a FED vai conseguir cumprir na íntegra com o seu calendário de subidas de taxas de juro.

A Convergência, não é mais do que o reverso da moeda, o euro. Apesar de todas as contrariedades políticas que persistem, a redução do risco político e da fragmentação financeira são hoje uma realidade europeia. Numa altura em que o Euro se acerca de duas décadas de existência, ganham cada vez mais forma as dinâmicas positivas do crescimento económico e da inflação na Europa, face ao espectro de deflação e crescimento abaixo do potencial, que contrariam o atual estado de hipnose monetária. A maior integração política, a forçosa finalização da União Bancária e a inevitabilidade da redução de estímulos monetários com o fim do programa de ativos este ano e do posterior abandono da políticas de taxas de juro negativas, são fatores que irão devolver ao euro o protagonismo de reserva de valor de outrora. Atualmente, o euro representa cerca de 20,15% das reservas cambiais internacionais, o que contrasta como os 28% que representava antes da crise soberana.

Por fim, a Insurgência, o facto que advém da questionável necessidade das economias emergentes continuarem a seguir o dólar como um referencial quase exclusivo, numa altura que estas economias, não dependem tanto da procura externa, tem capacidade de se financiar nas suas própria moedas e representam mais de 60% do PIB mundial, em termos de paridade de poder de compra (PPC). Se nos debruçarmos exclusivamente na China, a maior economia do mundo (PPC), constatamos que esta representa, 18% do PIB mundial, 19% da população mundial e detém uma classe média que não anda longe dos 300 milhões de pessoas. Em termos globais consome: 59% do cimento, 56% do níquel, 50% do carvão, 50% do cobre, 50% do aço, 47% do alumínio, 47% do porco, 33% do algodão, 31% do arroz, 23% do trigo e é o maior importador de petróleo. Mas para além dos bens, a China tem-se transformado num grande consumidor e importador de serviços. Segundo o instituto China Outbound Tourism Research, os turistas chineses gastaram no ano de 2016, 262 mil milhões de dólares, o dobro dos turistas nos EUA e representam mais de 20% do total das receitas de turismo mundiais

Faz algum sentido para uma economia com estas dimensões e com esta interatividade no comércio internacional, que a sua moeda apenas represente 1,2% das reservas internacionais e 1,62% de quota de pagamentos internacionais via Swift?

Se calhar, por entre a Divergência, a Convergência e a Insurgência do dólar e a subida estrutural da elasticidade do preço da procura do petróleo, não existe nenhum paradoxo, apenas persiste um anacronismo: o dólar e o petróleo já fazem parte de uma outra geração e só por isso se mantêm como “Irmãos Inseparáveis”...

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