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“Perdidos no Mar…”


O ponto sem retorno é uma teoria da aeronáutica que nos diz que existe um ponto em que o combustível consumido durante o percurso já não permite o regresso ao ponto de partida. No caso de ocorrer uma situação de emergência, o melhor mesmo é prosseguir caminho e procurar uma alternativa para aterrar.

O ponto em que nos encontramos no âmbito da política monetária na Europa, cada vez mais se assemelha a um aproximar do ponto sem retorno. A razão é simples, estamos a criar expectativas perversas nos agentes económicos, que vão tornar ainda mais difícil normalizar a política monetária.

A raiz do problema da ineficácia da política monetária, não advém da inexistência de condições creditícias favoráveis, nem tão pouco de dificuldades de acesso ao crédito, o problema reside na falta de procura de crédito. A existência de dinheiro barato e acessível é uma condição necessária para o crescimento do crédito, mas não é suficiente. É necessário que se criem expectativas positivas sobre o ciclo, que estimulem os agentes económicos e que os façam acreditar que é possível transformar esse dinheiro barato e acessível em algo com valor…

Chegados ao fim de cinco anos de taxas de juro negativas e crer que torná-las ainda mais negativas é essa a solução para resolver os problemas económicos na Europa?

Em primeiro lugar, do lado das empresas, se a taxa de juro é baixa, significa que o retorno de capital tenderá a ser baixo. Taxas de juro muito baixas prejudicam empresas saudáveis que são obrigadas a baixar margens porque são confrontadas com empresas extremamente endividadas. Estas últimas limitam-se a investir a poupança de juros em preços mais baixos, para aguentarem o seu negócio.

Contrariamente ao que seria de esperar, as boas empresas focam-se em se redimensionar e reduzir dívida porque não vislumbram boas perspetivas para a evolução do seu negócio. As empresas ineficientes veem as taxas de juro baixas como um subsídio a fundo perdido, ou seja, como um incentivo adicional para manter ou elevar a sua dívida.

Em segundo lugar, do lado das famílias, a lógica não difere muito das empresas. Tradicionalmente na teoria económica, taxas de juro muito baixas significavam que não havia um incentivo a poupar, mas sim para consumir. Isso era verdade se o montante da dívida fosse relativamente baixo e se a perspetiva de geração de valor futura, através de aumento de salários e da poupança, gerasse confiança para contrair dívida e aumentar o consumo presente em detrimento do consumo futuro. Sucede que nos dias de hoje nada disso acontece. As famílias têm incentivo a reduzir dívida, uma vez que se sentem confrontados com uma maior dificuldade de progressão financeira, com maior precaridade no emprego e com a necessidade crescente de poupar mais em face do aumento de esperança de vida. Por outro lado, aqueles que têm mais dificuldades, tendem a manter ou elevar a dívida, mas o consumo marginal tende a ser cada vez menor, porque também estes são confrontadas com salários baixos e com a realidade de uma vida mais longa.

Para complicar ainda mais esta situação, o papel dos Estados, pouco ou nada tem ajudado para reverter estas dinâmicas, uma vez que as opções não têm passado pelo investimento assertivo. A ausência de uma política fiscal efetiva, integrada, complementar e capaz de responder os desafios estruturais existentes na Europa, deu aso também a esta perigosa dependência da política económica de via única.

Por fim, quanto às virtudes desta política de via única para o sistema financeiro, parece óbvio que a sua permanência só o fragiliza. Num cenário de mais taxas de juro negativas, independentemente da estratificação da taxa de juro de depósito mitigar o impacto nos bancos, as Euribores tenderão a descer, ou pelo menos, a manterem-se indefinidamente negativas. É difícil imaginar que numa região em que os bancos são responsáveis por 75% do crédito às empresas e cerca de 90% do crédito às famílias (fonte: Deutsche Bank), se possa achar que tudo se resolve com juros ainda mais negativos. Não é por acaso, que a grande maioria dos bancos, que há mais de um ano esperava por uma certa normalização da política monetária, vê-se agora confrontada com necessidade de se redimensionar para sobreviver e de passar legitimamente parte dos custos financeiros desta política para o consumidor.

Não deixa de ser algo insólito, que depois de todo o trabalho feito pelo Banco Central Europeu para salvar o Euro e para corrigir a fragmentação financeira na Europa, o BCE ainda não se tenha apercebido que por detrás desta política de via única, alicerçada na permanência indefinida de taxas de juro negativas, pode estar implícita uma das causas da queda significativa das expetativas de inflação nos últimos anos. Se calhar, estamos a gastar demasiado combustível e já estamos a atravessar o ponto sem retorno da política monetária na Europa. Se assim for, podemos ficar perdidos no mar...

Taxa de Depósito Negativa vs Expetativas de Inflação

graficojorge

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