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Os viés comportamentais dos profissionais portugueses da área financeira


(Artigo de opinião escrito por Alexander Coutts, Professor na Nova SBE)

A 14 de maio tive o gosto de falar sobre comportamento económico e financeiro na terceira edição da Funds Talks. Pedi aos presentes que respondessem a algumas questões à medida que a apresentação fluía para que pudéssemos ver as respostas em tempo real. O propósito desta atividade era não só aprender quantos de nós somos parciais, mas também mostrar que até profissionais com experiência não estão imunes as estas parcialidades. Para quebrar o gelo analisámos algumas questões básicas sobre os clubes de futebol preferidos do grupo (não houve um claro vencedor entre Sporting vs Benfica) e sobre risco (dois terços demonstram aversão ao risco, como a maioria de nós).

O primeiro viés de que falámos foi o excesso de confiança. Os resultados mostraram que pode sair caro no que diz respeito aos mercados financeiros. Pedi ao público para se classificarem honestamente de 1 a 10 em termos de performance entre os profissionais com funções semelhantes. Como se veem a si mesmos? 88% classificou-se a si próprio no top 5. Por outras palavras, 9 em 10 pessoas julgam estar no top 5, o que obviamente não pode acontecer com indivíduos 'bem calibrados'. Portanto, parece que o grupo tinha bastante excesso de confiança.

De seguida discutimos a aversão a perdas, um desvio comportamental descoberto pelos professores Amos Tversky e Daniel Kahneman. Falo especificamente da tendência para sobreponderarmos as perdas relativamente aos ganhos; por outras palavras, a dor de perder 50 euros é maior do que o prazer de encontrar 50 euros. A aversão a perdas também muda a forma como tomamos decisões arriscadas, faz com que assumamos mais riscos quando lidamos com perdas do que o fazemos quando perante ganhos. Para demonstrar isto coloquei a seguinte questão, adaptada de Tversky e Kahneman (1981). É de destacar que os participantes viram A.G e B.G ou A.L e B.L. Destaca-se também que A.G é o mesmo que A.L, e B.G é o mesmo que B.L!

- Imagine que Portugal está a preparar-se para um surto de uma invulgar doença asiática e que se espera que mate 600 pessoas. Foram apresentadas duas opções para combater a doença. Suponha que a estimativa científica exata das consequências do programa é a seguinte:

Opção A.G: 200 serão salvas.

Opção A.L: 400 vão morrer.

Opção B.G: A 1/3 de probabilidade de salvar 600 pessoas, e 2/3 de probabilidade de ninguém ser salvo.

Opção B.L: A 1/3 probabilidade de ninguém morrer, e 2/3 de probabilidade de morrerem 600 pessoas.

Pedi-lhes que escolhessem entre a opção A ou B. A opção B é a mais arriscada. A maioria das pessoas escolhe A quando lhes mostram A.G e B.G, mas escolhe B quando lhes mostram A.L e B.L. Isso ocorre porque A.G / B.G são enquadrados como ganhos (pessoas salvas), enquanto A.L / B.L são enquadrados como perdas (pessoas que morrem). Na audiência, aqueles que viram o enquadramento de ganhos (G) escolheram a opção A 37% das vezes, mas aqueles que viram o enquadramento de perda (L) escolheram A apenas 17% das vezes, menos de metade da frequência. Assim, a experiência foi um sucesso: mostrou que apenas uma pequena mudança no enquadramento influenciou as pessoas a escolher opções mais arriscadas.

A questão final analisava investimentos hipotéticos para testar uma aversão ao risco míope: quando as pessoas se focam demasiado no curto prazo, e devido à aversão ao risco, acabam por investir muito pouco. Quando se preparam para investir no longo prazo, percebem que as probabilidades de perda são mais baixas, e investem mais. Para ver se a audiência era afetada por esta parcialidade, alguns tiveram a oportunidade de reavaliar as suas escolhas a cada decisão tomada, enquanto outros fizeram as mesmas escolhas, mas não tiveram a oportunidade de as reavaliar. Previa-se que aqueles que reavaliassem as suas escolhas frequentemente investissem menos, já que estariam a pensar no curto prazo. Na verdade, os resultados não mostraram enviesamentos, o que é uma boa notícia para o nosso público.

De um modo geral esta experiência foi fantástica, e fui capaz de partilhar a minha paixão em estudar as maneiras como somos tendenciosos e aprender algo sobre este grupo de profissionais experientes.

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