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Os sete pontos mais importantes do programa de aquisição de dívida corporativa por parte do BCE


O mercado esperava que a reunião do BCE de ontem não fosse das reuniões mais transcendentes, especialmente depois de Mario Draghi usar a ‘bazuca’ monetária em março. No entanto, Draghi fez algumas manchetes, como estas: “continuamos a esperar que se mantenham aos níveis atuais ou mais baixos durante um grande período de tempo, bem além do final programa de aquisições”.  Um grande número de participantes do mercado interpretou estas palavras como uma forma de abrir caminho para as taxas de juro negativas.

Além disso, o banco central divulgou os detalhes do seu programa de aquisição de obrigações corporativas (CSPP em inglês), que começaram em junho juntamente com os novos TLTROs. Até ontem, apenas se sabia que a dívida elegível seria não financeira, emitida na Zona Euro e com grau de investimento. A autoridade monetária forneceu, agora, novos dados que ajudam a esclarecer algumas conjeturas dos investidores.

Em primeiro lugar, seis bancos centrais do sistema europeu se encarregarão das compras, com a coordenação do BCE: O Banco Nacional da Bélgica, o Bundesbank, o Banco de Espanha, o Banco de França, o Banco de Itália e ainda o Banco da Finlândia. Em segundo lugar, as aquisições são feitas tanto no mercado primário como no secundário, excluindo emissões de instrumentos de dívida no mercado primário que se podem categorizar como projetos públicos. As obrigações elegíveis devem cumprir estes critérios:

  • Podem ser utilizadas como colateral para operações de crédito no sistema europeu
  • Denominadas em euros
  • O rating deve ser no mínimo BBB- ou equivalente
  • Com um vencimento mínimo de seis meses e um máximo de 30 anos
  • O emissor deve ser uma empresa estabelecida na Zona Euro, definido pela localização da constituição da empresa. Poderá investir, também, em dívida de empresas fundadas na Zona Euro, mas que a sua matriz não esteja em território europeu
  • O emissor não pode ser uma instituição de crédito nem pertencer a um grupo que seja uma instituição de crédito. Também não pode ser uma veiculo de gestão de ativos, uma gestora nacional nem um fundo de liquidação, criado para apoiar a reestruturação do sector financeiro
  • O limite de aquisição será de 70% de cada emissão por ISIN, sobre a quantidade de dívida viva de cada emissão.

Além disso, a entidade indicou que publicará o volume de investimento em CSPP semanal e mensalmente, a par com a publicação da desagregação entre intervenções no mercado primário e secundário.

Reações

As primeiras reações oscilam entre a cautela e o cepticismo. Philippe Waechter, economista chefe da NAM (filial da Natixis Global AM), interpreta do seguinte modo a intervenção: “Mario Draghi está à espera dos efeitos da sua política monetária sobre a atividade económica e a taxa de inflação. Foram tomadas muitas medidas nos últimos meses e especificamente no passado março, que ainda não desenvolveram todo o seu potencial. A conclusão de Waechter é que “as taxas de juro continuarão baixas durante um largo período de tempo”. Como Draghi não quis descartar a aplicação de taxas negativas, o especialista acredita que a mais recente manobra “é uma pausa”.

Andrew Bosomworth, responsável de gestão de carteiras da PIMCO na Alemanha, acredita que “o BCE não tratará as massivas injeções de dinheiro como uma alternativa de política monetária, no futuro próximo”. Por outro lado, Bosomworth considera mais provável que o BCE tire da sua caixa de ferramentas monetárias medidas como “um corte de taxas (final?) para os -0,5%, uma ampliação adicional do QE (por tamanho, maturidade ou composição dos ativos), assim como mudanças na distribuição de capital nas aquisições do QE”. Para o responsável, “a não ser que se produza um grande choque negativo, o BCE ficará em modo ‘piloto automático’ durante o terceiro trimestre de 2016”. Apoiando-se no facto de os futuros da EONIA descontarem uma descida para -0,45 entre o quarto trimestre de 2016 e o primeiro de 2016, Bosomworth aponta para “um corte de 10 pontos base para os -0,5% nos depósitos junto ao banco central, que provavelmente viria acompanhada de um corte para -0,1% da taxa de juro e uma expansão do QE”.

“Com a inclusão da dívida corporativa até 30 anos, as emissões podem incrementar-se significativamente na parte longa da curva”, explica Marilyn Watson, responsável da pela estratégia mundial de fixed income baseada em fundamentais da BlackRock. A especialista  indica que, até agora, “a parte longa da curva do mercado corporativo tem apresentado bolsas limitadas de procura natural, mas agora, com o BCE a elevar o limite das aquisições até 70%, a capacidade dos emissores colocarem dívida de maiores maturidades aumentou significativamente”. Isto leva a especialista a concluir que o anúncio de ontem pode ter marcado “o começo de um mercado corporativo muito mais profundo nas emissões de 15 anos ou mais longas”.

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