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“Paciência de Jó”


“A paciência de Jó” é um texto do antigo testamento em que Deus testa até aos limites a Fé de Jó, expondo-o às maiores adversidades.

A paciência é uma virtude humana que assenta na tolerância e no autocontrolo emocional, que se traduz na capacidade de um indivíduo em lidar com situações difíceis ou erros alheios, sem nunca perder a calma e a concentração. As duas principais características que estão inerentes a esta virtude humana, são o autocontrolo e o facto de não sermos nós os responsáveis pela criação da adversidade.

Quando na semana passada, o presidente da Reserva Federal Americana (FED), utilizou por oito vezes a palavra paciência na sua conferência de imprensa e sinalizou uma substancial alteração do rumo da sua política monetária, algo de insólito se passou.

Em primeiro lugar, ficou a dúvida se o presidente da FED age de forma paciente ou como um paciente, na medida em que, uma transformação tão radical do discurso levanta questões de credibilidade. Se nos recordarmos, não foi assim há muito tempo que segundo ele, a política monetária se encontrava “longe de estar neutral”, sinalizando na altura que as taxas de juro iriam continuar a subir e que o balanço da FED iria continuar a reduzir-se. Quando estas declarações foram proferidas já eram por demais visíveis os sinais de abrandamento económico e de alguma degradação das condições financeiras. No entanto, o presidente da FED parecia enfeitiçado em perseguir fenómenos temporais inflacionistas, ignorando os fatores estruturais deflacionistas que se enraizavam, neste mundo desigual, envelhecido, endividado e tecnologicamente disruptivo.

Em segundo lugar, o uso da palavra paciência é mal empregue, porque o que aconteceu nos mercados financeiros no último trimestre do ano passado, onde se agravaram substancialmente as condições financeiras, não foi fruto de uma situação causada por terceiros, como foi dado a entender na conferência de imprensa, mas foi sobretudo auto infligido pela FED. A subida de 50% que assistimos nos spreads de crédito em investment grade, tanto nos EUA como na Europa, foi fruto da impaciência da FED e da sua incapacidade em lidar com as intromissões do presidente dos EUA, que estranhamente nesta matéria até foi invulgarmente assertivo…

Em terceiro lugar, foi inusitado o anacronismo que esteve subjacente à forma como foram alinhados os temas do “shutdown”, do abrandamento económico, das tensões comerciais e do Brexit na conferência de imprensa, como se todos tivessem ocorrido recentemente e em simultâneo, justificando-se assim o emprego abusivo da palavra paciência e a sinalização da alteração do ritmo de redução do balanço da FED.

Por tudo isto, sobressai um tema invulgar de credibilidade sobre a FED, que nos deixa uma dúvida legítima sobre o que esperar no futuro, na medida em que, se a nossa paciência já estava abalada com o desacerto dos atores políticos, não precisávamos que também os Bancos Centrais constituíssem um motivo para apreensão. Não deixa por isso de ser insólita a forma como a FED num curto espaço de tempo assumiu posturas tão contraditórias, em que o grau extremado das suas posições roça a bipolaridade.

Contudo, e independentemente da forma menos feliz como todo este processo decorreu, temos de dar este capítulo como encerrado, na medida em que é improvável que a FED volte tão cedo a cometer um erro de política monetária. Por outro lado, não podemos ignorar que este emendar de mão da política monetária é muito significativo. De facto, temo-nos de abstrair do erro da FED e da sua tentativa de o branquear e focarmo-nos naquilo que vai ser realmente importante daqui em diante. O foco voltou a ser de novo o uso flexível da política monetária de forma a assegurar a longevidade do atual ciclo económico global.

Fica o prémio de consolação, para nós, gestores, analistas, investidores e clientes, que o erro foi corrigido e resta-nos ter a consciência, que por vezes, é preciso ter uma paciência de Jó para aturar tudo isto!

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