Perspetivas económicas e impacto no investimento


Desde abril que temos visto os principais organismos internacionais e nacionais (FMI, OCDE, Comissão Europeia e Banco de Portugal) a divulgar previsões que começaram menos negativas, mas que com o decorrer do tempo se tornaram mais pessimistas para 2020 e menos otimistas para 2021.

Com um segundo semestre pela frente e com diversos fatores de risco que elevam o grau de incerteza, os investidores devem ser cautelosos nos seus investimentos em ativos de risco.

Os fatores de risco são vários e apresento seguidamente os que na minha opinião são os mais importantes.

A continuação da subida dos casos e do número de mortos da pandemia, obriga a que o mundo científico e farmacêutico tenha de continuar a investigar com vista ao aparecimento de meios de tratamento mais eficazes até que apareçam as desejadas vacinas (em meados de 2021 numa visão otimista). O vírus tem muitas mutações, parece dar-se bem com o frio e com o calor (a Europa vive o verão e a Austrália vive o inverno) e o ainda relativo desconhecimento epidemiológico são desafios a ter em conta.  Sem resultados claros quanto ao avanço médico a incerteza continuará, até porque alguns cientistas consideram elevada a probabilidade de haver no próximo outono / inverno uma segunda vaga.

Os mercados bolsistas recuperaram grande parte das perdas, mas é necessário que os dados macroeconómicos evidenciem nos próximos meses maior robustez do processo de recuperação.

A Europa apesar de estar a mudar a atitude com esta crise que afeta os países ricos e os países pobres (embora estes tenham menos capacidade de resposta), continua a não ser tão ágil como os EUA.

O mundo está mais endividado e a questão do incumprimento do crédito por parte de empresas e famílias nos próximos meses, especialmente quando terminarem as moratórias de crédito e de rendas e aumentarem os pedidos de insolvência de empresas e os despedimentos coletivos, poderá afetar não apenas o tecido económico como obrigar os bancos a efetuar mais provisões para crédito vencido.

O comércio mundial desceu significativamente com a recessão económica. A dúvida é se a pandemia terá apenas um impacto de curto prazo ou terá um impacto de m/l prazo nas cadeias de fornecimento de bens e serviços. E iremos assistir a um maior grau de protecionismo / nacionalismo? Há poucas semanas, os EUA compraram uma grande quantidade de um medicamento, levando o stock mundial a zero. Quando surgir a vacina, como vai ser? Haverá para todos? A guerra comercial EUA / China e EUA / Europa vai continuar ou mesmo aumentar? São temas que terão impacto não apenas ao nível do comércio internacional como ao nível da produção e do grau de utilização da capacidade produtiva instalada.

A subida do desemprego (impacto negativo no consumo e subida do incumprimento das famílias), da dívida pública e do défice público podem motivar moderação nos gastos públicos.

Com o desconfinamento gradual das economias, o brinde, ou seja, o impacto positivo na recuperação económica será maior ou menor que a fava, ou seja, a maior dificuldade em controlar a propagação do vírus?

Os próximos dois trimestres do ano vão ser fundamentais para vermos claramente a velocidade da recuperação económica. Continuo a pensar mais num U do que num V, mas seria bom que estivesse enganado.

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