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BiG: "O contexto externo menos favorável, a estagnação do consumo interno e do investimento são fatores que deverão contribuir para a desaceleração da economia portuguesa"


(Perspetivas para 2019, traçadas por João Lampreia, Head of Research do BiG - Banco de Investimento Global.)

Estados Unidos da América

O longo período de expansão económica sucessiva (este é o 2ª maior ciclo económico positivo desde o início da série temporal existente) tem sido interpretado como o indicador de uma recessão iminente. Contudo, os indicadores macroeconómicos indicam que 2019 será ainda um ano de crescimento (ainda que mais moderado face a 2018).

A Reserva Federal norte-americana tem indicado que será mais flexível no processo de normalização monetária de forma a não asfixiar a evolução económica, reduzindo assim o risco que a entrada em recessão seja mais acelerada via um aumento demasiado célere de taxa de juro, por parte da Reserva Federal. 

 Os riscos de recessão estão, na nossa visão, enviesados para meados de 2020, caso a FED concretize a trajetória de subida de taxas prevista no dot plot(duas em 2019), sendo que num cenário mais pessimista o mercado acionista poderá já descontar este efeito no final de 2019 – com os níveis de volatilidade a exibirem-se acima do passado recente. Desta forma, sugerimos um posicionamento mais seletivo no mercado, privilegiando sectores defensivos e com avaliações sólidas. Identificamos valor, numa perspetiva anual, nos sectores norte-americanos de utilities, cuidados de saúde e bens de consumo. Numa perspetiva de estilo de investimento, favorecemos uma rotação de momentum para quality.

 Europa

O fim histórico do programa de quantitative easing (QE) levado a cabo pelo BCE coincidiu com a evidente desaceleração da economia europeia, não obstante o gradual apaziguamento do risco político em Itália. A quebra nas exportações, em parte associada às tensões comerciais EUA-China e, por outro, a uma redução das exportações para o Reino Unido com a deterioração macro na região a acentuar-se com a proximidade da data do Brexit, aliado a uma concessão de crédito anémica que penalizou o nível de consumo e investimento traduziram-se nos principais fatores que determinaram o arrefecimento económico Europeu.

O ano de 2019, caso se materialize algum tipo de acordo entre EUA-China que dirimam as tensões comerciais, deverá traduzir-se num crescimento da procura externa via incremento das exportações para; i) China (desaceleração económica será contida); ii) EUA (estabilização das relações diplomáticas); iii) Reino Unido que beneficiará da resolução do Brexit, seja qual for o cenário em que este se materializará.

No contexto de crescimento mais baixo, a procura interna, beneficiando dum incremento de poder de compra – apoiado pelo avanço sustentado dos salários e por uma menor inflação energética – permanecerá um pilar estrutural da economia europeia.

Após atingir máximos de 2011, o diferencial entre a inflação energética e a inflação core deverá continuar a comprimir, reduzindo a inflação harmonizada para valores inferiores ao objetivo estipulado pelo mandato único do Banco Central Europeu (2%).

Com efeito, a menor pressão inflacionista potencial, assumindo que o petróleo tem um potencial de apreciação limitado, restringe significativamente a margem de atuação do BCE, independentemente do posicionamento do sucessor de Draghi, cujo mandato termina a 31 de outubro de 2019. Para já, antecipamos apenas uma subida da taxa de juro (depo e talvez também da refi) no último trimestre do ano.

Não obstante este cenário menos risonho para a economia europeia, o fim do quantitative easing deverá estimular finalmente uma subida mais sustentada das yields de dívida alemã, criando espaço – ainda que relativamente modesto – para apreciação do EUR face ao USD, à medida que o sentimento económico nos EUA vai incorporando sinais de maior abrandamento.

Reino Unido

Depois da derrota histórica no Parlamento britânico com a rejeição do acordo alcançado por Theresa May com a União Europeia, o cenário mais provável é a realização de um segundo referendo. Caso um novo sufrágio seja convocado, perante uma população agora informada e com a camada votante mais jovem reforçada, antecipamos um resultado diferente, que não reverta quase meio século de integração com a União Europeia.

A permanência na UE (ou mesmo, em menor escala, um Soft Brexit) deverá desencadear um significativo potencial de crescimento para a economia britânica, verificando-se uma retoma de três principais agregados macroeconómicos: o consumo, pela via de maior confiança e maior poder de compra, graças à recuperação da libra esterlina; o investimento, variável que mais retraiu em virtude da elevadíssima incerteza; e despesa pública, com o fim da austeridade a permitir medidas orçamentais de cariz mais expansionista, já estabelecidas para 2019. Concomitantemente, as indústrias-chave e o mercado imobiliário deverão igualmente recuperar, ainda que de forma potencialmente heterogénea.

O Banco de Inglaterra deverá, independentemente do desfecho, subir a taxa de juro de referência. A permanência na UE ou um Soft Brexit deverão permitir uma normalização gradual e saudável, enquanto um Hard Brexit deverá motivar uma política monetária mais errática, com aumentos de taxa de juro, num primeiro momento, a fim de suportar a libra e, posteriormente, descidas de modo a tentar segurar a economia.

A libra, as taxas de juro soberanas e os ativos de risco, especialmente as ações mais ligadas à economia britânica, do sector financeiro e os REIT que investem no mercado doméstico deverão conhecer um caminho ascendente nos dois cenários benignos apresentados.

  Portugal

 A economia Portuguesa deverá abrandar o ritmo de crescimento para 1,8%, depois do produto ter crescido acima do PIB potencial nos últimos dois anos – em resultado de um ajustamento muito significativo do sector privado – seja pelo crescimento substancial das exportações que motivou uma evolução muito favorável do Saldo de Conta Corrente, bem como pelo nível de desalavancagem relevante que foi alcançado. Refira-se que as exportações beneficiaram de condições praticamente únicas de que é exemplo a “explosão do Investimento Direto Estrangeiro” e do Turismo que levaram o preço do mercado imobiliário para níveis já relativamente especulativos.

Para 2019, o contexto externo menos favorável, a estagnação do consumo interno e do investimento são fatores que deverão contribuir para a referida desaceleração da economia Portuguesa.

Japão

 A economia nipónica deverá desacelerar em 2019 para o limiar inferior do respetivo PIB potencial (entre 0,7% a 1%), refletindo essencialmente uma gradual quebra do consumo e do investimento. Com a inflação ancorada nos 0,9% - longe do target do BoJ (2%), o programa de expansão monetária não convencional (em contraciclo com o resto do mundo) assente na gestão dinâmica da curva de dívida e na compra de ativos no limite anual de JPY 80 tri dificilmente será revertido no curto prazo - colocando pressão relativa sobre o Iene. Já a correlação inversa significativa entre a divisa e o respetivo mercado acionista, acoplado com métricas fundamentais historicamente atrativas e a crescente robustez do tecido empresarial nipónico leva-nos a considerar o investimento no Nikkei 225 como uma alternativa interessante entre os ativos de risco.

China

Os estímulos implementados recentemente pelo governo, juntamente com uma política monetária mais expansionista por parte do banco central (PBoC) deverão impulsionar o investimento e o consumo.

 O problema do excesso de endividamento subsiste, mas uma recuperação no crescimento aliviaria a curto prazo o risco de uma bolha de dívida.

Uma escalada das tensões comerciais com os EUA permanece como o maior risco para a economia chinesa.

 

Outros emergentes

Após um 2018 muito negativo para o bloco, na sequência da subida de taxas de juro nos EUA e pelo fortalecimento do USD, restringindo a liquidez global e motivando outflows dos Emergentes, pensamos que 2019 poderá traduzir algum género de recuperação na região. Ainda que as desvalorizações dos pares cambiais emergentes suscitem riscos de instabilidade, a posição financeira da maioria dos países não revela preocupações significativas. A inflação agregada e a evolução do Saldo de Conta Corrente do Bloco Emergente apresentam uma tendência favorável. Mesmo que as economias atualmente “debaixo de fogo” - Argentina e Turquia – terão ainda dificuldade em lidar com os respetivos desequilíbrios estruturais, o seu perfil idiossincrático deverá motivar a que os riscos de contágio sejam mitigados. Considerando a suavização dos riscos da China e os fundamentais atrativos de alguns países Asiáticos – macroestrutural e de avaliação – consideramos esta geografia como a mais interessante para investimento em ações no novo ano.

 Matérias-primas

 Crude: O claro excesso de oferta no mercado – a par da desaceleração económica, que motivou a acumulação de inventários a nível mundial – transformou o rally do crude num bear market em aproximadamente dois meses. A decisão de corte de produção por parte OPEP+ deverá permitir eliminar o excedente existente no mercado no terceiro trimestre de 2019. De qualquer modo, a desaceleração económica global sincronizada que perspectivamos para 2019 deverá limitar o preço do barril a valores inferiores aos alcançados no ano passado. Com efeito, as expectativas de inflação, amplamente ancoradas aos preços das matérias-primas energéticas e, sobretudo, o crude, deverão permanecer contidas.

Ouro: Uma atenuação das taxas de juro norte-americanas, o consequente abrandamento do USD, o aumento de volatilidade accionista que deverá anteceder o fim de ciclo económico, a crescente procura por parte de bancos centrais e uma retoma na procura por ETFs, são os principais catalisadores que nos levam a antever um ano positivo para o Ouro.

 Síntese de posicionamento – Top Calls BiG Research

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1.     Acções

- Quality US;

- Financials Europa;

- Índice Acionista Ásia Emergente;

2.     Dívida

- Valor Relativo em Itália;

- Treasuries ~3% yield e Floaters;

- Índice Agregado de Dívida Emergente;

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