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Petróleo abaixo dos 30 dólares - Irá até aos 20?


Esta semana, o WTI de Nova Iorque, que serve de referência do petróleo para os EUA, esteve abaixo dos 30 dólares/barril, nos 29.96 dólares, o valor mais baixo desde dezembro de 2003.

A queda do preço do petróleo tem sido uma constante nos últimos meses justificada pelo excesso de oferta, nomeadamente com a entrada no mercado do "Shale oil" e do crude canadiano. A diminuição da procura de petróleo, devido ao abrandamento económico global, mas especialmente à fraqueza da economia chinesa tem sido outro motivo invocado. Nos EUA, as reservas de petróleo encontram-se em máximos de 1930. E não podemos ignorar que os avanços tecnológicos vêm pressionando os custos de produção em baixa.

Várias casas de investimento referem que o petróleo poderá descer até aos 20 dólares/barril em 2016, e algumas apostam mesmo no petróleo abaixo dos 20 dólares. A OPEP não reduziu a produção, há dois meses, em novembro de 2015. Ora, com o dólar norte-americano em alta, fruto de uma política monetária contracionista da FED e inflacionista do BCE e dos restantes grandes bancos centrais mundiais, a cotação do petróleo, que cota em dólares, tem sido pressionada. Esta matéria-prima, bem como a maior parte das matérias-primas a nível mundial, é cotada em dólares. Quando o dólar valoriza o seu preço fica mais caro nas outras moedas e há lugar a um ajuste em baixa.

Segundo o ministro nigeriano do petróleo, numa informação avançada a 12 de janeiro, a OPEP deverá agendar uma reunião extraordinária para o início de março, para tentar solucionar a queda acentuada do preço do petróleo. Um corte na produção desta matéria-prima poderá ser a principal medida para travar a descida. Os países fora da Península Arábica são os mais atingidos porque têm custos de produção bastante mais elevados que os 6 a 15 dólares/barril do Qatar, Emirados, Kuwait e Arábia Saudita. Devido à indexação das receitas do petróleo às despesas públicas dos países, como é exemplo a Argélia, Angola, entre outros, as dificuldades dos orçamentos públicos já se sentem há mais de um ano, com a diminuição das divisas nestes países a acentuar-se nos últimos tempos.

Mas há um fator que pode travar as quedas: se o petróleo chegar aos 20 dólares/ barril muitos investidores "shorts", que assumem posições curtas, sentem-se mais inibidos para apostar na queda do preço porque o "downside" é muito limitado e o risco assumido dificilmente compensa os ganhos que poderão surgir dessa estratégia. Nestes níveis já nos aproximamos dos custos de produção da maioria dos países que produzem barato, logo uma queda abaixo destes níveis é pouco provável. Sendo assim, poderemos assistir a um "pullback" pontual, uma recuperação em alta da cotação do "ouro negro", talvez até perto dos 40 dólares/barril, mesmo sabendo que os principais fatores que pressionam o preço vão persistir nos próximos tempos.

O WTI e o Brent estão em "contango" ou "forwardation", termo usado no mercado de futuros para descrever uma curva a prazo com inclinação ascendente. O preço no futuro de uma mercadoria excede o seu preço atual quando existe excesso físico da mercadoria. É o que acontece normalmente a uma mercadoria não perecível como o petróleo que tem um custo de posse (taxas de armazenamento mensais de cerca de 1 USD/barril, seguros de 0.3 USD, mais juros). No "contango" quando se excede o custo de posse surge uma oportunidade de arbitragem, de lucro. O contrário, curva descendente, denomina-se de "backwardation".

O índice das "commodities" medido pela Bloomberg registou, na passada terçafeira, o mínimo desde 1991, o que indicia um abrandamento mundial, que se confirma com a recessão na Rússia e no Brasil, e crescimento anémico na Europa. A economia norte-americana é a única, nomeadamente nos últimos três meses, que tem revelado um crescimento relativamente significativo, como espelham os dados macroeconómicos divulgados no dia 8 de janeiro, relativos ao mercado de trabalho (taxa de desemprego nos 5% e criação de 300 mil postos de trabalho). A queda do preço do petróleo, como principal referência para as mercadorias, tem também pressionado, em parte, a descida destas.
 

Paulo Rosa in Vida Económica 15 de janeiro de 2016

 

(Foto: braniffelectra, Flickr, Creative Commons)

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