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“Parole!”


Por entre as baforadas dos charutos, das trocas de olhares dissuasores, do bluff de apostas decididas e depois de esgotadas todas as outras tentativas para afastar os adversários do jogo, a “última cartada” a ser lançada para cima da mesa é a “parole”. Para quem nunca jogou poker, a proposta de “parole” é um acordo entre os jogadores que ainda estão em jogo, para repartir irmãmente o pote das apostas que está em cima da mesa.

O assunto, a forma e os números que estão subjacentes à discussão das tarifas aduaneiras entre os EUA e os distintos parceiros comerciais, ganhou contornos de uma enfadonha partida de poker, cujo desfecho final se resumirá a um conjunto indiscriminado de propostas de “parole”...

São esses os contornos que sobressaem com o potencial acordo dos EUA com a Coreia do Sul, bem como, com as recentes trocas e baldrocas que têm estado subjacentes às negociações de um “cosmético” acordo da NAFTA.

O risco, não é certamente a ausência de acordos, porque esses inevitavelmente vão ter sempre que ocorrer. O risco é a perda de credibilidade de um parceiro comercial tão importante como os EUA, cuja conduta danifica e hipoteca a capacidade de este país promover e liderar parcerias comerciais credíveis e duradouras no futuro.

É neste contexto que compete aos investidores não se deixarem levar pelos inúmeros cenários ruidosos e pelas várias contas que sobrevalorizam um cenário de hipotética guerra comercial. O enfoque deve estar bem mais estruturado nas tendências que se encontram presentes no atual ciclo económico em que algumas delas ganharam recentemente contornos interessantes.

Em primeiro lugar, devem-se retirar ilações desta autoflagelação negocial dos EUA, que oferece gratuitamente a opção à China de liderar o espírito do livre comércio, como tão bem Xi Jinping quis assegurar no fórum asiático de Boao nesta semana. A simples ilação a retirar, é que a China, mesmo sabendo que pode ganhar esta partida de poker, estará sempre disposta a aceitar mais uma “parole”, para consolidar a sua posição no comércio internacional a longo prazo.

Nesta conjuntura, quem tiver a habilidade de se posicionar de forma mais equidistante, é quem vai retirar mais benefícios a prazo. As companhias europeias e japonesas serão seguramente as que reunirão melhores condições para explorar acordos fiáveis e duradouros com a China.

O segundo ponto em análise é que este enfastiado jogo de poker nos tem distraído daquilo que é verdadeiramente importante, isto é, evaporaram-se os receios de uma mais pronunciada subida das taxas de juro, debaixo da nova presidência da FED. Os riscos de uma súbita aceleração da inflação encontram-se bastante mitigados, quando enquadrados no contexto atual, da Dívida, da Desigualdade e da Demografia, uma vez que estes três fatores são handicaps estruturais da inflação. Esta percepção começa a ganhar alguma tração e as recentes intervenções de Jerome Powell já começam a evidenciar isso mesmo. A mensagem já não assenta num desequilibrado enfoque sobre a necessidade de combater um risco latente de inflação, mas sim, em garantir uma subida gradual das taxas de juro de forma a proporcionar maior longevidade no atual ciclo. Este sim, é um ponto fundamental para a redução de incerteza nos mercados financeiros, tanto mais que as subidas das taxas de juro para o próximo ano nos EUA, podem-se tornar, de um momento para outro, em algo mais esporádico ou mesmo inexistente...

Por fim, o terceiro tema estrutural que está em marcha é a crescente constatação que a grande ameaça para o crescimento económico integrado, não é o comércio livre, mas sim a excessiva desregulamentação do E-commerce e da Internet Media. Após a identificação destes riscos, muito Estados estão a adoptar medidas de regulação, tributação e fiscalização para acabar com os abusos de posições dominantes, suprimir barreiras à entrada, garantir uma maior equidade fiscal e impedir a manipulação de informação. Não se trata de travar o progresso, antes pelo contrário, está a corrigir-se uma postura excessivamente permissiva que promovia a concorrência desleal, inibindo a capacidade de readaptação de muitos negócios. Uma maior convergência entre o denominado setor tradicional e a nova economia vai trazer uma maior capacidade de adequação dos negócios e uma melhor repartição lucros das empresas.

Para quem acredita nestas três tendências estruturais em curso e sabe que a lógica de investir em ativos de risco está muito para além de uma partida de poker, a confiança económica subjacente ao atual ciclo, continua a constituir-se numa excelente oportunidade de se fazer dinheiro. Não é por isso altura para os investidores se deixarem impressionar com as baforadas dos charutos, com os bluffs e muito menos, aceitar uma proposta de “parole”!

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